segunda-feira, 7 de julho de 2014

O que ganhamos com a cultura

O mais importante benefício de se possuir boa cultura, sem dúvida, diz respeito à capacidade do indivíduo reconhecer-se como protagonista de sua própria história no mundo do qual participa. Não a partir de um protagonismo ilusório e alternante que ora se sente realizado por incluir-se no senso comum, muitas vezes até tendo a sensação de nele estar diluído - como no caso de torcidas esportivas, de imensas platéias em shows de artistas do momento, de vocabulários, indumentárias e produtos da moda, entre outros signos de pertencimento - e num outro momento compreende sua falta de opções para atuar de modo mais decisivo em seu destino profissional, social e até afetivo. Nesse momento, muitas vezes, são pessoas que não gostam de seus trabalhos, de suas obrigações cotidianas, percebendo-se também irremediavelmente atreladas a uma tediosa e alienante rotina, que as levam a sonhar com acertos em loterias e outras formas de enriquecimento repentino, e ainda com aposentadorias, com imagens artificiais produzidas pela mídia, com a fama pura e simples, com a aquisição de produtos que possam torná-las supostamente mais importantes.
 
O indivíduo subjetivado e detentor de certa cultura, por outro lado, sente-se mais frequentemente importante diante de si mesmo. Procura, e, não raras as vezes, encontra um caminho para fazer o que mais gosta, ganhando dinheiro com isso. Tem menos necessidade de consumo, por ocupar mais horas de seu dia com experenciações próprias, dentro e fora de si, como situações de auto-aprendizado, com seu próprio trabalho, que lhe é agradável ou motivo de paixão, com as pessoas em seu ambiente profissional, pois a escolha de seu trabalho também determina a qualidade de suas relações. E ainda, em alto grau, com a criação em geral, com sua solitude, com outras percepções e apreensões do mundo, que não necessariamente envolvem consumo, mas, em tantos momentos, até produzem insumos, tangíveis e intangíveis, reais e ficcionais, para usufruto próprio ou de terceiros. 

A subjetividade e a visão cultural também possibilitam ao indivíduo perceber melhor seus talentos e vocações, descobrir o que deseja profissionalmente, enxergar para além de modelos padronizados e ilusórios, encontrar formas singulares de vivenciar seus interesses, seus gozos, suas vontades, impor ao mundo seu estilo de vida e respeitar o dos outros, desconstruir sub-reptícios conceitos de culpa, romper com táticas visíveis e invisíveis de dominação, olhar o mundo com seus próprios olhos, criar seus próprios valores, transgredir saudavelmente e colaborar para um mundo melhor para todos. 

Um outro aspecto da aquisição cultural e artística são as escolhas que fazemos a cada produto que compramos, a cada roteiro de viagem que escolhemos, a cada filme ou programa de TV que assistimos, a cada música que ouvimos, a cada livro que lemos, a cada amizade que estabelecemos, a cada comida que comemos. O refinamento estético aliado à capacidade de discernimento crítico, à sensibilidade e à percepção da singularidade de quem somos, nos faz escolher melhor a cada situação em nossas vidas, sem que seja esta uma escolha necessariamente racional, mas, antes, um processo internalizado. O uso de nosso tempo, portanto, depende de escolhas. Decidimos a cada momento se faremos isto, aquilo ou outra coisa. E ainda, como e porque faremos, pois são muitas as ofertas do mundo.
 
Por fim, a visão cultural mais ampliada além de nos mostrar um leque maior de possibilidades, nos leva também a intuir, a partir do cruzamento de nosso arsenal de dados objetivos e subjetivos, opções que não estão visíveis, mas que podem ser criadas por nós mesmos.
 

Magno Mello

domingo, 22 de junho de 2014

Pensar com as mãos e a partir dos sonhos

Acho que já disse em algum texto meu que, segundo Rousseau, o homem começou a pensar com as mãos, desde o dia em que chamou a primeira ferramenta de ferramenta. Pois diz-se que foi assim: nosso ancestral utilizava uma pedra, e outra, e mais outra, mas a cada vez que fazia uso jogava fora sem imaginar que aquela poderia servir para se utilizar no futuro, no outro dia, em uma próxima situação em que talvez não houvesse uma pedra por perto, caso se precisasse. 
 
