terça-feira, 5 de novembro de 2013

Arte e cultura como construção e desconstrução

A cultura artística no Brasil é considerada tão pouco importante que ainda hoje mal conseguimos associá-la ou analisá-la como ferramenta de educação. Nesses tempos em que o tema Educação ocupa lugar de destaque nas frentes sociais e políticas, ainda muito timidamente se ouve a palavra cultura associada aos discursos.

Mas porque a cultura seria tão importante? Somos um país que mal chegou à educação. Não deveríamos primeiro cuidar do mais básico para, aí sim, desenvolver outros refinamentos? Definitivamente, não. Pelo simples fato de que só a educação, por si, não é suficiente para responder aos múltiplos anseios cognitivos humanos. Falo sobre o pensamento crítico, independente, a sabedoria, o conhecimento aliado ao autoconhecimento, a sensibilidade, a subjetividade, a razão aliada à intuição, o senso estético e ético apurados. Conhecer algo é tornar-se capaz de transformar o que quer que seja a partir desse conhecimento. E com isso transformar-se, permanentemente. E a educação, pelo menos a tradicional, não tem essa qualidade de ensinar a transformar, mas, muito mais, a proceder.

A cultura, no entanto, carrega esse poder transformador, pois não é somente construção, é também desconstrução. E é transformação permanente, o que não acontece com a educação, geralmente mais estática e pré-estabelecida. Como observou Hannah Arendt, a educação tende a ser conservadora, e de certo modo precisa ser, porque sua transmissão é que faz permanecer vivo nosso legado cultural. Idéia compartilhada pelo educador Moacir Gadotti: "O professor e a educação são o elo entre o passado e o futuro, não tem futuro quem não tem passado, e quem faz esse passado é o professor".

E aí entra o papel processador que a cultura deve ter em relação à educação. A cultura, especialmente a artística, atua em diferentes áreas cognitivas do indivíduo, o que o ajuda a cruzar com maior desenvoltura informações racionais, emocionais e sensoriais, e com isso obter o que existe de mais caro no mundo de hoje: idéias; mais especificamente, idéias originais. E num mundo em acelerada e irreversível transformação nada tende a ser mais importante que o pensamento original, para que esse mundo, com toda sua complexidade, não desabe sobre nossas cabeças nas próximas décadas. Precisaremos improvisar e criar a cada novo fenômeno que brotará desse emaranhado estrutural e tecnológico.

 
Entropia cultural

Um dos maiores dramas no conhecimento atual é o que o sociólogo americano Alvin Toffler chama de obsolecimento ou conhecimento obsoleto, que é um grande depósito de lixo, dentro de nossas cabeças e do megacérebro global, de informações ultrapassadas. Nunca, em nenhum momento da história, o volume de obsolecimento foi tão grande. E continua aumentando em proporções gigantescas. Chegará o momento, se é que já não chegou, que o volume de conhecimento obsoleto será muito maior que o de conhecimento válido. Pois o que fazer com tanta informação perdida?

Acontece que são informações perdidas apenas no pensamento linear ou sequencial, pelo qual fomos e ainda temos sido educados. No pensamento não-linear, simultâneo, radial, em rede, entre outras possibilidades de nomeação, essas informações podem ser ressignificadas, reorganizadas, recicladas, tornando-se novamente idéias não apenas válidas no presente, mas com relação ao que ainda não foi pensado. Em outras palavras, perde-se menos pelo caminho e ganha-se em robustez rumo ao futuro; não podemos deixar de nos perguntar neste momento por que Steve Jobs conseguiu mudar o mundo com suas idéias; certamente não foi por algo que aprendeu nos moldes tradicionais da escola.

