segunda-feira, 7 de julho de 2014

O que ganhamos com a cultura

O mais importante benefício de se possuir boa cultura, sem dúvida, diz respeito à capacidade do indivíduo reconhecer-se como protagonista de sua própria história no mundo do qual participa. Não a partir de um protagonismo ilusório e alternante que ora se sente realizado por incluir-se no senso comum, muitas vezes até tendo a sensação de nele estar diluído - como no caso de torcidas esportivas, de imensas platéias em shows de artistas do momento, de vocabulários, indumentárias e produtos da moda, entre outros signos de pertencimento - e num outro momento compreende sua falta de opções para atuar de modo mais decisivo em seu destino profissional, social e até afetivo. Nesse momento, muitas vezes, são pessoas que não gostam de seus trabalhos, de suas obrigações cotidianas, percebendo-se também irremediavelmente atreladas a uma tediosa e alienante rotina, que as levam a sonhar com acertos em loterias e outras formas de enriquecimento repentino, e ainda com aposentadorias, com imagens artificiais produzidas pela mídia, com a fama pura e simples, com a aquisição de produtos que possam torná-las supostamente mais importantes.
 
O indivíduo subjetivado e detentor de certa cultura, por outro lado, sente-se mais frequentemente importante diante de si mesmo. Procura, e, não raras as vezes, encontra um caminho para fazer o que mais gosta, ganhando dinheiro com isso. Tem menos necessidade de consumo, por ocupar mais horas de seu dia com experenciações próprias, dentro e fora de si, como situações de auto-aprendizado, com seu próprio trabalho, que lhe é agradável ou motivo de paixão, com as pessoas em seu ambiente profissional, pois a escolha de seu trabalho também determina a qualidade de suas relações. E ainda, em alto grau, com a criação em geral, com sua solitude, com outras percepções e apreensões do mundo, que não necessariamente envolvem consumo, mas, em tantos momentos, até produzem insumos, tangíveis e intangíveis, reais e ficcionais, para usufruto próprio ou de terceiros. 

A subjetividade e a visão cultural também possibilitam ao indivíduo perceber melhor seus talentos e vocações, descobrir o que deseja profissionalmente, enxergar para além de modelos padronizados e ilusórios, encontrar formas singulares de vivenciar seus interesses, seus gozos, suas vontades, impor ao mundo seu estilo de vida e respeitar o dos outros, desconstruir sub-reptícios conceitos de culpa, romper com táticas visíveis e invisíveis de dominação, olhar o mundo com seus próprios olhos, criar seus próprios valores, transgredir saudavelmente e colaborar para um mundo melhor para todos. 

Um outro aspecto da aquisição cultural e artística são as escolhas que fazemos a cada produto que compramos, a cada roteiro de viagem que escolhemos, a cada filme ou programa de TV que assistimos, a cada música que ouvimos, a cada livro que lemos, a cada amizade que estabelecemos, a cada comida que comemos. O refinamento estético aliado à capacidade de discernimento crítico, à sensibilidade e à percepção da singularidade de quem somos, nos faz escolher melhor a cada situação em nossas vidas, sem que seja esta uma escolha necessariamente racional, mas, antes, um processo internalizado. O uso de nosso tempo, portanto, depende de escolhas. Decidimos a cada momento se faremos isto, aquilo ou outra coisa. E ainda, como e porque faremos, pois são muitas as ofertas do mundo.
 
Por fim, a visão cultural mais ampliada além de nos mostrar um leque maior de possibilidades, nos leva também a intuir, a partir do cruzamento de nosso arsenal de dados objetivos e subjetivos, opções que não estão visíveis, mas que podem ser criadas por nós mesmos.
 

Magno Mello

domingo, 22 de junho de 2014

Pensar com as mãos e a partir dos sonhos

Acho que já disse em algum texto meu que, segundo Rousseau, o homem começou a pensar com as mãos, desde o dia em que chamou a primeira ferramenta de ferramenta. Pois diz-se que foi assim: nosso ancestral utilizava uma pedra, e outra, e mais outra, mas a cada vez que fazia uso jogava fora sem imaginar que aquela poderia servir para se utilizar no futuro, no outro dia, em uma próxima situação em que talvez não houvesse uma pedra por perto, caso se precisasse. 
 
Então, um belo dia, aquele bicho querendo virar gente pensou em guardar um desses pedregulhos, ainda não intencionalmente lascado, para usar numa próxima vez. Estava assim criada a ferramenta. E com isso a primeira abstração: ferramenta. “Esta pedra é ferramenta. E a que usei na vez anterior, também”. Eis a primeira idéia lógica, nascida diretamente das mãos e, posterior ou concomitantemente, enviada para a caixa de entrada do cérebro, segundo nosso querido Rousseau. 

Daí entra Freud, que diz em seu belo e curioso estudo “A Interpretação dos Sonhos”, que nossos sonhos são em grande parte feitos de reminiscências de acontecimentos recentes, do dia anterior ou mesmo do próprio dia em que se sonha; e só como detalhe: Freud também propõe que todas as personagens de nossos sonhos somos nós mesmos. 

Voltando ao nosso ancestral macacóide, imagino-o dormindo, mergulhado em seus sonhos, naquele mesmo dia ou no dia seguinte à descoberta que o levou ao pensamento lógico, quando, de alguma doida forma onírica, obviamente,  lhe aparece aquela abstração: a ferramenta. E a pedra-mãe começa a ganhar desdobramentos pré-simbólicos a partir de imagens que vão se contrapondo, justapondo e interpondo misteriosamente. De repente, numa dessas imagens tresloucadas, surge uma outra pedra, do nada, e atinge a cabeça de nosso herói. A pedra que pareceu lhe castigar é por ele mesmo arremessada longe, não mais voltando. E ainda: surge uma ferramenta-raio numa dessas conexões impossíveis que só o sonho permite. E esta, ao ser batida contra o objeto que se quer partir, provoca o estrondo de um trovão, fenômeno que já o amedronta em vida pela proporção e inexplicabilidade. E sua mão nessa hora se transforma na mão de um ser gigante que, assim como o trovão, mora no céu. E por aí vai... 

Agora entra em nossa história um terceiro grande cientista, o antropólogo francês Lévi-Strauss e sua obra “O Cru e o Cozido”, também linda de morrer. Lévi-Strauss trabalhou com a formação dos mitos e esse livro apresenta dezenas de histórias míticas reconstruídas, de tribos ancestrais das Américas, especialmente do Sul e Central. As histórias são usadas para tentar explicar como se deu a transformação psíquica – e, portanto, mítica – na cabeça desses povos, a partir da mudança de consumo do alimento cru para o cozido. 

O interessante é que as histórias são, invariavelmente, loucos devaneios, não de todo sem-pé-nem-cabeça, mas, no mínimo, com os pés-na-cabeça. São acontecimentos não lineares, não temporais e não lógicos, embora sejam acontecimentos (sem dúvida) e registrem a história mítica desses povos, sobre seus deuses, o aparecimento das coisas, dos alimentos, dos bichos, de como surgiu o céu, o rio, enfim, sobre tudo que existia e não existia no mundo. E é impossível não associar essa teia caótica de acontecimentos com os acontecimentos como se dão nos sonhos, ainda que Lévi-Strauss, se bem me lembro, não tenha dado importância a esse fato. 

