Qualquer pessoa com mais de
duzentos amigos no facebook está deliberadamente se expondo e, por isso, quer
se expor. Neste caso, mais uma vez nos vemos mergulhados no velho paradoxo da
vida: queremos mas não queremos, mas queremos.
Sim, queremos. Este é nosso tema de hoje.
Não há dúvida de que o
privado seja algo cultural. Bichos, por exemplo, não têm problemas com
privacidade. Ou mesmo os seres humanos de um passado não muito remoto. Se
pensarmos que nos anos 1000, durante a primeira Cruzada, milhões de católicos
saíram da Europa em direção a Jerusalém, todos juntos, de todos os extratos
sociais, príncipes, prostitutas, ricos mercadores, desvalidos, loucos,
recatados, crianças e idosos, todos eles, misturados naquele mar de sangue que
iam deixando para trás, matando otomanos de qualquer gênero e idade,
lambuzando-se também entre seus próprios suores, sujeiras, feridas e
genitálias, teremos uma boa idéia do que era privacidade àquela época.
Estamos vivendo, portanto,
uma fase da humanidade, como outras anteriores, em que o privado e o público
parecem mais uma vez fundir-se, embora hoje de modo radicalmente menos físico. E
antes fosse apenas o confessionário virtual com tantas pessoas se esparramando
de corpo e alma nas redes sociais, boa parte delas expondo suas misérias,
fraquezas, loucuras, alegrias, vergonhas e outras intimidades; além de ser
quase desnecessário comentar sobre as inúmeras fórmulas de reality shows e toda
a indústria das celebridades instantâneas, nas quais o trabalho duro é expor-se
ao máximo. Há também as milhões de câmeras espalhadas pelas cidades e todas as
informações que fornecemos de graça às empresas e aos governos para que invadam
nossa intimidade de maneira cada vez mais irrestrita. E ainda, a explosão
demográfica de artistas, incluindo aí DJs e auto intitulados compositores,
videomakers, cantores, escritores, fotógrafos, poetas e instrumentistas, bem
como toda a gama de profissionais, com seus bilhões de páginas e sites abertos
para o mundo. Enfim, todo um ambiente propício à máxima interação e exposição
do privado junto ao público.
A história, todavia, nem
sempre se deu assim. Como nos mostra Hannah Arendt, encontraremos distintas
situações entre o público e o privado ao longo dos tempos. E, às vezes,
diferenças marcantes em mesmo local e época. Reportando-nos à Grécia Antiga, por
exemplo, a situação privada era a seguinte: na esfera da casa - ou oikos - o
patriarca era o chefe supremo que dominava todos à sua volta, entre esposa,
filhos e servos, até com poder de vida e morte sobre estes. Não havia qualquer
lei no âmbito privado a não ser a lei daquele que alimentava, abrigava e
protegia sua família e seus servos.
Mas o domínio absoluto no
privado ainda significava muito pouco, pois se esse déspota familiar não
conquistasse independência suficiente para sanar todas as necessidades da casa,
não poderia fazer parte da koinon, que era a esfera pública, onde se praticava
a vida política. Sem essa condição não se podia participar da vida pública nem
exercer a retórica na discussão democrática das idéias; embora devemos nos lembrar
que a retórica era tão somente a "arte do convencimento" e não da
legítima argumentação; e democracia sempre foi isso.
Entrar no âmbito público era
um dos princípios maiores da coragem, pois ali iria se defender algumas vezes a
própria vida, que podia ser ameaçada pelo mal uso das idéias. Por outro lado,
uma vez adentrado na vida pública o cidadão experimentava a democracia plena,
sob a qual ninguém estava acima de ninguém, pelo menos até que se provasse o
contrário, por meio da argumentação. De resto, as chances eram iguais para
todos - isso dentro daquela elite do sexo masculino de economicamente sanados,
e contanto que não fossem escravos.
Lembre-se: o assunto ainda é
superexposição nas mídias.
Já no caso do Império Romano
o público e o privado se confundiam na figura do rei, a quem tanto uma esfera
quanto outra estavam despoticamente subordinadas. Quando o Império Romano ruiu,
quem assumiu esse papel unificador das duas esferas foi a igreja católica, que
à época crescia a toda velocidade e logo passou a reger toda a conduta moral e
espiritual do ocidente. Quase ninguém mais escapava dos olhos onipresentes da
igreja. E essa força aglutinadora continuou por toda a idade média.
O poder nesses tempos, no
entanto, também estendia-se aos senhores feudais, que absorviam e dominavam a
esfera privada dos vilãos (habitantes das vilas) e dos servos, centralizando
esse comando nas esferas pública e privada do feudo, que incluía o castelo, a
vila e as até propriedades dos vilãos. Ali, era o próprio senhor feudal quem
administrava a justiça e aplicava as leis. Na segunda metade do século XV
(1453), porém, os otomanos tomam Constantinopla. É o fim do Império Romano do
Oriente, da Idade Média e também do feudalismo europeu.