Então, um belo dia, aquele bicho querendo virar gente pensou em guardar um desses pedregulhos, ainda não intencionalmente lascado, para usar numa próxima vez. Estava assim criada a ferramenta. E com isso a primeira abstração: ferramenta. “Esta pedra é ferramenta. E a que usei na vez anterior, também”. Eis a primeira idéia lógica, nascida diretamente das mãos e, posterior ou concomitantemente, enviada para a caixa de entrada do cérebro, segundo nosso querido Rousseau. 

Daí entra Freud, que diz em seu belo e curioso estudo “A Interpretação dos Sonhos”, que nossos sonhos são em grande parte feitos de reminiscências de acontecimentos recentes, do dia anterior ou mesmo do próprio dia em que se sonha; e só como detalhe: Freud também propõe que todas as personagens de nossos sonhos somos nós mesmos. 

Voltando ao nosso ancestral macacóide, imagino-o dormindo, mergulhado em seus sonhos, naquele mesmo dia ou no dia seguinte à descoberta que o levou ao pensamento lógico, quando, de alguma doida forma onírica, obviamente,  lhe aparece aquela abstração: a ferramenta. E a pedra-mãe começa a ganhar desdobramentos pré-simbólicos a partir de imagens que vão se contrapondo, justapondo e interpondo misteriosamente. De repente, numa dessas imagens tresloucadas, surge uma outra pedra, do nada, e atinge a cabeça de nosso herói. A pedra que pareceu lhe castigar é por ele mesmo arremessada longe, não mais voltando. E ainda: surge uma ferramenta-raio numa dessas conexões impossíveis que só o sonho permite. E esta, ao ser batida contra o objeto que se quer partir, provoca o estrondo de um trovão, fenômeno que já o amedronta em vida pela proporção e inexplicabilidade. E sua mão nessa hora se transforma na mão de um ser gigante que, assim como o trovão, mora no céu. E por aí vai... 

Agora entra em nossa história um terceiro grande cientista, o antropólogo francês Lévi-Strauss e sua obra “O Cru e o Cozido”, também linda de morrer. Lévi-Strauss trabalhou com a formação dos mitos e esse livro apresenta dezenas de histórias míticas reconstruídas, de tribos ancestrais das Américas, especialmente do Sul e Central. As histórias são usadas para tentar explicar como se deu a transformação psíquica – e, portanto, mítica – na cabeça desses povos, a partir da mudança de consumo do alimento cru para o cozido. 

O interessante é que as histórias são, invariavelmente, loucos devaneios, não de todo sem-pé-nem-cabeça, mas, no mínimo, com os pés-na-cabeça. São acontecimentos não lineares, não temporais e não lógicos, embora sejam acontecimentos (sem dúvida) e registrem a história mítica desses povos, sobre seus deuses, o aparecimento das coisas, dos alimentos, dos bichos, de como surgiu o céu, o rio, enfim, sobre tudo que existia e não existia no mundo. E é impossível não associar essa teia caótica de acontecimentos com os acontecimentos como se dão nos sonhos, ainda que Lévi-Strauss, se bem me lembro, não tenha dado importância a esse fato. 

O que pretendo aqui considerar, portanto, é que fizemos boa parte de nossas conexões mentais com base nos sonhos de outrora. Construímos nosso mundo mítico a partir dos sonhos, sendo que esse universo serviu de base para a construção de nossos valores e crenças, que, finalmente, aliados a outros fatores, especialmente os de interesses pessoais, moldaram o mundo em que vivemos. Enquanto os sonhos de nossos ancestrais iam sendo contados nas tribos, imagino que em grandes rodas, mas também em conversas privadas ou em pequenos grupos, nossas crenças iam se moldando. E ainda íamos com isso desenvolvendo e enriquecendo nossas conexões mentais e silógicas. Tudo, a partir de uma louca e desenfreada experiência: o sonho. E é claro que de forma semelhante, como nos contos míticos desses e de tantos povos, se deram as escrituras do Velho e do Novo Testamento, do Corão e do Vedas, entre outros, que também apresentam essas linguagens e semânticas devaneadas, desconstruídas, lúdicas e simbólicas.  

