Dizer que hoje se tem alguma resposta para a educação, é mentira. Chegamos
num ponto em que ninguém sabe exatamente mais o que pensar, ainda que se
continue pensando e isto seja necessário. Precisamos reconhecer: tudo o que
temos dito sobre o assunto nos últimos tempos são apenas conjeturas. Isso
porque ninguém tem a menor idéia de para aonde o mundo está indo. Qualquer novo
grande fenômeno - e advirão muitos nas próximas décadas - poderá mudar
drasticamente o rumo dos acontecimentos. Então, como saber de que modo preparar
o aluno? Para que mundo?
Mesmo quando se diz ser necessário ensinar o indivíduo a aprender por si
mesmo, estamos alimentando uma falácia. Em último grau isto quer dizer:
aprender de improviso diante de um objeto desconhecido, de desconhecidas causas
e consequências. Neste caso, pode-se aprender algo completamente ineficiente ou
mesmo danoso, em curto, médio e ou longo prazo. Imagine que um novo fenômeno se
apresente e lá vamos nós conjeturar a partir de lógicas que por si mesmas são falhas
e enganosas, por não contemplarem a complexa multiplicidade dos fatos e dos
objetos. Nem mesmo trilhões de dados reunidos e sofisticados algoritmos podem
traduzir essa complexidade. E muito disso por estarmos lidando com pessoas e
seus infinitos paradoxais interesses, além de suas ideologias, sua imaturidades
e, principalmente, sua animalidade.
Nenhuma ciência, portanto, é tão séria quanto quer parecer. Por exemplo,
não é muito séria uma medicina que não enxerga o ser humano como um conjunto de
reações interdependentes, físicas e psíquicas. No entanto, é essa medicina que
se aplica no mundo. Não são muito sérias uma engenharia e uma arquitetura que
não contemplam os reais impactos ambientais, inclusive sobre o ambiente humano,
impedidas dessa leitura por interesses econômicos que atropelam possibilidades
mais éticas e humanísticas. Não é muito séria uma educação que apenas tenta preparar
o indivíduo para o mercado de trabalho, esquecendo-se de educá-lo para o
bem-estar. A escola, na verdade, ensina o indivíduo a ser triste, por ser ela
mesma uma das grandes replicadoras de um modelo falido que não contempla o mais
importante: a vida. Ou existe algo mais importante que a vida? Também não é nada
séria uma política econômica que fomenta tantas desigualdades e promove a
competitividade como se ainda estivéssemos numa selva, como não é séria nossa
estrutura social que vem promovendo uma explosão demográfica de deprimidos, ansiosos
críticos, alienados e simples produtores e consumidores.
Então, o que ensinar ao aluno? Acredito em apenas duas possibilidades: ensiná-lo
a desconstruir seus atavismos, suas crenças e sua cultura, nocivos a si mesmo e
à sociedade, e autorizá-lo a reconstruir um mundo melhor, incluindo o seu
próprio. Porque estamos, claramente, como que presos a um emaranhado de arame
farpado, no qual, quanto mais tentamos agir, mais nos enroscamos e nos
machucamos.
A única educação que poderia hoje se dizer séria, portanto, seria uma a
romper cada conexão dessa teia farpada que nos escraviza e nos entristece cada
vez mais.
Magno Mello