O pensamento de hoje, portanto, não pode prescindir da simultaneidade, da razão aliada à emoção, à intuição e a múltiplas outras informações, e sensações. Conhecimento, cada vez mais, significa capacidade de elaboração, de criação, e cada vez menos conteúdo estático e ou desconexo. A educação, para sobreviver como tal, deve reaproximar-se de seu significado original, do latim educare, que significa "retirar de" e não "colocar em", como ainda costumamos ministrá-la. Significa extrair do indivíduo o que ele, em algum lugar de si, já sabe. O que somente ele e ninguém mais pode dar ao mundo. E é desse modo que nos tornaremos mais importantes, para nós mesmos e para a sociedade.

Magno Mello

O que deixamos para o mundo

Émilie du Châtelet foi uma mulher muito a frente de seu tempo. Nascida em Paris no ano de 1706, filha de Louis Nicolas le Tonnelier de Breteuil, o principal secretário e apresentador de embaixadores a Louis XIV, ao completar doze anos já era fluente em Latim, italiano, grego e alemão. Também foi educada em matemática, literatura e ciência, além de se tornar boa cravista, cantar em peças de ópera e atuar no teatro amador. E adorava joias caras. Casou-se com o Marquês Florent-Claude du Chastellet, mas ela e o marido acordaram viver vidas independentes. Enquanto o marido se dedicava às Forças Armadas ela teve um caso de amor e de colaboração científica com Voltaire, que durou quinze anos. E por fim, tornou-se matemática respeitada, traduziu Isaac Newton para o francês e publicou seus livros numa época em que as mulheres...bem, você já sabe.

Um dia Madame Du Châtelet, que antes da maioria dos homens conseguiu ser reconhecida como cientista, contestou o próprio Newton, baseada nos estudos do filósofo e matemático irlandês Willem Gravesande, ao demonstrar empiricamente que a energia cinética de um objeto em movimento é proporcional à sua massa e ao quadrado de sua velocidade (E = mv2) e não diretamente proporcional como acreditava Isaac Newton. E a fórmula teve que ser corrigida: de E=mv para E=mv2.
 
Mas veja as voltas do mundo. Em pleno século 20 essa mesma fórmula, proposta 150 anos antes, foi determinante na elaboração de nada menos que a Teoria da Relatividade, de Einstein. E lá estava Einstein feliz da vida com sua descoberta que mudou o mundo: E=mc2 - energia é igual massa vezes a velocidade da luz ao quadrado. Aliás, quanta beleza nessa proposição! Entre outras coisas provou-se que massa é energia acumulada – gosto dessa ideia.
 
Daí entram na história os cientistas alemães Otto Hahn e Lise Meitner, com seus experimentos de fissão nuclear, para ressignificar drasticamente a teoria de Einstein, pois a fórmula de equivalência massa-energia (E=mc2) foi usada no desenvolvimento da... bomba atômica - que é algo como o desacúmulo súbito da energia. Bem, não é preciso dizer que Einstein ficou arrasado ao saber da notícia. Ele que só pensava na ciência...
 
Em 1944, Hahn recebeu o Prêmio Nobel de Química por sua pesquisa em fissão nuclear. Que prêmio magnífico! Meitner, por sua vez, foi ignorada pelo comitê, principalmente porque Hahn não só não mencionou sua participação na pesquisa como afirmou que seus experimentos químicos foram os únicos responsáveis pela descoberta; isso porque em 1919 Meitner teve que fugir da Alemanha por causa da perseguição nazista. O que não a impediu de continuar trabalhando sistematicamente por correspondência com Hahn.
 
O erro nunca foi reconhecido pelo instituto Nobel , apenas parcialmente retificado em 1966, quando Hahn, Meitner e Fritz Straßmann (esse último também colaborador nas pesquisas) receberam o Prêmio Enrico Fermi.
 