Enfim, essa é uma possibilidade: começamos a pensar com as mãos e desenvolvemos uma parte significativa de nosso pensamento, de nossas crenças e valores, a partir do fantástico mundo onírico. E das idéias dos que se aproveitaram disso, claro. 
 
Magno Mello         

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Para que e a quem serve a educação

Dizer que hoje se tem alguma resposta para a educação, é mentira. Chegamos num ponto em que ninguém sabe exatamente mais o que pensar, ainda que se continue pensando e isto seja necessário. Precisamos reconhecer: tudo o que temos dito sobre o assunto nos últimos tempos são apenas conjeturas. Isso porque ninguém tem a menor idéia de para aonde o mundo está indo. Qualquer novo grande fenômeno - e advirão muitos nas próximas décadas - poderá mudar drasticamente o rumo dos acontecimentos. Então, como saber de que modo preparar o aluno? Para que mundo?

Mesmo quando se diz ser necessário ensinar o indivíduo a aprender por si mesmo, estamos alimentando uma falácia. Em último grau isto quer dizer: aprender de improviso diante de um objeto desconhecido, de desconhecidas causas e consequências. Neste caso, pode-se aprender algo completamente ineficiente ou mesmo danoso, em curto, médio e ou longo prazo. Imagine que um novo fenômeno se apresente e lá vamos nós conjeturar a partir de lógicas que por si mesmas são falhas e enganosas, por não contemplarem a complexa multiplicidade dos fatos e dos objetos. Nem mesmo trilhões de dados reunidos e sofisticados algoritmos podem traduzir essa complexidade. E muito disso por estarmos lidando com pessoas e seus infinitos paradoxais interesses, além de suas ideologias, sua imaturidades e, principalmente, sua animalidade.

Nenhuma ciência, portanto, é tão séria quanto quer parecer. Por exemplo, não é muito séria uma medicina que não enxerga o ser humano como um conjunto de reações interdependentes, físicas e psíquicas. No entanto, é essa medicina que se aplica no mundo. Não são muito sérias uma engenharia e uma arquitetura que não contemplam os reais impactos ambientais, inclusive sobre o ambiente humano, impedidas dessa leitura por interesses econômicos que atropelam possibilidades mais éticas e humanísticas. Não é muito séria uma educação que apenas tenta preparar o indivíduo para o mercado de trabalho, esquecendo-se de educá-lo para o bem-estar. A escola, na verdade, ensina o indivíduo a ser triste, por ser ela mesma uma das grandes replicadoras de um modelo falido que não contempla o mais importante: a vida. Ou existe algo mais importante que a vida? Também não é nada séria uma política econômica que fomenta tantas desigualdades e promove a competitividade como se ainda estivéssemos numa selva, como não é séria nossa estrutura social que vem promovendo uma explosão demográfica de deprimidos, ansiosos críticos, alienados e simples produtores e consumidores.

Então, o que ensinar ao aluno? Acredito em apenas duas possibilidades: ensiná-lo a desconstruir seus atavismos, suas crenças e sua cultura, nocivos a si mesmo e à sociedade, e autorizá-lo a reconstruir um mundo melhor, incluindo o seu próprio. Porque estamos, claramente, como que presos a um emaranhado de arame farpado, no qual, quanto mais tentamos agir, mais nos enroscamos e nos machucamos.

A única educação que poderia hoje se dizer séria, portanto, seria uma a romper cada conexão dessa teia farpada que nos escraviza e nos entristece cada vez mais.


