Recuso-me a desistir deste mundo, este, o único que temos. Sem dúvida, subvertendo
a retórica de Pangloss, não é o melhor dos mundos possíveis. Acho até que algo
de drástico está para acontecer. Sinto, como sinto cheiro de chuva; torço para
estar com os sentidos alterados (ou não, para que se apresse o conserto). É como
se assistisse a um filme em que, de repente, tudo fica silencioso. Daquele silêncio
que precede o esporro, apesar da tagarelice nas redes, que me parecem agora apenas
algaravias surdas e mudas. Os lábios se mexem, as letras aparecem. No entanto,
não há som, nem sentido. Fico meio assustado. Toda uma configuração de
pré-catástrofe, quando olhamos para a história. O radicalismo religioso em alta,
o declínio moral, cultural e artístico, a superpopulação, a devastação
ecológica...e essa agora de 67% dos entrevistados achando que a culpa da
violência contra a mulher é dela mesma. Esses homens estão odiando as mulheres
ou estou entendendo errado? Que loucura é essa?
Mas ainda assim quero acreditar que há salvação. Embora, e só isto deve
ser real, Jesus não voltará. Nada mais voltará, apesar da idéia de economia de
galinheiro que supostamente sempre foi a história: tudo em silêncio, de repente
ouve-se um có, depois dois, três, cinco, oito, doze, dezessete, quarenta e nove,
duzentos cós, cocós, cococós e cocoricós. E eis aquela explosão de cacarejos
desenfreados, louco bater de asas e galinhas chocando-se umas contra as outras.
Até que tudo cessa, silêncio total. Então, um novo có. E a coisa recomeça. Uma
explosão a cada quatro minutos, se muito.
Não, a História não é assim. Apenas parece ser porque somos mentalmente
preguiçosos e na maior parte das vezes agarramo-nos à primeira analogia que nos
vem à mente. A história também nunca foi progressiva, mas de um desenrolar para
todos os lados, sem direção. Somente uma coisa é certa, e isto podemos chamar
de cíclico: uma hora a casa cai, sempre caiu. E a nossa, imagino, está ruindo,
mesmo diante das promessas da ciência.
Nessa hora, talvez, já não há muito mais o que fazer. É difícil
acreditar que a ética poderia mudar radicalmente em tão curto espaço de tempo. O
tempo que precisaríamos para salvar nossa sociedade de uma catástrofe. Isso não
vai acontecer. Mas não quer dizer que seremos dizimados do planeta. Talvez uma
parte sim, por qualquer dos vários perigos que hoje nos rodeiam. Não há uma
possibilidade de derrocada, há várias, de várias formas, entre guerras e
tragédias naturais.
Pronto, disse o que queria dizer, esse pensamento andou me rondando. Quem sabe assim o expurgo? Mas ainda direi em verso. É deste modo
que jamais desistirei do mundo: mais do que ver o lado bom ou ruim das coisas, quero enxergar alguma poesia. Isto porque, como disse, acredito que a vida humana não se
extinguirá tão cedo neste planeta, ainda que a sociedade que construímos
desmorone. E precisaremos mesmo de alguma poesia para reerguer as
estruturas, colar os cacos. Desejando que o façamos dessa vez de modo mais saudável,
justo e, por que não, mais belo. Foi e fui:
Todos os átomos
A lua inaugurou a noite
mas o sol brilhava
como o fato que já é fato
e ainda se prenuncia.
Dessa notícia vem o veredito:
sempre o poder, sempre
que, invariavelmente, destrói enquanto
cria, tentando se conservar
ecos da Ilha de Páscoa, mensagens
sumerianas, romanas, maias
tudo ali se destruindo à sombra dos
mais altos edifícios (quanto menos controle, mais símbolos – e não o contrário)
e novamente agora
quando se ocupa quase todo o espaço
e migrar já não é possível...
Mas surge a nova mitologia - do futuro
- de deuses asgardianos
que, no entanto, sangram
magiciência da terra prometida onde
jaz a água contaminada
e aos filhos do poder caberá um mundo
de cem virgens para cada impotente
se me perguntassem, eu diria:
nada mais fundamentalista que o poder
em sua crença absoluta de crescer sem
limites
enquanto religiosos vaticinam que a
família salvará o mundo, o poder se dá entre famílias, não menos religiosas.
a lua inaugurou a noite
mas o sol brilhava nos quatro cantos
do mundo
a não ser que se conte outra história.
Magno Mello
*É isso, que se apertem os cintos. E que saibamos afrouxá-los na hora
certa.