O que pretendo aqui considerar, portanto, é que fizemos boa parte de nossas conexões mentais com base nos sonhos de outrora. Construímos nosso mundo mítico a partir dos sonhos, sendo que esse universo serviu de base para a construção de nossos valores e crenças, que, finalmente, aliados a outros fatores, especialmente os de interesses pessoais, moldaram o mundo em que vivemos. Enquanto os sonhos de nossos ancestrais iam sendo contados nas tribos, imagino que em grandes rodas, mas também em conversas privadas ou em pequenos grupos, nossas crenças iam se moldando. E ainda íamos com isso desenvolvendo e enriquecendo nossas conexões mentais e silógicas. Tudo, a partir de uma louca e desenfreada experiência: o sonho. E é claro que de forma semelhante, como nos contos míticos desses e de tantos povos, se deram as escrituras do Velho e do Novo Testamento, do Corão e do Vedas, entre outros, que também apresentam essas linguagens e semânticas devaneadas, desconstruídas, lúdicas e simbólicas.  

Enfim, essa é uma possibilidade: começamos a pensar com as mãos e desenvolvemos uma parte significativa de nosso pensamento, de nossas crenças e valores, a partir do fantástico mundo onírico. E das idéias dos que se aproveitaram disso, claro. 
 
Magno Mello         

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Para que e a quem serve a educação

Dizer que hoje se tem alguma resposta para a educação, é mentira. Chegamos num ponto em que ninguém sabe exatamente mais o que pensar, ainda que se continue pensando e isto seja necessário. Precisamos reconhecer: tudo o que temos dito sobre o assunto nos últimos tempos são apenas conjeturas. Isso porque ninguém tem a menor idéia de para aonde o mundo está indo. Qualquer novo grande fenômeno - e advirão muitos nas próximas décadas - poderá mudar drasticamente o rumo dos acontecimentos. Então, como saber de que modo preparar o aluno? Para que mundo?

Mesmo quando se diz ser necessário ensinar o indivíduo a aprender por si mesmo, estamos alimentando uma falácia. Em último grau isto quer dizer: aprender de improviso diante de um objeto desconhecido, de desconhecidas causas e consequências. Neste caso, pode-se aprender algo completamente ineficiente ou mesmo danoso, em curto, médio e ou longo prazo. Imagine que um novo fenômeno se apresente e lá vamos nós conjeturar a partir de lógicas que por si mesmas são falhas e enganosas, por não contemplarem a complexa multiplicidade dos fatos e dos objetos. Nem mesmo trilhões de dados reunidos e sofisticados algoritmos podem traduzir essa complexidade. E muito disso por estarmos lidando com pessoas e seus infinitos paradoxais interesses, além de suas ideologias, sua imaturidades e, principalmente, sua animalidade.

Nenhuma ciência, portanto, é tão séria quanto quer parecer. Por exemplo, não é muito séria uma medicina que não enxerga o ser humano como um conjunto de reações interdependentes, físicas e psíquicas. No entanto, é essa medicina que se aplica no mundo. Não são muito sérias uma engenharia e uma arquitetura que não contemplam os reais impactos ambientais, inclusive sobre o ambiente humano, impedidas dessa leitura por interesses econômicos que atropelam possibilidades mais éticas e humanísticas. Não é muito séria uma educação que apenas tenta preparar o indivíduo para o mercado de trabalho, esquecendo-se de educá-lo para o bem-estar. A escola, na verdade, ensina o indivíduo a ser triste, por ser ela mesma uma das grandes replicadoras de um modelo falido que não contempla o mais importante: a vida. Ou existe algo mais importante que a vida? Também não é nada séria uma política econômica que fomenta tantas desigualdades e promove a competitividade como se ainda estivéssemos numa selva, como não é séria nossa estrutura social que vem promovendo uma explosão demográfica de deprimidos, ansiosos críticos, alienados e simples produtores e consumidores.

Então, o que ensinar ao aluno? Acredito em apenas duas possibilidades: ensiná-lo a desconstruir seus atavismos, suas crenças e sua cultura, nocivos a si mesmo e à sociedade, e autorizá-lo a reconstruir um mundo melhor, incluindo o seu próprio. Porque estamos, claramente, como que presos a um emaranhado de arame farpado, no qual, quanto mais tentamos agir, mais nos enroscamos e nos machucamos.

A única educação que poderia hoje se dizer séria, portanto, seria uma a romper cada conexão dessa teia farpada que nos escraviza e nos entristece cada vez mais.


Magno Mello

quinta-feira, 27 de março de 2014

Só a poesia salva

Recuso-me a desistir deste mundo, este, o único que temos. Sem dúvida, subvertendo a retórica de Pangloss, não é o melhor dos mundos possíveis. Acho até que algo de drástico está para acontecer. Sinto, como sinto cheiro de chuva; torço para estar com os sentidos alterados (ou não, para que se apresse o conserto). É como se assistisse a um filme em que, de repente, tudo fica silencioso. Daquele silêncio que precede o esporro, apesar da tagarelice nas redes, que me parecem agora apenas algaravias surdas e mudas. Os lábios se mexem, as letras aparecem. No entanto, não há som, nem sentido. Fico meio assustado. Toda uma configuração de pré-catástrofe, quando olhamos para a história. O radicalismo religioso em alta, o declínio moral, cultural e artístico, a superpopulação, a devastação ecológica...e essa agora de 67% dos entrevistados achando que a culpa da violência contra a mulher é dela mesma. Esses homens estão odiando as mulheres ou estou entendendo errado? Que loucura é essa?

Mas ainda assim quero acreditar que há salvação. Embora, e só isto deve ser real, Jesus não voltará. Nada mais voltará, apesar da idéia de economia de galinheiro que supostamente sempre foi a história: tudo em silêncio, de repente ouve-se um có, depois dois, três, cinco, oito, doze, dezessete, quarenta e nove, duzentos cós, cocós, cococós e cocoricós. E eis aquela explosão de cacarejos desenfreados, louco bater de asas e galinhas chocando-se umas contra as outras. Até que tudo cessa, silêncio total. Então, um novo có. E a coisa recomeça. Uma explosão a cada quatro minutos, se muito.

Não, a História não é assim. Apenas parece ser porque somos mentalmente preguiçosos e na maior parte das vezes agarramo-nos à primeira analogia que nos vem à mente. A história também nunca foi progressiva, mas de um desenrolar para todos os lados, sem direção. Somente uma coisa é certa, e isto podemos chamar de cíclico: uma hora a casa cai, sempre caiu. E a nossa, imagino, está ruindo, mesmo diante das promessas da ciência.

Nessa hora, talvez, já não há muito mais o que fazer. É difícil acreditar que a ética poderia mudar radicalmente em tão curto espaço de tempo. O tempo que precisaríamos para salvar nossa sociedade de uma catástrofe. Isso não vai acontecer. Mas não quer dizer que seremos dizimados do planeta. Talvez uma parte sim, por qualquer dos vários perigos que hoje nos rodeiam. Não há uma possibilidade de derrocada, há várias, de várias formas, entre guerras e tragédias naturais.