Magno Mello

quinta-feira, 27 de março de 2014

Só a poesia salva

Recuso-me a desistir deste mundo, este, o único que temos. Sem dúvida, subvertendo a retórica de Pangloss, não é o melhor dos mundos possíveis. Acho até que algo de drástico está para acontecer. Sinto, como sinto cheiro de chuva; torço para estar com os sentidos alterados (ou não, para que se apresse o conserto). É como se assistisse a um filme em que, de repente, tudo fica silencioso. Daquele silêncio que precede o esporro, apesar da tagarelice nas redes, que me parecem agora apenas algaravias surdas e mudas. Os lábios se mexem, as letras aparecem. No entanto, não há som, nem sentido. Fico meio assustado. Toda uma configuração de pré-catástrofe, quando olhamos para a história. O radicalismo religioso em alta, o declínio moral, cultural e artístico, a superpopulação, a devastação ecológica...e essa agora de 67% dos entrevistados achando que a culpa da violência contra a mulher é dela mesma. Esses homens estão odiando as mulheres ou estou entendendo errado? Que loucura é essa?

Mas ainda assim quero acreditar que há salvação. Embora, e só isto deve ser real, Jesus não voltará. Nada mais voltará, apesar da idéia de economia de galinheiro que supostamente sempre foi a história: tudo em silêncio, de repente ouve-se um có, depois dois, três, cinco, oito, doze, dezessete, quarenta e nove, duzentos cós, cocós, cococós e cocoricós. E eis aquela explosão de cacarejos desenfreados, louco bater de asas e galinhas chocando-se umas contra as outras. Até que tudo cessa, silêncio total. Então, um novo có. E a coisa recomeça. Uma explosão a cada quatro minutos, se muito.

Não, a História não é assim. Apenas parece ser porque somos mentalmente preguiçosos e na maior parte das vezes agarramo-nos à primeira analogia que nos vem à mente. A história também nunca foi progressiva, mas de um desenrolar para todos os lados, sem direção. Somente uma coisa é certa, e isto podemos chamar de cíclico: uma hora a casa cai, sempre caiu. E a nossa, imagino, está ruindo, mesmo diante das promessas da ciência.

Nessa hora, talvez, já não há muito mais o que fazer. É difícil acreditar que a ética poderia mudar radicalmente em tão curto espaço de tempo. O tempo que precisaríamos para salvar nossa sociedade de uma catástrofe. Isso não vai acontecer. Mas não quer dizer que seremos dizimados do planeta. Talvez uma parte sim, por qualquer dos vários perigos que hoje nos rodeiam. Não há uma possibilidade de derrocada, há várias, de várias formas, entre guerras e tragédias naturais.

Pronto, disse o que queria dizer, esse pensamento andou me rondando. Quem sabe assim o expurgo? Mas ainda direi em verso. É deste modo que jamais desistirei do mundo: mais do que ver o lado bom ou ruim das coisas, quero enxergar alguma poesia. Isto porque, como disse, acredito que a vida humana não se extinguirá tão cedo neste planeta, ainda que a sociedade que construímos desmorone. E precisaremos mesmo de alguma poesia para reerguer as estruturas, colar os cacos. Desejando que o façamos dessa vez de modo mais saudável, justo e, por que não, mais belo. Foi e fui:


Todos os átomos

A lua inaugurou a noite
mas o sol brilhava
como o fato que já é fato
e ainda se prenuncia.
Dessa notícia vem o veredito:
sempre o poder, sempre
que, invariavelmente, destrói enquanto cria, tentando se conservar
ecos da Ilha de Páscoa, mensagens sumerianas, romanas, maias
tudo ali se destruindo à sombra dos mais altos edifícios (quanto menos controle, mais símbolos – e não o contrário)
e novamente agora
quando se ocupa quase todo o espaço
e migrar já não é possível...
Mas surge a nova mitologia - do futuro - de deuses asgardianos
que, no entanto, sangram
magiciência da terra prometida onde jaz a água contaminada
e aos filhos do poder caberá um mundo
de cem virgens para cada impotente
se me perguntassem, eu diria:
nada mais fundamentalista que o poder
em sua crença absoluta de crescer sem limites
enquanto religiosos vaticinam que a família salvará o mundo, o poder se dá entre famílias, não menos religiosas.
a lua inaugurou a noite
mas o sol brilhava nos quatro cantos do mundo
a não ser que se conte outra história.

