quinta-feira, 27 de março de 2014

Só a poesia salva

Recuso-me a desistir deste mundo, este, o único que temos. Sem dúvida, subvertendo a retórica de Pangloss, não é o melhor dos mundos possíveis. Acho até que algo de drástico está para acontecer. Sinto, como sinto cheiro de chuva; torço para estar com os sentidos alterados (ou não, para que se apresse o conserto). É como se assistisse a um filme em que, de repente, tudo fica silencioso. Daquele silêncio que precede o esporro, apesar da tagarelice nas redes, que me parecem agora apenas algaravias surdas e mudas. Os lábios se mexem, as letras aparecem. No entanto, não há som, nem sentido. Fico meio assustado. Toda uma configuração de pré-catástrofe, quando olhamos para a história. O radicalismo religioso em alta, o declínio moral, cultural e artístico, a superpopulação, a devastação ecológica...e essa agora de 67% dos entrevistados achando que a culpa da violência contra a mulher é dela mesma. Esses homens estão odiando as mulheres ou estou entendendo errado? Que loucura é essa?

Mas ainda assim quero acreditar que há salvação. Embora, e só isto deve ser real, Jesus não voltará. Nada mais voltará, apesar da idéia de economia de galinheiro que supostamente sempre foi a história: tudo em silêncio, de repente ouve-se um có, depois dois, três, cinco, oito, doze, dezessete, quarenta e nove, duzentos cós, cocós, cococós e cocoricós. E eis aquela explosão de cacarejos desenfreados, louco bater de asas e galinhas chocando-se umas contra as outras. Até que tudo cessa, silêncio total. Então, um novo có. E a coisa recomeça. Uma explosão a cada quatro minutos, se muito.

Não, a História não é assim. Apenas parece ser porque somos mentalmente preguiçosos e na maior parte das vezes agarramo-nos à primeira analogia que nos vem à mente. A história também nunca foi progressiva, mas de um desenrolar para todos os lados, sem direção. Somente uma coisa é certa, e isto podemos chamar de cíclico: uma hora a casa cai, sempre caiu. E a nossa, imagino, está ruindo, mesmo diante das promessas da ciência.

Nessa hora, talvez, já não há muito mais o que fazer. É difícil acreditar que a ética poderia mudar radicalmente em tão curto espaço de tempo. O tempo que precisaríamos para salvar nossa sociedade de uma catástrofe. Isso não vai acontecer. Mas não quer dizer que seremos dizimados do planeta. Talvez uma parte sim, por qualquer dos vários perigos que hoje nos rodeiam. Não há uma possibilidade de derrocada, há várias, de várias formas, entre guerras e tragédias naturais.

Pronto, disse o que queria dizer, esse pensamento andou me rondando. Quem sabe assim o expurgo? Mas ainda direi em verso. É deste modo que jamais desistirei do mundo: mais do que ver o lado bom ou ruim das coisas, quero enxergar alguma poesia. Isto porque, como disse, acredito que a vida humana não se extinguirá tão cedo neste planeta, ainda que a sociedade que construímos desmorone. E precisaremos mesmo de alguma poesia para reerguer as estruturas, colar os cacos. Desejando que o façamos dessa vez de modo mais saudável, justo e, por que não, mais belo. Foi e fui:


Todos os átomos

A lua inaugurou a noite
mas o sol brilhava
como o fato que já é fato
e ainda se prenuncia.
Dessa notícia vem o veredito:
sempre o poder, sempre
que, invariavelmente, destrói enquanto cria, tentando se conservar
ecos da Ilha de Páscoa, mensagens sumerianas, romanas, maias
tudo ali se destruindo à sombra dos mais altos edifícios (quanto menos controle, mais símbolos – e não o contrário)
e novamente agora
quando se ocupa quase todo o espaço
e migrar já não é possível...
Mas surge a nova mitologia - do futuro - de deuses asgardianos
que, no entanto, sangram
magiciência da terra prometida onde jaz a água contaminada
e aos filhos do poder caberá um mundo
de cem virgens para cada impotente
se me perguntassem, eu diria:
nada mais fundamentalista que o poder
em sua crença absoluta de crescer sem limites
enquanto religiosos vaticinam que a família salvará o mundo, o poder se dá entre famílias, não menos religiosas.
a lua inaugurou a noite
mas o sol brilhava nos quatro cantos do mundo
a não ser que se conte outra história.