Pronto, disse o que queria dizer, esse pensamento andou me rondando. Quem sabe assim o expurgo? Mas ainda direi em verso. É deste modo que jamais desistirei do mundo: mais do que ver o lado bom ou ruim das coisas, quero enxergar alguma poesia. Isto porque, como disse, acredito que a vida humana não se extinguirá tão cedo neste planeta, ainda que a sociedade que construímos desmorone. E precisaremos mesmo de alguma poesia para reerguer as estruturas, colar os cacos. Desejando que o façamos dessa vez de modo mais saudável, justo e, por que não, mais belo. Foi e fui:


Todos os átomos

A lua inaugurou a noite
mas o sol brilhava
como o fato que já é fato
e ainda se prenuncia.
Dessa notícia vem o veredito:
sempre o poder, sempre
que, invariavelmente, destrói enquanto cria, tentando se conservar
ecos da Ilha de Páscoa, mensagens sumerianas, romanas, maias
tudo ali se destruindo à sombra dos mais altos edifícios (quanto menos controle, mais símbolos – e não o contrário)
e novamente agora
quando se ocupa quase todo o espaço
e migrar já não é possível...
Mas surge a nova mitologia - do futuro - de deuses asgardianos
que, no entanto, sangram
magiciência da terra prometida onde jaz a água contaminada
e aos filhos do poder caberá um mundo
de cem virgens para cada impotente
se me perguntassem, eu diria:
nada mais fundamentalista que o poder
em sua crença absoluta de crescer sem limites
enquanto religiosos vaticinam que a família salvará o mundo, o poder se dá entre famílias, não menos religiosas.
a lua inaugurou a noite
mas o sol brilhava nos quatro cantos do mundo
a não ser que se conte outra história.

Magno Mello

*É isso, que se apertem os cintos. E que saibamos afrouxá-los na hora certa.

quinta-feira, 20 de março de 2014

A era do big data

Certamente, muita gente já ouviu algo a respeito do big data. Entretanto, muito pouco se sabe sobre esse fenômeno que poderá, em muito pouco tempo, revolucionar a maneira como olhamos para o conhecimento. Hoje, sabe-se apenas que big data é o armazenamento e a leitura por meio de algoritmos de uma quantidade gigantesca de dados.

Sabemos também que esses dados são utilizados pelas grandes empresas para impulsionar suas vendas por meio de propagandas direcionadas na internet. Sabemos ainda que somos nós mesmos que fornecemos esses dados, a cada site que visitamos, a cada aplicativo que baixamos, a cada atualização em nossos computadores, a cada compra realizada com cartões de crédito e débito, no mundo físico e virtual. E também quando usamos nossos GPSs, mandamos um email, fazemos uma ligação pelo celular ou nos comunicamos pelas redes sociais, entre outras ações cotidianas. Até o modo como buscamos as informações na tela do computador, ou seja, o movimento de nosso cursor, é mapeado, dataficado e analisado. E a despeito de leis mais razoáveis de privacidade - se bem que as regras básicas estão contidas em cada longo termo de uso, de minúsculas letras, com os quais concordamos - esses bancos de dados produzidos por nós mesmos têm sido comercializados para empresas de todos os setores, em larga escala - aí já muitas vezes sem o nosso consentimento. Mas em outras tantas situações com nossa própria permissão, embora a leitura integral de cada um desses contratos nos tomaria mais tempo do que nos é possível dispor, e disso todas as empresas coletoras, analisadoras ou compradoras de dados estão cientes. E justamente por isso utilizam-se dessa estratégia que já deveria ter sido refreada pela justiça há pelo menos uns dois ou três anos.

De certo modo, muitas dessas informações anteriores já são mais ou menos sabidas por muitos de nós. O que talvez ainda não se tenha refletido de maneira mais aprofundada é que esse é um caminho sem volta e que essa prática invasiva tende a se espalhar para todos os segmentos de nossa vida privada. Simplesmente porque a maioria avassaladora das empresas do mundo, de médio e grande porte, e até as pequenas, vão aderir, na verdade já estão aderindo, a esse método. E dificilmente sobreviverão no mercado sem ele.

Bem, esse é o lado mais negativo do big data, embora haja outros. Mas o que muito pouca gente sabe é que isso pode ser apenas a ponta do iceberg para uma possível mudança de paradigma de como usamos e entendemos o conhecimento. Algo que os estudiosos nessa área têm sugerido como a substituição em larga escala do "por que algo acontece?", para simplesmente "o que acontece?". Não se sabe por que tal fenômeno ocorre ou ocorreu, e talvez nem dará tempo de saber. Mas, a partir do cruzamento de milhões, bilhões ou trilhões de dados, sabe-se que determinada coisa acontece ou aconteceu. E baseando-se em tal evidência se agirá, de forma quase automática. E essa mudança pode se estender para praticamente todas as áreas de nossas vidas: econômica, de consumo, mas também social, educacional, profissional e até afetiva.

Alguns exemplos do poder do big data:

Em 2009 o vírus H1N1, da gripe aviária, começou a se espalhar pelo mundo. Preocupados com uma possibilidade de pandemia os Centros de Controle de Prevenção de Doenças (Centers for Disease Control), nos Estados Unidos, solicitaram que os médicos americanos informassem sobre qualquer novo caso da doença, a fim de que se pudesse mapear seu alastramento. Mas a defasagem das informações era de uma a duas semanas. Isso porque o centro de dados dos CDCs só conseguia processar as informações uma vez por semana. E, claro, essa defasagem era terrivelmente demorada para a urgência do problema. Quem acabou solucionando a questão foi o Google, que ao cruzar mais de 50 milhões de termos de busca dos internautas, relativos à doença, conseguiram detectar com defasagem de apenas 24 horas os focos de pessoas infectadas em território americano. E isso foi fator decisivo para controle da doença no Estados Unidos.

Em 2003 o americano Oren Etzione, após ter comprado uma passagem aérea pela internet meses antes de viajar, justamente para pagar menos, descobriu durante o vôo que outros passageiros haviam comprado suas passagens, com muito menor antecedência, pagando bem menos. Essa sensação de ter sido prejudicado o levou a buscar uma amostragem, num site de viagens, de doze mil preços de passagens durante 41 dias. E com essas informações criou um modelo de previsão de preços de bilhetes, que depois se transformou na startup Farecast. A partir de seu modelo de captação e cruzamento de dados ele passou a acertar, isso já em 2012, até 75% das previsões sobre o aumento ou diminuição de preços de passagens, dependendo do dia da compra. O que levou seus clientes a economizarem em média 50 dólares por passagem. O cruzamento das informações, em 2012 chegando a 200 bilhões de registros, não o levava a saber o porque da alta ou queda do valor das passagens. Mas ele sabia o que e quando acontecia. E nessa mesma época vendeu sua empresa para a Microsoft por cerca de U$ 110 milhões.

O big data possibilitou a existência do Google Translator a partir de um banco de dados de um trilhão de palavras, 95 bilhões de frases, em mais de 60 idiomas. E o sistema é em muitos aspectos auto-aperfeiçoador, com a ajuda dos próprios internautas, mesmo quando escrevem - e por isso mesmo - palavras e frases erradas. Sim, o big data não só aceita o erro, o caos e o paradoxo como deles se utiliza para fornecer dados sobre "o que acontece".

A Amazon não sabe exatamente porque um leitor que gosta de Ernest Hemingway tende a gostar também de F. Scott Fitzgerald, mas seus cruzamentos de bilhões de dados, lidos por algoritmos, dizem que isso acontece. E esse modelo substitui muito mais êxito o sistema anterior de recomendação da Amazon, que antes se utilizava de simples segmentação. Ou seja, se você comprasse um livro sobre música, sua página seria inundada de ofertas de livros de música e arte.

O Wallmart descobriu com o big data que quando aproximava-se a temporada de furacões nos Estados Unidos, os americanos compravam muito mais Pop-Tarts, um doce típico americano. E, claro, passou a encher as prateleiras da frente das lojas com esse tipo de doce quando aumentavam as tempestades.

A Kaggle, empresa que organiza competições de captação de dados, e em 2012 organizou um desses eventos sobre que tipos de carros vendidos em leilão poderiam apresentar problemas, descobriu que carros da cor laranja têm metade da propensão de quebras que os carros de outras cores.