Magno Mello

*É isso, que se apertem os cintos. E que saibamos afrouxá-los na hora certa.

quinta-feira, 20 de março de 2014

A era do big data

Certamente, muita gente já ouviu algo a respeito do big data. Entretanto, muito pouco se sabe sobre esse fenômeno que poderá, em muito pouco tempo, revolucionar a maneira como olhamos para o conhecimento. Hoje, sabe-se apenas que big data é o armazenamento e a leitura por meio de algoritmos de uma quantidade gigantesca de dados.

Sabemos também que esses dados são utilizados pelas grandes empresas para impulsionar suas vendas por meio de propagandas direcionadas na internet. Sabemos ainda que somos nós mesmos que fornecemos esses dados, a cada site que visitamos, a cada aplicativo que baixamos, a cada atualização em nossos computadores, a cada compra realizada com cartões de crédito e débito, no mundo físico e virtual. E também quando usamos nossos GPSs, mandamos um email, fazemos uma ligação pelo celular ou nos comunicamos pelas redes sociais, entre outras ações cotidianas. Até o modo como buscamos as informações na tela do computador, ou seja, o movimento de nosso cursor, é mapeado, dataficado e analisado. E a despeito de leis mais razoáveis de privacidade - se bem que as regras básicas estão contidas em cada longo termo de uso, de minúsculas letras, com os quais concordamos - esses bancos de dados produzidos por nós mesmos têm sido comercializados para empresas de todos os setores, em larga escala - aí já muitas vezes sem o nosso consentimento. Mas em outras tantas situações com nossa própria permissão, embora a leitura integral de cada um desses contratos nos tomaria mais tempo do que nos é possível dispor, e disso todas as empresas coletoras, analisadoras ou compradoras de dados estão cientes. E justamente por isso utilizam-se dessa estratégia que já deveria ter sido refreada pela justiça há pelo menos uns dois ou três anos.

De certo modo, muitas dessas informações anteriores já são mais ou menos sabidas por muitos de nós. O que talvez ainda não se tenha refletido de maneira mais aprofundada é que esse é um caminho sem volta e que essa prática invasiva tende a se espalhar para todos os segmentos de nossa vida privada. Simplesmente porque a maioria avassaladora das empresas do mundo, de médio e grande porte, e até as pequenas, vão aderir, na verdade já estão aderindo, a esse método. E dificilmente sobreviverão no mercado sem ele.

Bem, esse é o lado mais negativo do big data, embora haja outros. Mas o que muito pouca gente sabe é que isso pode ser apenas a ponta do iceberg para uma possível mudança de paradigma de como usamos e entendemos o conhecimento. Algo que os estudiosos nessa área têm sugerido como a substituição em larga escala do "por que algo acontece?", para simplesmente "o que acontece?". Não se sabe por que tal fenômeno ocorre ou ocorreu, e talvez nem dará tempo de saber. Mas, a partir do cruzamento de milhões, bilhões ou trilhões de dados, sabe-se que determinada coisa acontece ou aconteceu. E baseando-se em tal evidência se agirá, de forma quase automática. E essa mudança pode se estender para praticamente todas as áreas de nossas vidas: econômica, de consumo, mas também social, educacional, profissional e até afetiva.

Alguns exemplos do poder do big data:

Em 2009 o vírus H1N1, da gripe aviária, começou a se espalhar pelo mundo. Preocupados com uma possibilidade de pandemia os Centros de Controle de Prevenção de Doenças (Centers for Disease Control), nos Estados Unidos, solicitaram que os médicos americanos informassem sobre qualquer novo caso da doença, a fim de que se pudesse mapear seu alastramento. Mas a defasagem das informações era de uma a duas semanas. Isso porque o centro de dados dos CDCs só conseguia processar as informações uma vez por semana. E, claro, essa defasagem era terrivelmente demorada para a urgência do problema. Quem acabou solucionando a questão foi o Google, que ao cruzar mais de 50 milhões de termos de busca dos internautas, relativos à doença, conseguiram detectar com defasagem de apenas 24 horas os focos de pessoas infectadas em território americano. E isso foi fator decisivo para controle da doença no Estados Unidos.