Magno Mello

*É isso, que se apertem os cintos. E que saibamos afrouxá-los na hora certa.

quinta-feira, 20 de março de 2014

A era do big data

Certamente, muita gente já ouviu algo a respeito do big data. Entretanto, muito pouco se sabe sobre esse fenômeno que poderá, em muito pouco tempo, revolucionar a maneira como olhamos para o conhecimento. Hoje, sabe-se apenas que big data é o armazenamento e a leitura por meio de algoritmos de uma quantidade gigantesca de dados.

Sabemos também que esses dados são utilizados pelas grandes empresas para impulsionar suas vendas por meio de propagandas direcionadas na internet. Sabemos ainda que somos nós mesmos que fornecemos esses dados, a cada site que visitamos, a cada aplicativo que baixamos, a cada atualização em nossos computadores, a cada compra realizada com cartões de crédito e débito, no mundo físico e virtual. E também quando usamos nossos GPSs, mandamos um email, fazemos uma ligação pelo celular ou nos comunicamos pelas redes sociais, entre outras ações cotidianas. Até o modo como buscamos as informações na tela do computador, ou seja, o movimento de nosso cursor, é mapeado, dataficado e analisado. E a despeito de leis mais razoáveis de privacidade - se bem que as regras básicas estão contidas em cada longo termo de uso, de minúsculas letras, com os quais concordamos - esses bancos de dados produzidos por nós mesmos têm sido comercializados para empresas de todos os setores, em larga escala - aí já muitas vezes sem o nosso consentimento. Mas em outras tantas situações com nossa própria permissão, embora a leitura integral de cada um desses contratos nos tomaria mais tempo do que nos é possível dispor, e disso todas as empresas coletoras, analisadoras ou compradoras de dados estão cientes. E justamente por isso utilizam-se dessa estratégia que já deveria ter sido refreada pela justiça há pelo menos uns dois ou três anos.

De certo modo, muitas dessas informações anteriores já são mais ou menos sabidas por muitos de nós. O que talvez ainda não se tenha refletido de maneira mais aprofundada é que esse é um caminho sem volta e que essa prática invasiva tende a se espalhar para todos os segmentos de nossa vida privada. Simplesmente porque a maioria avassaladora das empresas do mundo, de médio e grande porte, e até as pequenas, vão aderir, na verdade já estão aderindo, a esse método. E dificilmente sobreviverão no mercado sem ele.

Bem, esse é o lado mais negativo do big data, embora haja outros. Mas o que muito pouca gente sabe é que isso pode ser apenas a ponta do iceberg para uma possível mudança de paradigma de como usamos e entendemos o conhecimento. Algo que os estudiosos nessa área têm sugerido como a substituição em larga escala do "por que algo acontece?", para simplesmente "o que acontece?". Não se sabe por que tal fenômeno ocorre ou ocorreu, e talvez nem dará tempo de saber. Mas, a partir do cruzamento de milhões, bilhões ou trilhões de dados, sabe-se que determinada coisa acontece ou aconteceu. E baseando-se em tal evidência se agirá, de forma quase automática. E essa mudança pode se estender para praticamente todas as áreas de nossas vidas: econômica, de consumo, mas também social, educacional, profissional e até afetiva.

Alguns exemplos do poder do big data:

Em 2009 o vírus H1N1, da gripe aviária, começou a se espalhar pelo mundo. Preocupados com uma possibilidade de pandemia os Centros de Controle de Prevenção de Doenças (Centers for Disease Control), nos Estados Unidos, solicitaram que os médicos americanos informassem sobre qualquer novo caso da doença, a fim de que se pudesse mapear seu alastramento. Mas a defasagem das informações era de uma a duas semanas. Isso porque o centro de dados dos CDCs só conseguia processar as informações uma vez por semana. E, claro, essa defasagem era terrivelmente demorada para a urgência do problema. Quem acabou solucionando a questão foi o Google, que ao cruzar mais de 50 milhões de termos de busca dos internautas, relativos à doença, conseguiram detectar com defasagem de apenas 24 horas os focos de pessoas infectadas em território americano. E isso foi fator decisivo para controle da doença no Estados Unidos.

Em 2003 o americano Oren Etzione, após ter comprado uma passagem aérea pela internet meses antes de viajar, justamente para pagar menos, descobriu durante o vôo que outros passageiros haviam comprado suas passagens, com muito menor antecedência, pagando bem menos. Essa sensação de ter sido prejudicado o levou a buscar uma amostragem, num site de viagens, de doze mil preços de passagens durante 41 dias. E com essas informações criou um modelo de previsão de preços de bilhetes, que depois se transformou na startup Farecast. A partir de seu modelo de captação e cruzamento de dados ele passou a acertar, isso já em 2012, até 75% das previsões sobre o aumento ou diminuição de preços de passagens, dependendo do dia da compra. O que levou seus clientes a economizarem em média 50 dólares por passagem. O cruzamento das informações, em 2012 chegando a 200 bilhões de registros, não o levava a saber o porque da alta ou queda do valor das passagens. Mas ele sabia o que e quando acontecia. E nessa mesma época vendeu sua empresa para a Microsoft por cerca de U$ 110 milhões.