O big data não enxerga causalidades mas muitas vezes sabe o que acontece. E felizmente sua utilização não é apenas para comércio - embora em grande parte ainda seja. A Dra. Carolyn McGregor, do Institute of Technology da University of Ontário, trabalhou junto à IBM num software que ao analisar 1.260 pontos de dados por segundo de bebês prematuros, consegue prever uma infecção com até 24 horas de antecedência. A explosão de bueiros em Manhattan foi diminuída drasticamente a partir da análise de big data.

Estes são apenas alguns exemplos, entre milhares, que neste momento estão transformando drasticamente o mundo em que vivemos. E ainda há muito por vir. A partir do big data muitas profissões desaparecerão e outras serão criadas. Nossas vidas serão devassadas pelo comércio. Mas certamente poderemos num futuro próximo utilizar o big data de forma caseira, para fazer qualquer tipo de pesquisa, de auto-avaliações, de auto-exames, para extrair múltiplos tipos de leitura de um mesmo banco de dados. A criatividade e a subjetividade humanas poderão ser ameaças pela ditadura dos dados. Poderão advir, no entanto, novíssimas perspectivas criativas e novos modos de se existir neste mundo. Claro, a força das grandes corporações é quase ilimitada. Mas nosso pensamento também pode ser.


O big data nos dá um aviso: para prepararmo-nos, de modo apenas razoável, para essa nova configuração mundial de transformações exponenciais e radicais, teremos que pensar à frente, por nós mesmos, de forma aberta, radial, global, flexível, cultural, sem jamais deixar de buscar tanto conhecimentos mais antigos, que formaram nossos padrões de comportamentos e valores, quanto os mais recentes, gerados na atualidade. Mas, ainda os que potencialmente estão para eclodir.

Magno Mello


*fonte: Big Data, como extrair volume, variedade, velocidade e valor da avalanche de informação cotidiana - Viktor Mayer-Schönberger e Kenneth Cukier

terça-feira, 18 de março de 2014

A cultura do achismo

O achismo existe desde quando o ser-querendo-tornar-se-humano começou a pensar. Pensou a primeira vez e já acreditou ser verdade. Inventou uma teoria de improviso e a ela, automaticamente, no calor do momento, deu fé. Certamente, na hora, a não ser por uma chispa de pensamento que se lhe acometeu, mas que passou muito rápida para ser considerada, nem parou para refletir se acreditava mesmo no que lhe viera à cabeça. O estado gozoso da criação e da crença egóica, como ainda hoje se dá entre nós humanos, naquele instante foi mais forte que qualquer vontade de ponderação. E mesmo que após algum tempo nosso ancestral tenha reavaliado a idéia, sua teoria de puro achismo, possivelmente, já tinha sido divulgada e corroborada por outros. Aliás, não é assim que nossas crenças e valores foram e continuam sendo construídos?

Eis, provavelmente, um dos primeiros grandes achismos: lá acima, no céu, tem um ser mágico, invisível, gigantesco, que trovoa e atira seus relâmpagos, despeja suas tempestades e suas escuridões. Devemos, portanto, temê-lo. Mas também exibe suas estrelas, nos dá a luz do sol, da lua, e quem sabe criou - quem mais? - este mundo em que agora sabemos que estamos. E, por que não, pode ter nos dado esta vida, esta que agora estamos conscientes de possuir. Isso quer dizer que também devemos adorá-lo - para continuar recebendo o que é bom, além de aplacarmos sua ira? "Sim, exatamente! - alguém achou. Achou por pura influência momentânea, para fazer coro, para pertencer a uma comunidade, ou porque aquilo pelo menos era algum sentido diante do extremo vazio ideológico de uma mente que já começava a exigir explicações. Então, ficou combinado de que era aquilo mesmo.

A partir daí sabemos como a história continua. Mas é sempre bom lembrarmo-nos de algumas passagens, como, por exemplo, do achismo pré-socrático, do achismo egípcio centrado na certeza única, que era a figura do faraó, do achismo lógico/racional/retórico dos gregos, do achismo das igrejas e dos imperadores na Idade Média, do achismo científico iluminista da Idade Moderna e, finalmente, do achismo tecnicista tecnológico da Era Contemporânea, que, a exemplo das outras eras, foi diretamente influenciada e continua sustentada pelas hereditariedades advindas dos períodos anteriores. Todos esses tempos permeados por achismos individuais, grupais, tribais, regionais, nacionais e hoje mundiais, em todas as áreas de conhecimento e comportamento. Achismos, achismos, achismos e, vá lá, um pouco de ciências empíricas e matemáticas, que muitas vezes na história também provaram ser meros achismos, ainda que complexamente elaboradas e calculadas. Não estava mais que provada a existência dos buracos negros? Pois, agora, ninguém menos que Stephen Hawking acha que não existem. Piores são os eternos achismos sobre os benefícios ou malefícios do ovo e do chocolate.

É preciso considerarmos, no entanto, que há pessoas neste mundo que lutam para trazer à luz alguma verdade, muitas vezes até passando por cima das próprias crenças, profundas ou imediatas E para isso mergulham em estudos, pesquisas, comparações de conteúdos e análises críticas, tentando enxergar a coisa tal qual ela se apresenta, acima dos dogmas, dos mitos, de perniciosos acordos intelectuais ou da traiçoeira intelectualidade imaginativa ou intuitiva. Isto, para considerarmos, por outro lado, que a grande maioria esmagadora dos seres humanos habitantes deste planeta, em todas as gerações, em todos os tempos, falam qualquer coisa que vem à cabeça ou, simplesmente, em muitas situações apenas replicam conceitos e idéias que ouviram por aí, em qualquer esquina do mundo. Neste sentido, basta que se ouça um argumento, uma idéia, um relato, uma notícia, para se apressar numa impressão, num ponto de vista, desengonçadamente irrefletidos. Se com frases feitas ou pensamentos improvisados, isso não importa, a vontade de falar, de emitir opinião, é sempre maior que a de refletir. E mesmo a vontade de pensar livremente é muito maior que a de estudar, ler, buscar conhecimento consistente ou analisar de maneira crítica, ponderada, responsável, consideradora das múltiplas faces de um objeto.

Desse modo, lá vamos nós pela vida ensinando e aprendendo, disseminando e absorvendo, veleidades, fantasias, ilusões, inverdades, invenções, ficções, falsas teorias, achismos nos mais variados graus, todos os dias, a qualquer hora, em qualquer lugar. E é um tal de lançar falsos números, datas e passagens improvisadas, de colocar palavras na boca de pensadores consagrados, de se dizer que leu em tal lugar, que estudou isso e aquilo, que se tem formação tal e tal, que fulano e cicrano também concordam, e, acima de tudo, de que se tem certeza absoluta. Antes esses discursos se dessem somente nos botecos ou mesmo nas rodas acadêmicas. O problema é que os formadores de opinião, a imprensa, os analistas, os governantes, a mídia em geral, e também os economistas, os pais, professores, amigos, cônjuges, padres e pastores, se valem do mesmo artifício.

Enfim, não é esse o mundo em que vivemos? O que você acha?


Magno Mello


terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Coitada era a Medusa

Se houvesse justiça, haveria também injustiça. E se houvesse injustiça, poucas seriam maiores que as dirigidas contra Medusa, a grega da cara cinzenta e cabeleira de cobras que, ao ser olhada, transformava homens em estátuas de pedra.

Para começar, quem se lembra que ela era sacerdotisa do templo de Atena, a deusa da sabedoria (e da guerra), que a coitada era virgem e ao mesmo tempo a mais linda mulher dos tempos em que Ulisses, o herói da Odisseia, de Homero, também andava pelo mundo? Medusa era tão bela que chamou a atenção e atiçou o apetite de Poseidon, o deus dos mares, por quem foi deflorada à força. Assim começa seu calvário.
 