Em 2003 o americano Oren Etzione, após ter comprado uma passagem aérea pela internet meses antes de viajar, justamente para pagar menos, descobriu durante o vôo que outros passageiros haviam comprado suas passagens, com muito menor antecedência, pagando bem menos. Essa sensação de ter sido prejudicado o levou a buscar uma amostragem, num site de viagens, de doze mil preços de passagens durante 41 dias. E com essas informações criou um modelo de previsão de preços de bilhetes, que depois se transformou na startup Farecast. A partir de seu modelo de captação e cruzamento de dados ele passou a acertar, isso já em 2012, até 75% das previsões sobre o aumento ou diminuição de preços de passagens, dependendo do dia da compra. O que levou seus clientes a economizarem em média 50 dólares por passagem. O cruzamento das informações, em 2012 chegando a 200 bilhões de registros, não o levava a saber o porque da alta ou queda do valor das passagens. Mas ele sabia o que e quando acontecia. E nessa mesma época vendeu sua empresa para a Microsoft por cerca de U$ 110 milhões.

O big data possibilitou a existência do Google Translator a partir de um banco de dados de um trilhão de palavras, 95 bilhões de frases, em mais de 60 idiomas. E o sistema é em muitos aspectos auto-aperfeiçoador, com a ajuda dos próprios internautas, mesmo quando escrevem - e por isso mesmo - palavras e frases erradas. Sim, o big data não só aceita o erro, o caos e o paradoxo como deles se utiliza para fornecer dados sobre "o que acontece".

A Amazon não sabe exatamente porque um leitor que gosta de Ernest Hemingway tende a gostar também de F. Scott Fitzgerald, mas seus cruzamentos de bilhões de dados, lidos por algoritmos, dizem que isso acontece. E esse modelo substitui muito mais êxito o sistema anterior de recomendação da Amazon, que antes se utilizava de simples segmentação. Ou seja, se você comprasse um livro sobre música, sua página seria inundada de ofertas de livros de música e arte.

O Wallmart descobriu com o big data que quando aproximava-se a temporada de furacões nos Estados Unidos, os americanos compravam muito mais Pop-Tarts, um doce típico americano. E, claro, passou a encher as prateleiras da frente das lojas com esse tipo de doce quando aumentavam as tempestades.

A Kaggle, empresa que organiza competições de captação de dados, e em 2012 organizou um desses eventos sobre que tipos de carros vendidos em leilão poderiam apresentar problemas, descobriu que carros da cor laranja têm metade da propensão de quebras que os carros de outras cores.

O big data não enxerga causalidades mas muitas vezes sabe o que acontece. E felizmente sua utilização não é apenas para comércio - embora em grande parte ainda seja. A Dra. Carolyn McGregor, do Institute of Technology da University of Ontário, trabalhou junto à IBM num software que ao analisar 1.260 pontos de dados por segundo de bebês prematuros, consegue prever uma infecção com até 24 horas de antecedência. A explosão de bueiros em Manhattan foi diminuída drasticamente a partir da análise de big data.

Estes são apenas alguns exemplos, entre milhares, que neste momento estão transformando drasticamente o mundo em que vivemos. E ainda há muito por vir. A partir do big data muitas profissões desaparecerão e outras serão criadas. Nossas vidas serão devassadas pelo comércio. Mas certamente poderemos num futuro próximo utilizar o big data de forma caseira, para fazer qualquer tipo de pesquisa, de auto-avaliações, de auto-exames, para extrair múltiplos tipos de leitura de um mesmo banco de dados. A criatividade e a subjetividade humanas poderão ser ameaças pela ditadura dos dados. Poderão advir, no entanto, novíssimas perspectivas criativas e novos modos de se existir neste mundo. Claro, a força das grandes corporações é quase ilimitada. Mas nosso pensamento também pode ser.