Nos primórdios da Idade
Moderna aparece Lutero, iniciando em 1517 a Reforma Protestante e colocando
tudo novamente de cabeça para baixo. Se até aquele momento havia um poder
público ou divino, que dominava os âmbitos público e privado, a partir de
agora, segundo Max Weber, começava a surgir um novo poder, privado,
independente - que mais tarde iria subjugar as esferas pública e religiosa
juntas, e sob o consentimento de Deus: o capitalismo. A premissa da lei
luterana era que se o homem tinha o poder de acumular bens e não o fazia,
estava indo contra a vontade de Deus, pois o próprio Deus havia lhe conferido
esse poder. Por outro lado, havia claro aconselhamento quanto ao recato e à
austeridade, também preconizado por Lutero em uma de suas 95 teses sobre a nova
religião. Conquistar era uma coisa, mas exibir as conquistas era algo bem
diferente.
Aproxima-se, então, o fim da
Idade Moderna e início da Idade Contemporânea, isto segundo os moldes da
História tradicional. E o privado, de forma inédita passa a se opor à esfera
social e política, inaugurando a era do individualismo, embora ainda fortemente
ligado às idéias coletivas. É bom ressaltar neste momento que o individualismo,
segundo o sociólogo Norbert Elias, deu seus primeiros passos ainda no final da
Idade Média, quando as pessoas começaram a comer e beber em taças e pratos
separados, entre outros afastamentos físicos que iniciaram-se por aquela época.
Sobre o individualismo já mais avançado, Rousseau foi um dos que mais alimentou
a ideologia no século XVIII, de que os sentimentos privados deveriam ser
preservados da esfera comum do social.
Hoje encontramo-nos na era
do individualismo pleno. Mas mesmo não mais vivendo sob as tradicionais
bandeiras de sustentação do coletivo, ou seja, do Estado e da Igreja, temos, no
entanto, outro poderoso sustentáculo comum: o do consumo. Em uma analogia rasa
podemos dizer que o dinheiro é nosso novo Deus (ou rei) e o consumo, nossa
Igreja (ou Estado), mas com a profunda diferença de que dinheiro e consumo não
possuem pátria ou credo. Em outras palavras, não estamos mais sob controle de
nenhuma moral superior, embora de outras forças até mais efetivas e menos
visíveis.
É aí que voltamos ao nosso
tema central e aos dias atuais. Pelo que parece, chegamos novamente a algo
próximo à vida pública na Grécia Antiga, onde todos os remediados tinham direito
de exibir seus dotes e idéias. E agora, até suas misérias. Hoje, apesar dos
bilhões de rechaçados no mundo, somos muitos os sanados economicamente. E
conforme as leis gregas da antiguidade, pois ainda vivemos sob conceitos
platônicos e aristotélicos de república e democracia, estamos aptos a nos
expor. Agora nem tanto com nossas próprias idéias e significações - e ninguém
vai nos matar pela falta delas - mas com nossas caras e bocas, nossos vídeos,
fotos, máximas emprestadas, rgs, cpfs, emails, telefones, endereços,
preferências, dores, prazeres e até vexames públicos.
Estamos, também vivendo mais
uma vez a experiência radicalmente pública, de certo modo semelhante a que se
dava nos tempos das primeiras Cruzadas, embora com a diferença profunda de, nos
dias atuais, misturarmo-nos tão pouco no plano físico; pois queremos, mas não
queremos, mas queremos.
Não, não queremos. Mas algo
mais forte nos separa; ainda que pareça nos unir - e, paradoxalmente, poderá mesmo
nos unir, explico logo adiante. O que não deixa de ser um triste espetáculo,
pois, ao contrário de todos os outros tempos a vida humana não é mais o centro de
nossas preocupações e dedicações. O espetáculo ultrapassou a vida. Não somente
o espetáculo da exibição pública. Mas também o da tecnologia pela tecnologia, o
do consumo pelo consumo, da produção pela produção, da ciência pela ciência, do
dinheiro pelo dinheiro, do poder pelo poder. Nada disso liga-se mais ao ser
humano. São apenas obsecações de um processo profundamente vicioso. Saímos de
nós, tornamo-nos objetos destes agora sujeitos.
Quero acreditar, todavia,
que há esperança, sempre quero. E neste caso, uma de nossas possíveis salvações
seria, justamente, a superexposição. Claro, trata-se apenas de uma teoria entre
todas as outras que construíram e constroem o mundo. Mas, imagino que quando
chegarmos ao limite, quando estivermos enfim todos conectados "de forma quase
telepatica", nada mais podendo esconder uns dos outros, por todos os
motivos já comentados neste texto, essa coletividade exposta poderá nos fazer lembrar
quem somos, para além dos visíveis e invisíveis poderes e processos
desumanizantes ao longo da história; embora, confesso, creia bem mais numa
catástrofe salvadora.
A humanidade em nós sempre
dependeu da legitimação do outro. E do outro sempre dependeremos, caso
queiramos mantermo-nos humanos. Diante do afastamento radical de nós mesmos,
além do afastamento entre nós, portanto, que foi se dando ao longo da história,
talvez não haja outro remédio que não a exposição radical de quem somos e de
como estamos neste momento, isso para sobrevivermos como espécie. Expor-se,
sempre foi uma tentativa de subjetivar-se no mundo, mas também de conectar-se a
outros.
É por isso que vejo alguma
esperança nas fotinhos tiradas diante do espelho. E mesmo na entrega de todas
as nossas informações pessoais. Deve haver algo de estratégia inconsciente
nisso, freudianamente falando. Não é possível que sejamos, assim, tão tolos e burros.
Ou é?