Em visita aos EUA, em 1946, Meitner foi tratada como celebridade pela imprensa americana como a mulher que "deixou a Alemanha com a bomba na bolsa", foi eleita a "Mulher do Ano" pelo National Women’s Press Club (EUA), em 1946, e em 1949 recebeu a medalha Max Planck da Sociedade Alemã de Físicos. O elemento 109, o mais pesado do universo, foi nomeado "meitnério" (Mt) em sua homenagem pela IUPAC. Muitas pessoas consideram Lise Meitner a "mulher mais importante na ciência do século XX". Porém, não podemos deixar de dizer: “Lise Meitner, a mulher que inventou a bomba atômica”.
 
Pobre Lise, que assim como Einstein só queria fazer ciência. O Otto também, mas esse podemos dizer que foi mesmo um cachorrão, portanto não se podia esperar muita coisa. Mas, e quanto aos nossos heróis, Émilie du Châtelet, Albert Einstein e Lise Meitner (além do Otto, claro, mas também Newton, Gravesande, Leibniz e tantos outros pelo caminho)?
Então chegamos ao ponto central (e paradoxalmente final) desse texto: O que deixamos para o mundo com o trabalho que produzimos diariamente?


Magno Mello 

A vida depois dos valores

Talvez estejamos atravessando uma das maiores rupturas psíquicas da humanidade em todos os tempos: a possibilidade de não haver outras verdades – que viemos criando e acreditando desde que o mundo é mundo - a serem colocadas no lugar das que atualmente se desmoronam. O que colocar no lugar dos pilares que davam algum sentido à vida quando sabemos de uma vez por todas que qualquer sentido, para existir, tem e teve que ser inventado? Desde uma simples máxima popular como “Deus ajuda quem cedo madruga” à idéia de que o consumo nos torna mais felizes, que há salvação no futuro, que o capitalismo é vontade de Deus, que o bem tende a prevalecer ou que o próximo ano é o da cura, tudo foi incutido em nossas cabeças ao longo dos tempos e, simplesmente, não é verdade. Agora está ficando claro. É até irônico o fato da filósofa alemã Hannah Arendt já dizer em meados do século XX que o grande erro de Kant, Nietzsche e Kierkgaard, ao colocarem abaixo as “verdades sagradas”, cada um a sua maneira, era justamente tentar colocar outras verdades no lugar. O atual momento do mundo parece romper até mesmo com a teoria da longa duração do historiador Fernand Braudel. Segundo ele, nossos sofrimentos e aspirações, bem como nossos signos mais profundos são basicamente os mesmos desde o início das sociedades. Talvez fossem...até agora.  

Começa, porém, uma nova era da humanidade: os significados estão abertos, perderam o status de verdade absoluta e para o desconforto de muitos podem continuar assim por muito tempo. Uma coisa é atravessar determinado período histórico em que alguns valores e pautas se sobrepõem a outros. Mas agora, pelo advento da ampla e acelerada comunicação uma camada cada vez maior da população vem se dando conta de que os símbolos sempre foram apenas invenções humanas e não provenientes de deuses, e essa brincadeira pode perder a graça. E fica a incômoda pergunta: ainda haverá em que se acreditar?  Bem, pode ser que sim, talvez em duas palavrinhas mágicas: criação e afeto. Porque, no fim das contas, foram e continuam sendo as únicas grandes verdades humanas. Criação é tudo isso que inventamos e acreditamos, embora talvez devêssemos apenas vivenciar em vez de ter como regra: música, moral, esportes, moda, modismos, História, ciências, produtos, valores, mídia, consumo, castigo, progresso, amor, Deus, livre natalidade etc. Afeto é o que sentimos, acreditando ou não nessas invenções.  

Ora, o que nos dói, bem sabemos, são as expectativas não cumpridas de nossas crenças. Então, por que continuar depositando esperança em coisas sem esperança, a não ser para a satisfação temporária de nossa preguiça? Da criação e do afeto, todavia, podemos esperar algo: que eles sejam enquanto são. E curiosamente, nesse sentido, a Arte, essa fantasia que compreende os dois fenômenos, como poucas manifestações humanas, num futuro não tão distante poderá se tornar um dos únicos baluartes da "verdade". Uma obra- prima tende conservar seu sentido por séculos a fio, às vezes muito mais do que conceitos lógicos e valores sagrados. 