O big data nos dá um aviso: para prepararmo-nos, de modo apenas razoável, para essa nova configuração mundial de transformações exponenciais e radicais, teremos que pensar à frente, por nós mesmos, de forma aberta, radial, global, flexível, cultural, sem jamais deixar de buscar tanto conhecimentos mais antigos, que formaram nossos padrões de comportamentos e valores, quanto os mais recentes, gerados na atualidade. Mas, ainda os que potencialmente estão para eclodir.

Magno Mello


*fonte: Big Data, como extrair volume, variedade, velocidade e valor da avalanche de informação cotidiana - Viktor Mayer-Schönberger e Kenneth Cukier

terça-feira, 18 de março de 2014

A cultura do achismo

O achismo existe desde quando o ser-querendo-tornar-se-humano começou a pensar. Pensou a primeira vez e já acreditou ser verdade. Inventou uma teoria de improviso e a ela, automaticamente, no calor do momento, deu fé. Certamente, na hora, a não ser por uma chispa de pensamento que se lhe acometeu, mas que passou muito rápida para ser considerada, nem parou para refletir se acreditava mesmo no que lhe viera à cabeça. O estado gozoso da criação e da crença egóica, como ainda hoje se dá entre nós humanos, naquele instante foi mais forte que qualquer vontade de ponderação. E mesmo que após algum tempo nosso ancestral tenha reavaliado a idéia, sua teoria de puro achismo, possivelmente, já tinha sido divulgada e corroborada por outros. Aliás, não é assim que nossas crenças e valores foram e continuam sendo construídos?

Eis, provavelmente, um dos primeiros grandes achismos: lá acima, no céu, tem um ser mágico, invisível, gigantesco, que trovoa e atira seus relâmpagos, despeja suas tempestades e suas escuridões. Devemos, portanto, temê-lo. Mas também exibe suas estrelas, nos dá a luz do sol, da lua, e quem sabe criou - quem mais? - este mundo em que agora sabemos que estamos. E, por que não, pode ter nos dado esta vida, esta que agora estamos conscientes de possuir. Isso quer dizer que também devemos adorá-lo - para continuar recebendo o que é bom, além de aplacarmos sua ira? "Sim, exatamente! - alguém achou. Achou por pura influência momentânea, para fazer coro, para pertencer a uma comunidade, ou porque aquilo pelo menos era algum sentido diante do extremo vazio ideológico de uma mente que já começava a exigir explicações. Então, ficou combinado de que era aquilo mesmo.

A partir daí sabemos como a história continua. Mas é sempre bom lembrarmo-nos de algumas passagens, como, por exemplo, do achismo pré-socrático, do achismo egípcio centrado na certeza única, que era a figura do faraó, do achismo lógico/racional/retórico dos gregos, do achismo das igrejas e dos imperadores na Idade Média, do achismo científico iluminista da Idade Moderna e, finalmente, do achismo tecnicista tecnológico da Era Contemporânea, que, a exemplo das outras eras, foi diretamente influenciada e continua sustentada pelas hereditariedades advindas dos períodos anteriores. Todos esses tempos permeados por achismos individuais, grupais, tribais, regionais, nacionais e hoje mundiais, em todas as áreas de conhecimento e comportamento. Achismos, achismos, achismos e, vá lá, um pouco de ciências empíricas e matemáticas, que muitas vezes na história também provaram ser meros achismos, ainda que complexamente elaboradas e calculadas. Não estava mais que provada a existência dos buracos negros? Pois, agora, ninguém menos que Stephen Hawking acha que não existem. Piores são os eternos achismos sobre os benefícios ou malefícios do ovo e do chocolate.