Após ser violentada, agora recebe o castigo da própria deusa Atena, raivosa, que a transforma no monstro, proibido de ser olhado, e a confina, sozinha - ela, a mulher, que continua viva e lúcida dentro do monstro - numa ilha. A partir daí tem início uma corrida por sua cabeça que, segundo a lenda, daria incríveis poderes ao portador. Um a um, aventureiros, caçadores de tesouro partem à sua caça e todos eles são transformados em estátuas de pedra. E a Medusa, não chegava a fazer nada. Talvez até ansiasse ser morta a punhal, ao menos para sentir um último toque humano e, quem sabe, receber um último olhar, mesmo que de seu assassino.
 
Até que chega à ilha nosso outro herói, Perseu, movido por razões mitologicamente contraditórias. E num golpe de mestre, diríamos numa tocaia de costas, orientado apenas pelo espelho de seu escudo, consegue finalmente decepar a moça. O pior é que Perseu recebeu ajuda da própria Atena na empreitada.
 
Triste fim de Medusa. Ainda foi enterrada no templo de sua deusa. Sinceramente, se eu fosse mulher, exigiria reparo.


Magno Mello

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Arte e cultura como construção e desconstrução

A cultura artística no Brasil é considerada tão pouco importante que ainda hoje mal conseguimos associá-la ou analisá-la como ferramenta de educação. Nesses tempos em que o tema Educação ocupa lugar de destaque nas frentes sociais e políticas, ainda muito timidamente se ouve a palavra cultura associada aos discursos.

Mas porque a cultura seria tão importante? Somos um país que mal chegou à educação. Não deveríamos primeiro cuidar do mais básico para, aí sim, desenvolver outros refinamentos? Definitivamente, não. Pelo simples fato de que só a educação, por si, não é suficiente para responder aos múltiplos anseios cognitivos humanos. Falo sobre o pensamento crítico, independente, a sabedoria, o conhecimento aliado ao autoconhecimento, a sensibilidade, a subjetividade, a razão aliada à intuição, o senso estético e ético apurados. Conhecer algo é tornar-se capaz de transformar o que quer que seja a partir desse conhecimento. E com isso transformar-se, permanentemente. E a educação, pelo menos a tradicional, não tem essa qualidade de ensinar a transformar, mas, muito mais, a proceder.

A cultura, no entanto, carrega esse poder transformador, pois não é somente construção, é também desconstrução. E é transformação permanente, o que não acontece com a educação, geralmente mais estática e pré-estabelecida. Como observou Hannah Arendt, a educação tende a ser conservadora, e de certo modo precisa ser, porque sua transmissão é que faz permanecer vivo nosso legado cultural. Idéia compartilhada pelo educador Moacir Gadotti: "O professor e a educação são o elo entre o passado e o futuro, não tem futuro quem não tem passado, e quem faz esse passado é o professor".

E aí entra o papel processador que a cultura deve ter em relação à educação. A cultura, especialmente a artística, atua em diferentes áreas cognitivas do indivíduo, o que o ajuda a cruzar com maior desenvoltura informações racionais, emocionais e sensoriais, e com isso obter o que existe de mais caro no mundo de hoje: idéias; mais especificamente, idéias originais. E num mundo em acelerada e irreversível transformação nada tende a ser mais importante que o pensamento original, para que esse mundo, com toda sua complexidade, não desabe sobre nossas cabeças nas próximas décadas. Precisaremos improvisar e criar a cada novo fenômeno que brotará desse emaranhado estrutural e tecnológico.

 
Entropia cultural

Um dos maiores dramas no conhecimento atual é o que o sociólogo americano Alvin Toffler chama de obsolecimento ou conhecimento obsoleto, que é um grande depósito de lixo, dentro de nossas cabeças e do megacérebro global, de informações ultrapassadas. Nunca, em nenhum momento da história, o volume de obsolecimento foi tão grande. E continua aumentando em proporções gigantescas. Chegará o momento, se é que já não chegou, que o volume de conhecimento obsoleto será muito maior que o de conhecimento válido. Pois o que fazer com tanta informação perdida?

Acontece que são informações perdidas apenas no pensamento linear ou sequencial, pelo qual fomos e ainda temos sido educados. No pensamento não-linear, simultâneo, radial, em rede, entre outras possibilidades de nomeação, essas informações podem ser ressignificadas, reorganizadas, recicladas, tornando-se novamente idéias não apenas válidas no presente, mas com relação ao que ainda não foi pensado. Em outras palavras, perde-se menos pelo caminho e ganha-se em robustez rumo ao futuro; não podemos deixar de nos perguntar neste momento por que Steve Jobs conseguiu mudar o mundo com suas idéias; certamente não foi por algo que aprendeu nos moldes tradicionais da escola.

O pensamento de hoje, portanto, não pode prescindir da simultaneidade, da razão aliada à emoção, à intuição e a múltiplas outras informações, e sensações. Conhecimento, cada vez mais, significa capacidade de elaboração, de criação, e cada vez menos conteúdo estático e ou desconexo. A educação, para sobreviver como tal, deve reaproximar-se de seu significado original, do latim educare, que significa "retirar de" e não "colocar em", como ainda costumamos ministrá-la. Significa extrair do indivíduo o que ele, em algum lugar de si, já sabe. O que somente ele e ninguém mais pode dar ao mundo. E é desse modo que nos tornaremos mais importantes, para nós mesmos e para a sociedade.

Magno Mello

O que deixamos para o mundo

Émilie du Châtelet foi uma mulher muito a frente de seu tempo. Nascida em Paris no ano de 1706, filha de Louis Nicolas le Tonnelier de Breteuil, o principal secretário e apresentador de embaixadores a Louis XIV, ao completar doze anos já era fluente em Latim, italiano, grego e alemão. Também foi educada em matemática, literatura e ciência, além de se tornar boa cravista, cantar em peças de ópera e atuar no teatro amador. E adorava joias caras. Casou-se com o Marquês Florent-Claude du Chastellet, mas ela e o marido acordaram viver vidas independentes. Enquanto o marido se dedicava às Forças Armadas ela teve um caso de amor e de colaboração científica com Voltaire, que durou quinze anos. E por fim, tornou-se matemática respeitada, traduziu Isaac Newton para o francês e publicou seus livros numa época em que as mulheres...bem, você já sabe.

Um dia Madame Du Châtelet, que antes da maioria dos homens conseguiu ser reconhecida como cientista, contestou o próprio Newton, baseada nos estudos do filósofo e matemático irlandês Willem Gravesande, ao demonstrar empiricamente que a energia cinética de um objeto em movimento é proporcional à sua massa e ao quadrado de sua velocidade (E = mv2) e não diretamente proporcional como acreditava Isaac Newton. E a fórmula teve que ser corrigida: de E=mv para E=mv2.
 
Mas veja as voltas do mundo. Em pleno século 20 essa mesma fórmula, proposta 150 anos antes, foi determinante na elaboração de nada menos que a Teoria da Relatividade, de Einstein. E lá estava Einstein feliz da vida com sua descoberta que mudou o mundo: E=mc2 - energia é igual massa vezes a velocidade da luz ao quadrado. Aliás, quanta beleza nessa proposição! Entre outras coisas provou-se que massa é energia acumulada – gosto dessa ideia.
 