O big data possibilitou a existência do Google Translator a partir de um banco de dados de um trilhão de palavras, 95 bilhões de frases, em mais de 60 idiomas. E o sistema é em muitos aspectos auto-aperfeiçoador, com a ajuda dos próprios internautas, mesmo quando escrevem - e por isso mesmo - palavras e frases erradas. Sim, o big data não só aceita o erro, o caos e o paradoxo como deles se utiliza para fornecer dados sobre "o que acontece".

A Amazon não sabe exatamente porque um leitor que gosta de Ernest Hemingway tende a gostar também de F. Scott Fitzgerald, mas seus cruzamentos de bilhões de dados, lidos por algoritmos, dizem que isso acontece. E esse modelo substitui muito mais êxito o sistema anterior de recomendação da Amazon, que antes se utilizava de simples segmentação. Ou seja, se você comprasse um livro sobre música, sua página seria inundada de ofertas de livros de música e arte.

O Wallmart descobriu com o big data que quando aproximava-se a temporada de furacões nos Estados Unidos, os americanos compravam muito mais Pop-Tarts, um doce típico americano. E, claro, passou a encher as prateleiras da frente das lojas com esse tipo de doce quando aumentavam as tempestades.

A Kaggle, empresa que organiza competições de captação de dados, e em 2012 organizou um desses eventos sobre que tipos de carros vendidos em leilão poderiam apresentar problemas, descobriu que carros da cor laranja têm metade da propensão de quebras que os carros de outras cores.

O big data não enxerga causalidades mas muitas vezes sabe o que acontece. E felizmente sua utilização não é apenas para comércio - embora em grande parte ainda seja. A Dra. Carolyn McGregor, do Institute of Technology da University of Ontário, trabalhou junto à IBM num software que ao analisar 1.260 pontos de dados por segundo de bebês prematuros, consegue prever uma infecção com até 24 horas de antecedência. A explosão de bueiros em Manhattan foi diminuída drasticamente a partir da análise de big data.

Estes são apenas alguns exemplos, entre milhares, que neste momento estão transformando drasticamente o mundo em que vivemos. E ainda há muito por vir. A partir do big data muitas profissões desaparecerão e outras serão criadas. Nossas vidas serão devassadas pelo comércio. Mas certamente poderemos num futuro próximo utilizar o big data de forma caseira, para fazer qualquer tipo de pesquisa, de auto-avaliações, de auto-exames, para extrair múltiplos tipos de leitura de um mesmo banco de dados. A criatividade e a subjetividade humanas poderão ser ameaças pela ditadura dos dados. Poderão advir, no entanto, novíssimas perspectivas criativas e novos modos de se existir neste mundo. Claro, a força das grandes corporações é quase ilimitada. Mas nosso pensamento também pode ser.


O big data nos dá um aviso: para prepararmo-nos, de modo apenas razoável, para essa nova configuração mundial de transformações exponenciais e radicais, teremos que pensar à frente, por nós mesmos, de forma aberta, radial, global, flexível, cultural, sem jamais deixar de buscar tanto conhecimentos mais antigos, que formaram nossos padrões de comportamentos e valores, quanto os mais recentes, gerados na atualidade. Mas, ainda os que potencialmente estão para eclodir.

Magno Mello


*fonte: Big Data, como extrair volume, variedade, velocidade e valor da avalanche de informação cotidiana - Viktor Mayer-Schönberger e Kenneth Cukier

terça-feira, 18 de março de 2014

A cultura do achismo

O achismo existe desde quando o ser-querendo-tornar-se-humano começou a pensar. Pensou a primeira vez e já acreditou ser verdade. Inventou uma teoria de improviso e a ela, automaticamente, no calor do momento, deu fé. Certamente, na hora, a não ser por uma chispa de pensamento que se lhe acometeu, mas que passou muito rápida para ser considerada, nem parou para refletir se acreditava mesmo no que lhe viera à cabeça. O estado gozoso da criação e da crença egóica, como ainda hoje se dá entre nós humanos, naquele instante foi mais forte que qualquer vontade de ponderação. E mesmo que após algum tempo nosso ancestral tenha reavaliado a idéia, sua teoria de puro achismo, possivelmente, já tinha sido divulgada e corroborada por outros. Aliás, não é assim que nossas crenças e valores foram e continuam sendo construídos?