É preciso considerarmos, no entanto, que há pessoas neste mundo que lutam para trazer à luz alguma verdade, muitas vezes até passando por cima das próprias crenças, profundas ou imediatas E para isso mergulham em estudos, pesquisas, comparações de conteúdos e análises críticas, tentando enxergar a coisa tal qual ela se apresenta, acima dos dogmas, dos mitos, de perniciosos acordos intelectuais ou da traiçoeira intelectualidade imaginativa ou intuitiva. Isto, para considerarmos, por outro lado, que a grande maioria esmagadora dos seres humanos habitantes deste planeta, em todas as gerações, em todos os tempos, falam qualquer coisa que vem à cabeça ou, simplesmente, em muitas situações apenas replicam conceitos e idéias que ouviram por aí, em qualquer esquina do mundo. Neste sentido, basta que se ouça um argumento, uma idéia, um relato, uma notícia, para se apressar numa impressão, num ponto de vista, desengonçadamente irrefletidos. Se com frases feitas ou pensamentos improvisados, isso não importa, a vontade de falar, de emitir opinião, é sempre maior que a de refletir. E mesmo a vontade de pensar livremente é muito maior que a de estudar, ler, buscar conhecimento consistente ou analisar de maneira crítica, ponderada, responsável, consideradora das múltiplas faces de um objeto.

Desse modo, lá vamos nós pela vida ensinando e aprendendo, disseminando e absorvendo, veleidades, fantasias, ilusões, inverdades, invenções, ficções, falsas teorias, achismos nos mais variados graus, todos os dias, a qualquer hora, em qualquer lugar. E é um tal de lançar falsos números, datas e passagens improvisadas, de colocar palavras na boca de pensadores consagrados, de se dizer que leu em tal lugar, que estudou isso e aquilo, que se tem formação tal e tal, que fulano e cicrano também concordam, e, acima de tudo, de que se tem certeza absoluta. Antes esses discursos se dessem somente nos botecos ou mesmo nas rodas acadêmicas. O problema é que os formadores de opinião, a imprensa, os analistas, os governantes, a mídia em geral, e também os economistas, os pais, professores, amigos, cônjuges, padres e pastores, se valem do mesmo artifício.

Enfim, não é esse o mundo em que vivemos? O que você acha?


Magno Mello


terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Coitada era a Medusa

Se houvesse justiça, haveria também injustiça. E se houvesse injustiça, poucas seriam maiores que as dirigidas contra Medusa, a grega da cara cinzenta e cabeleira de cobras que, ao ser olhada, transformava homens em estátuas de pedra.

Para começar, quem se lembra que ela era sacerdotisa do templo de Atena, a deusa da sabedoria (e da guerra), que a coitada era virgem e ao mesmo tempo a mais linda mulher dos tempos em que Ulisses, o herói da Odisseia, de Homero, também andava pelo mundo? Medusa era tão bela que chamou a atenção e atiçou o apetite de Poseidon, o deus dos mares, por quem foi deflorada à força. Assim começa seu calvário.
 
Após ser violentada, agora recebe o castigo da própria deusa Atena, raivosa, que a transforma no monstro, proibido de ser olhado, e a confina, sozinha - ela, a mulher, que continua viva e lúcida dentro do monstro - numa ilha. A partir daí tem início uma corrida por sua cabeça que, segundo a lenda, daria incríveis poderes ao portador. Um a um, aventureiros, caçadores de tesouro partem à sua caça e todos eles são transformados em estátuas de pedra. E a Medusa, não chegava a fazer nada. Talvez até ansiasse ser morta a punhal, ao menos para sentir um último toque humano e, quem sabe, receber um último olhar, mesmo que de seu assassino.
 
Até que chega à ilha nosso outro herói, Perseu, movido por razões mitologicamente contraditórias. E num golpe de mestre, diríamos numa tocaia de costas, orientado apenas pelo espelho de seu escudo, consegue finalmente decepar a moça. O pior é que Perseu recebeu ajuda da própria Atena na empreitada.
 
Triste fim de Medusa. Ainda foi enterrada no templo de sua deusa. Sinceramente, se eu fosse mulher, exigiria reparo.


Magno Mello