Daí entram na história os cientistas alemães Otto Hahn e Lise Meitner, com seus experimentos de fissão nuclear, para ressignificar drasticamente a teoria de Einstein, pois a fórmula de equivalência massa-energia (E=mc2) foi usada no desenvolvimento da... bomba atômica - que é algo como o desacúmulo súbito da energia. Bem, não é preciso dizer que Einstein ficou arrasado ao saber da notícia. Ele que só pensava na ciência...
 
Em 1944, Hahn recebeu o Prêmio Nobel de Química por sua pesquisa em fissão nuclear. Que prêmio magnífico! Meitner, por sua vez, foi ignorada pelo comitê, principalmente porque Hahn não só não mencionou sua participação na pesquisa como afirmou que seus experimentos químicos foram os únicos responsáveis pela descoberta; isso porque em 1919 Meitner teve que fugir da Alemanha por causa da perseguição nazista. O que não a impediu de continuar trabalhando sistematicamente por correspondência com Hahn.
 
O erro nunca foi reconhecido pelo instituto Nobel , apenas parcialmente retificado em 1966, quando Hahn, Meitner e Fritz Straßmann (esse último também colaborador nas pesquisas) receberam o Prêmio Enrico Fermi.
 
Em visita aos EUA, em 1946, Meitner foi tratada como celebridade pela imprensa americana como a mulher que "deixou a Alemanha com a bomba na bolsa", foi eleita a "Mulher do Ano" pelo National Women’s Press Club (EUA), em 1946, e em 1949 recebeu a medalha Max Planck da Sociedade Alemã de Físicos. O elemento 109, o mais pesado do universo, foi nomeado "meitnério" (Mt) em sua homenagem pela IUPAC. Muitas pessoas consideram Lise Meitner a "mulher mais importante na ciência do século XX". Porém, não podemos deixar de dizer: “Lise Meitner, a mulher que inventou a bomba atômica”.
 
Pobre Lise, que assim como Einstein só queria fazer ciência. O Otto também, mas esse podemos dizer que foi mesmo um cachorrão, portanto não se podia esperar muita coisa. Mas, e quanto aos nossos heróis, Émilie du Châtelet, Albert Einstein e Lise Meitner (além do Otto, claro, mas também Newton, Gravesande, Leibniz e tantos outros pelo caminho)?
Então chegamos ao ponto central (e paradoxalmente final) desse texto: O que deixamos para o mundo com o trabalho que produzimos diariamente?


Magno Mello 

A vida depois dos valores

Talvez estejamos atravessando uma das maiores rupturas psíquicas da humanidade em todos os tempos: a possibilidade de não haver outras verdades – que viemos criando e acreditando desde que o mundo é mundo - a serem colocadas no lugar das que atualmente se desmoronam. O que colocar no lugar dos pilares que davam algum sentido à vida quando sabemos de uma vez por todas que qualquer sentido, para existir, tem e teve que ser inventado? Desde uma simples máxima popular como “Deus ajuda quem cedo madruga” à idéia de que o consumo nos torna mais felizes, que há salvação no futuro, que o capitalismo é vontade de Deus, que o bem tende a prevalecer ou que o próximo ano é o da cura, tudo foi incutido em nossas cabeças ao longo dos tempos e, simplesmente, não é verdade. Agora está ficando claro. É até irônico o fato da filósofa alemã Hannah Arendt já dizer em meados do século XX que o grande erro de Kant, Nietzsche e Kierkgaard, ao colocarem abaixo as “verdades sagradas”, cada um a sua maneira, era justamente tentar colocar outras verdades no lugar. O atual momento do mundo parece romper até mesmo com a teoria da longa duração do historiador Fernand Braudel. Segundo ele, nossos sofrimentos e aspirações, bem como nossos signos mais profundos são basicamente os mesmos desde o início das sociedades. Talvez fossem...até agora.  

Começa, porém, uma nova era da humanidade: os significados estão abertos, perderam o status de verdade absoluta e para o desconforto de muitos podem continuar assim por muito tempo. Uma coisa é atravessar determinado período histórico em que alguns valores e pautas se sobrepõem a outros. Mas agora, pelo advento da ampla e acelerada comunicação uma camada cada vez maior da população vem se dando conta de que os símbolos sempre foram apenas invenções humanas e não provenientes de deuses, e essa brincadeira pode perder a graça. E fica a incômoda pergunta: ainda haverá em que se acreditar?  Bem, pode ser que sim, talvez em duas palavrinhas mágicas: criação e afeto. Porque, no fim das contas, foram e continuam sendo as únicas grandes verdades humanas. Criação é tudo isso que inventamos e acreditamos, embora talvez devêssemos apenas vivenciar em vez de ter como regra: música, moral, esportes, moda, modismos, História, ciências, produtos, valores, mídia, consumo, castigo, progresso, amor, Deus, livre natalidade etc. Afeto é o que sentimos, acreditando ou não nessas invenções.  

Ora, o que nos dói, bem sabemos, são as expectativas não cumpridas de nossas crenças. Então, por que continuar depositando esperança em coisas sem esperança, a não ser para a satisfação temporária de nossa preguiça? Da criação e do afeto, todavia, podemos esperar algo: que eles sejam enquanto são. E curiosamente, nesse sentido, a Arte, essa fantasia que compreende os dois fenômenos, como poucas manifestações humanas, num futuro não tão distante poderá se tornar um dos únicos baluartes da "verdade". Uma obra- prima tende conservar seu sentido por séculos a fio, às vezes muito mais do que conceitos lógicos e valores sagrados. 

Tudo isso nos leva a um novo desafio diante de nossa preguiça: nada está pronto, nunca esteve, nunca estará e jamais descansaremos, até a morte. E não estamos construindo algo em nossas vidas, apenas transformando, criando e nos afetando, perpetuamente. 
  
Mas o que há de errado nisso?                                   

                                                                                                                               
Magno Mello

A importância de fazer o que se gosta

Um grande amigo, bem mais velho que eu, uns quarenta anos a mais, mas pessoa ainda dotada de certa jovialidade, disse-me outro dia que a vida era mesmo assim: que ele não era realizado. Mas o que se podia fazer? Então, lhe respondi, segundo minha ótica – pois ele também colocava a dele – o que haveria de se fazer.
 
Ilustro-o, para melhor compreensão do caso: quanto às suas questões financeiras, estão resolvidas há muito tempo. Se não é rico, é pelo menos remediado com boa sobra. Seu sonho era ser pintor, mas optou por ser empresário. E venceu. Agora, anda padecendo de alguma melancolia, gosta cada vez mais de animais e plantas e menos de gente, e faz uns quinze anos que não pinta.
 
Havia questionado “o que se podia fazer?” para aconselhar-me sobre os perigos da carreira artística, os altos e baixos financeiros a que os artistas estão sujeitos, mais que em outras profissões, sendo que, a cada dia a vida exigia novos confortos e necessidades.Também ponderou que havia muita exigência na carreira artística, especialmente com relação ao sucesso, e que isso era fardo pesado de se carregar, já que corria-se o risco, bem mais que o contrário, do sucesso não vir.
 
Diante dessas suas primeiras colocações respondi rapidamente que ser artista era também filosofia de vida e que eu não tinha ilusões com relação ao sucesso, como ele pensava. E ainda, que sabia não ser isso o que me faria feliz, até porque não há ponto de chegada.
 
Então, meu amigo retomou a palavra e no calor das ideias o discurso migrou para sua desconfiança sobre a própria validade da filosofia; questionando também se eu não havia lido demais essas eteriedades. Pois, ele até que lera uns autores e não foram poucos, e ainda sabia muita coisa de cor. Mas no fim das contas o que aprendera? E mais do que tudo: a que conclusões se chega, ou se chegou até hoje, por meio da filosofia? - que para ele parecia um emaranhado cada vez maior de tudo e de nada, enfim, uma grande viagem silógica sem finalidade prática, embora muito interessante.
 