Eis, provavelmente, um dos primeiros grandes achismos: lá acima, no céu, tem um ser mágico, invisível, gigantesco, que trovoa e atira seus relâmpagos, despeja suas tempestades e suas escuridões. Devemos, portanto, temê-lo. Mas também exibe suas estrelas, nos dá a luz do sol, da lua, e quem sabe criou - quem mais? - este mundo em que agora sabemos que estamos. E, por que não, pode ter nos dado esta vida, esta que agora estamos conscientes de possuir. Isso quer dizer que também devemos adorá-lo - para continuar recebendo o que é bom, além de aplacarmos sua ira? "Sim, exatamente! - alguém achou. Achou por pura influência momentânea, para fazer coro, para pertencer a uma comunidade, ou porque aquilo pelo menos era algum sentido diante do extremo vazio ideológico de uma mente que já começava a exigir explicações. Então, ficou combinado de que era aquilo mesmo.

A partir daí sabemos como a história continua. Mas é sempre bom lembrarmo-nos de algumas passagens, como, por exemplo, do achismo pré-socrático, do achismo egípcio centrado na certeza única, que era a figura do faraó, do achismo lógico/racional/retórico dos gregos, do achismo das igrejas e dos imperadores na Idade Média, do achismo científico iluminista da Idade Moderna e, finalmente, do achismo tecnicista tecnológico da Era Contemporânea, que, a exemplo das outras eras, foi diretamente influenciada e continua sustentada pelas hereditariedades advindas dos períodos anteriores. Todos esses tempos permeados por achismos individuais, grupais, tribais, regionais, nacionais e hoje mundiais, em todas as áreas de conhecimento e comportamento. Achismos, achismos, achismos e, vá lá, um pouco de ciências empíricas e matemáticas, que muitas vezes na história também provaram ser meros achismos, ainda que complexamente elaboradas e calculadas. Não estava mais que provada a existência dos buracos negros? Pois, agora, ninguém menos que Stephen Hawking acha que não existem. Piores são os eternos achismos sobre os benefícios ou malefícios do ovo e do chocolate.

É preciso considerarmos, no entanto, que há pessoas neste mundo que lutam para trazer à luz alguma verdade, muitas vezes até passando por cima das próprias crenças, profundas ou imediatas E para isso mergulham em estudos, pesquisas, comparações de conteúdos e análises críticas, tentando enxergar a coisa tal qual ela se apresenta, acima dos dogmas, dos mitos, de perniciosos acordos intelectuais ou da traiçoeira intelectualidade imaginativa ou intuitiva. Isto, para considerarmos, por outro lado, que a grande maioria esmagadora dos seres humanos habitantes deste planeta, em todas as gerações, em todos os tempos, falam qualquer coisa que vem à cabeça ou, simplesmente, em muitas situações apenas replicam conceitos e idéias que ouviram por aí, em qualquer esquina do mundo. Neste sentido, basta que se ouça um argumento, uma idéia, um relato, uma notícia, para se apressar numa impressão, num ponto de vista, desengonçadamente irrefletidos. Se com frases feitas ou pensamentos improvisados, isso não importa, a vontade de falar, de emitir opinião, é sempre maior que a de refletir. E mesmo a vontade de pensar livremente é muito maior que a de estudar, ler, buscar conhecimento consistente ou analisar de maneira crítica, ponderada, responsável, consideradora das múltiplas faces de um objeto.

Desse modo, lá vamos nós pela vida ensinando e aprendendo, disseminando e absorvendo, veleidades, fantasias, ilusões, inverdades, invenções, ficções, falsas teorias, achismos nos mais variados graus, todos os dias, a qualquer hora, em qualquer lugar. E é um tal de lançar falsos números, datas e passagens improvisadas, de colocar palavras na boca de pensadores consagrados, de se dizer que leu em tal lugar, que estudou isso e aquilo, que se tem formação tal e tal, que fulano e cicrano também concordam, e, acima de tudo, de que se tem certeza absoluta. Antes esses discursos se dessem somente nos botecos ou mesmo nas rodas acadêmicas. O problema é que os formadores de opinião, a imprensa, os analistas, os governantes, a mídia em geral, e também os economistas, os pais, professores, amigos, cônjuges, padres e pastores, se valem do mesmo artifício.

Enfim, não é esse o mundo em que vivemos? O que você acha?


Magno Mello