Ouvidas suas observações ponderei, primeiramente, naquele nosso exercício de dialética – e isso já é filosofia - que conhecimento não pressupõe sabedoria. Que não adianta muita coisa, por exemplo, apenas saber de cor os pensamentos de cada autor. Mas pode adiantar, e muito, se incorporá-los mais que decorá-los, se deixá-los afetar também a alma; e isso era algo que ele não havia feito. Também considerei que somos nós que criamos nossas próprias necessidades, que resolvemos ir por esse ou aquele caminho e muitas vezes optamos pelo caminho mais seguro; mas não necessariamente o mais feliz.
 
E foi aí que entrei no ponto central de minha argumentação: que só uma coisa pode levar alguém a ser feliz de fato - e não há negociação: o fazer continuado do que se gosta. Sem isso, não se consegue chegar ao sentimento de realização. Fica sempre faltando algo, ainda que se tenha sucesso financeiro. E que era por esse motivo que ele se sentia melancólico, não realizado, pois deixou de fazer, em nome de atender suas necessidades de conforto, o que lhe era de fato mais caro: pintar. Quando estava pintando, era feliz, mesmo que não fosse tão rico; embora tenha se esquecido disso.
 
De minha parte – e foi o que mais aprendi com a filosofia: a desconstruir o senso comum – estou fazendo o que mais gosto, continuadamente, faça sol ou chuva, com mais ou menos dinheiro, correndo mais ou menos riscos. Estou fazendo. E continuarei a fazer, uma vez que é assim que sou mais feliz e mais pleno, mesmo em tempos de tristeza ou carências materiais; que não são esses. Portanto, não espero muito mais da vida além de continuar fazendo o que faço. E esse é meu lema: a vida terá passado e eu terei feito o que mais gosto de fazer. E sou feliz por isso, com maior ou menor êxito, com ou sem sucesso. Acordo todos os dias para fazer o que gosto. Não sinto falta de quase nada. E só.
 
Então, veio minha pergunta a ele; a que eu ainda não havia feito: vale mesmo à pena? Ele pensou um pouco, me olhou e respondeu: continue fazendo o que faz, não pare e não acredite em nada do que eu lhe disse. E faça isso por você e também por mim.
 
E ontem, passados alguns dias de nossa conversa, encontrei com ele mais uma vez, e a primeira coisa que me disse: “voltei a pintar, nas poucas horas vagas, mas voltei a pintar”.
                                                       
     
Magno Mello

O sujeito

O que é o sujeito? Segundo o sociólogo Alan Torraine é, antes de tudo, essa indiscriminada movimentação psíquica e emocional, acima e abaixo de normas, ideologias e mitos. Acima, quando não reconhece o (ou não se submete ao) conjunto de imposições sociais diante de vontades ou necessidades pessoais, urgentes ou não. Abaixo, porque esse mesmo ser é inevitavelmente trespassado, influenciado e muitas vezes dominado pelas ideologias de seu tempo e de todos os outros tempos, incluindo os vindouros.
  
Mais intrigante, porém, é identificar como se forma o sujeito em cada um de nós. Freud tem lá suas teorias. Grosso modo, ele nos diz que o sujeito se estrutura pelos traumas, em meio a afetos, claro, porque ninguém é de ferro. Primeiro, ao descobrir que o seio materno e o próprio mundo não são extensão de seu corpo. Depois é só seguir a lista: reconhecimento das diferenças, castração, aparecimento do supereu e toda uma série de imperativos nãos que vamos colecionando vida afora e que nos constroem na forma negativa.
  
Somos, portanto, cultural e psiquicamente muito mais o sujeito das impossibilidades do que das possibilidades. A sociedade, incluindo aí a família, com seus interesses, leis e crenças, acaba por sedimentar nosso rol de impossibilidades, apesar dos afetos.
  
Quanto às possibilidades, são quase sempre as mesmas: instinto de sobrevivência e vontade de poder. São basicamente com essas ferramentas que reagimos, que construímos nosso sujeito pelo lado positivo. Temos, portanto, um quadro de medo, frustração, dominação e achatamento individual, combinado com nossos poderes subjetivos de reação; sempre ligados também ao afeto. E quanto mais atuamos como sujeitos, ou seja, com esses poderes subjetivos de combate, mais nos sentimos aptos, confiantes e dispostos a reagir contra modelos oficializados, que são justamente os pilares de nossas impossibilidades, que não podem, nem poderiam representar o indivíduo. 

Hoje, no entanto, estamos todos sendo afastados, à revelia, de muitos de nossos padrões “conquistados”, que são nossas próprias impossibilidades, e nos vendo forçados a encarar inimigo ainda mais desafiador. Não mais os escaninhos de moral que nos dominavam e dominam, porém, nosso próprio sujeito, esse misterioso ator cheio de impedimentos e íntimas amoralidades, que tanto nos assusta. Apesar de ser uma oportunidade quase inédita na história social do mundo, muitos gostariam de não ter que passar por isso, por não querer assumir individualmente a responsabilidade pelo que sentem ou pensam; não querem carregar esse fardo e nem reconhecem nisso uma possível liberdade. Enquanto as idéias estiverem balizadas no senso comum, na coletividade, seu peso é dividido, o que, supostamente, torna tudo mais simples e mais leve. 

Mas o coletivo se dissipou. Ficamos tão ocupados com nossas individualidades e quando vimos, a coletividade havia perdido sua forma reconhecível ou ideologicamente reconhecível. E agora a pergunta não é mais quem somos nós, mas, quem sou eu. E esse quem sou eu, ao contrário de quem somos nós, não aceita mais nenhum tipo de pacote fechado, nem mesmo a definição ilusória das palavras. Quem sou? Defina-me. No entanto, tudo que disser serão apenas opiniões aleatórias, muito distantes de quem sou de fato. E como bem observa Torraine, “todos nós somos tentados a dar ao sujeito uma figura claramente defasada em relação à experiência vivida”. 

Estamos, portanto, entendendo que somos muito diferentes dos conceitos e estigmatizações sociais, que nossas crenças individuais podem ser bem distantes dos ditames da coletividade, e o que mais dói: hoje nos vemos obrigados não apenas a aprender muito mais sobre quem somos, sem ter como nos apoiar em ideologias ou delineamentos alheios, coletivos ou individuais, mas a criar nossos próprios delineamentos, verdades e sentidos, que por sua vez podem ser (e tendem a ser) apenas temporários. A maioria ainda tenta se agarrar a qualquer coisa que não ao próprio sujeito, esse buraco escuro, preenchido com ideologias simbólicas que nos vem à cabeça ou nos são transmitidas em suas incontáveis formas e não-formas, e se oficializam em modelos e crenças.  

De outro modo, quando se olha em volta, vê-se que esses enquadramentos sociais, comportamentais, psicológicos e até religiosos em muitos casos, estão sumindo ou já sumiram; se não de forma visível, mas invisível e sorrateiramente. Surge, assim, essa nova exigência da vida: segure-se quem puder segurar-se em si próprio, apesar da família, dos amigos, dos colegas, dos patrões, do estado, da religião e dos amores; porque eles também não têm mais as respostas, ninguém as têm.
  
Mas vem a parte boa: a nova construção de nós mesmos, baseada em nós mesmos e não mais em idéias coletivas e tendenciosas do que somos, devemos ou deveríamos ser. A estrada está irremediavelmente aberta e é isto o que agora temos para nos balizar: nossa autoconstrução permanente, nossa moral quase própria e multifacetada, e nossas crenças mais íntimas, antes das palavras, ou seja, nossa intuição.
 
De resto, o mais importante muitas vezes não é o mais importante, isso é apenas uma idéia que alguém teve, seguida de contínuas confirmações alheias, que podem ter acontecido por qualquer motivo, qualquer mesmo, mais provavelmente por falta de subjetividade dos atores. Verdade absoluta: “nada é mais importante do que a vida”. Mentira. Para muitos a morte é mais importante, seja para aplacar de vez uma dor insuportável ou, especialmente, nos incontáveis casos de suicídios ideológicos ou religiosos. Para mim, nada é mais importante do que a vida. Mas para outros, como posso julgar? Eu mesmo não acredito em vida depois da morte. Mas tenho que achar que isso é verdade absoluta? 


Verdade absoluta, se existisse, seria muito mais alguém morrer voluntariamente acreditando que vai receber de presente setenta e duas virgens e assim existir num gozo eterno.                              

Magno Mello

Os livros

Antes de eu me apoderar dos livros, eles se apoderaram de mim. Nem foi amor à primeira leitura, mas anterior a isso. A ideia e suposição de que um dia a eles eu me entregaria, como quem se entrega aos átomos, já me causava ansiedade. E não era, nem foi, para menos. Responderam ao exato grau de minhas expectativas; se bem que muito mais.
 
De repente, nessas últimas semanas me pego mais uma vez mergulhado na obra de Shakespeare. E tudo continua lá, intacto, em suas palavras carregadas de todos os sentidos. Todos. Porque uma grande obra é assim: nela fica impresso para sempre o suor, a febre; e basta pegar o termômetro para conferir.
 
Nada é mais humano que um bom livro. Nem mesmo pessoas em seu cotidiano morno e absorto. Uma obra-prima, por exemplo, explode a cada vez que se toca. E sua grande e passional humanidade está no fato de que ela só dá, se antes receber. Arte não é de graça, tem seu preço. É, no entanto, sábio investimento, devolve em dobro.
 
Livros são fonte de impensados prazeres. Pouca gente deixaria de ler Cem Anos de Solidão se soubesse do gozo, ali, a se multiplicar a cada parágrafo. Entregar-se a um grande livro é entregar-se ao amor, ao bem, ainda que por meio de longas descrições de ódio e do mal. É assim com Macbeth. É assim com Fausto. E é também com O Retrato de Dorian Gray. Vidas Secas jamais seca, sempre estará naquele mesmo lugar: o dos Clássicos. Mas nada disso é intelectual e ou animicamente de graça, embora muitas vezes fisicamente quase o seja: dois, cinco, dez reais, nas prateleiras dos sebos.
 
Não, não estou falando de entretenimento. Falo de O Livro de Areia, de Os Irmãos Karamazov, de Ilíada, falo de sentido e não de sua falta. De vida e não de morte. De inteligência e não de burrice. De sensibilidade e não de alma bruta, que se contenta com qualquer coisa.
 
Sim, deve haver espaço para o entretenimento. Mas jamais em detrimento da arte. Um não substitui a outra, não pode, sob pena de se ganir de miséria, nas horas mais silenciosas, mesmo se estando rodeado de ouro. Há que se criar o mundo. Há que conhecer-se a si mesmo. Cavalgar com Dom Quixote é ultrapassar as próprias misérias. Tatear O Ensaio Sobre a Cegueira é finalmente enxergar a escuridão. Seguir O Estrangeiro é desafiar a morte. São tantas e tantas e tantas obras incríveis, que não buscá-las é quase fazer mal a si mesmo. É não se dar oportunidade de conhecer alguns dos maiores tesouros deixados pela genialidade humana. Se pecado existisse, isso sim, seria pecado.
 
Pois que o bom senso lhe sorria. Não há desculpa para não propiciar a si mesmo uma boa literatura. Falta de tempo é auto sabotagem. A vida passa. As histórias e os livros ficam.


Magno Mello

A articulação do poder

O mundo se constrói e se articula por meio do poder, o tempo todo, a cada momento, nos lares, no trabalho, nos espaços públicos, nas relações. Antes de tudo, de modo privado, de um sobre um, de um sobre dois, de dois sobre dez. A partir daí a coisa começa a ficar pública: de doze sobre nove mil, de vinte e dois sobre cinquenta mil, de setenta sobre duzentos milhões, de trezentos e oitenta e sete sobre sete bilhões.
 
Quanto a nós, eu ou você, exercemos poder aqui e somos atingidos ali pelo poder de outro, diariamente ou quase, e até muitas vezes ao dia, com a frequência dependendo menos da posição ocupada do que da independência pessoal alcançada dentro do sistema.
 
O que faz o poder? Por exemplo, inventa o domingo e a semana. Oito pessoas, se muito, lá por volta dos anos 300 d.C, representando apenas elas mesmas e um grupo seleto de amigos ou comparsas, em uma sala mal iluminada e úmida, de móveis e objetos pesadíssimos, decidem criar um dia chamado domingo, que seria o dia do descanso, o tal do sétimo dia. Esse, faria parte de um conjunto de outros seis dias, ancorados na ideia da concepção apocalíptica judaica de uma idade sabática no fim dos tempos, ou os seis dias da Criação. E cada um dos seis dias estaria ligado a uma idade religiosa da terra: de Adão a Noé, de Noé a Abraão, de Abraão a David, de David ao cativeiro da babilônia, do cativeiro ao nascimento de Cristo, do nascimento de Cristo ao fim do mundo, nos conta Le Goff. Tal ligação foi conferida por Santo Agostinho como verdade teórica em alguns de seus textos. E para legitimar, oficializar, de modo ainda mais “natural”, os seis dias foram também conectados às seis idades do indivíduo na terra: primeira infância, infância, adolescência, juventude, fase adulta e velhice.
 
No avanço do poder de poucos sobre muitos houve ainda outra contundente estratégia: o calendário. Sim, esse mesmo que conhecemos, com datas festivas, oficiais, dias de descanso, de reza, de jejum, de trabalho. Os calendários mais antigos continham até o horário em que se deveria rezar e comer. Sem contar suas procedências: todos os calendários, talvez sem exceção, na história mitológica dos povos, foram “encontrados” por deuses ou reis-deuses. Não foram criados pelo homem. Foram, isto sim, encontrados, vieram do céu. Pronto, nosso tempo estava dominado, da forma mais profunda possível, o poder atuando diretamente em nossa fé, em nosso medo do castigo divino. E os que exerciam poder passaram a exercer mais poder.
 
Pois é assim que o mundo vai se construindo, a partir de seu poder sobre o outro e do outro sobre você, e ainda do poder dos mais espertos, corruptos e gananciosos, sobre todo mundo; poder de convencimento, físico, econômico, moral, sedutor.
 
Mas poderia existir um mundo sem poder? Não. O poder é natural. Poderia, no entanto, ser atenuado pelo uso da razão. Só que isso quase não acontece. Civilidade é uma coisa, o que está por baixo da capa de gordura é o que realmente articula a sociedade. E isso é poder, que se dá em gradações infinitas, desde uma simples informação absorvida por outrem, o que significa poder de influência de alguém sobre esse, até patamares absolutos, como tirar uma vida alheia ou dominar um povo pelo uso da força militar; ou estratégias pacíficas e invisíveis.
 
Poder, portanto, não é bom nem ruim, apenas existe. O problema é o que construímos no mundo a cada vez que exercemos nosso poder sobre os outros e quando deixamos, seja por qual motivo for, que outros exerçam seu poder sobre nós.


Magno Mello