Tudo isso nos leva a um novo desafio diante de nossa preguiça: nada está pronto, nunca esteve, nunca estará e jamais descansaremos, até a morte. E não estamos construindo algo em nossas vidas, apenas transformando, criando e nos afetando, perpetuamente. 
  
Mas o que há de errado nisso?                                   

                                                                                                                               
Magno Mello

A importância de fazer o que se gosta

Um grande amigo, bem mais velho que eu, uns quarenta anos a mais, mas pessoa ainda dotada de certa jovialidade, disse-me outro dia que a vida era mesmo assim: que ele não era realizado. Mas o que se podia fazer? Então, lhe respondi, segundo minha ótica – pois ele também colocava a dele – o que haveria de se fazer.
 
Ilustro-o, para melhor compreensão do caso: quanto às suas questões financeiras, estão resolvidas há muito tempo. Se não é rico, é pelo menos remediado com boa sobra. Seu sonho era ser pintor, mas optou por ser empresário. E venceu. Agora, anda padecendo de alguma melancolia, gosta cada vez mais de animais e plantas e menos de gente, e faz uns quinze anos que não pinta.
 
Havia questionado “o que se podia fazer?” para aconselhar-me sobre os perigos da carreira artística, os altos e baixos financeiros a que os artistas estão sujeitos, mais que em outras profissões, sendo que, a cada dia a vida exigia novos confortos e necessidades.Também ponderou que havia muita exigência na carreira artística, especialmente com relação ao sucesso, e que isso era fardo pesado de se carregar, já que corria-se o risco, bem mais que o contrário, do sucesso não vir.
 
Diante dessas suas primeiras colocações respondi rapidamente que ser artista era também filosofia de vida e que eu não tinha ilusões com relação ao sucesso, como ele pensava. E ainda, que sabia não ser isso o que me faria feliz, até porque não há ponto de chegada.
 
Então, meu amigo retomou a palavra e no calor das ideias o discurso migrou para sua desconfiança sobre a própria validade da filosofia; questionando também se eu não havia lido demais essas eteriedades. Pois, ele até que lera uns autores e não foram poucos, e ainda sabia muita coisa de cor. Mas no fim das contas o que aprendera? E mais do que tudo: a que conclusões se chega, ou se chegou até hoje, por meio da filosofia? - que para ele parecia um emaranhado cada vez maior de tudo e de nada, enfim, uma grande viagem silógica sem finalidade prática, embora muito interessante.
 
Ouvidas suas observações ponderei, primeiramente, naquele nosso exercício de dialética – e isso já é filosofia - que conhecimento não pressupõe sabedoria. Que não adianta muita coisa, por exemplo, apenas saber de cor os pensamentos de cada autor. Mas pode adiantar, e muito, se incorporá-los mais que decorá-los, se deixá-los afetar também a alma; e isso era algo que ele não havia feito. Também considerei que somos nós que criamos nossas próprias necessidades, que resolvemos ir por esse ou aquele caminho e muitas vezes optamos pelo caminho mais seguro; mas não necessariamente o mais feliz.
 
E foi aí que entrei no ponto central de minha argumentação: que só uma coisa pode levar alguém a ser feliz de fato - e não há negociação: o fazer continuado do que se gosta. Sem isso, não se consegue chegar ao sentimento de realização. Fica sempre faltando algo, ainda que se tenha sucesso financeiro. E que era por esse motivo que ele se sentia melancólico, não realizado, pois deixou de fazer, em nome de atender suas necessidades de conforto, o que lhe era de fato mais caro: pintar. Quando estava pintando, era feliz, mesmo que não fosse tão rico; embora tenha se esquecido disso.
 
De minha parte – e foi o que mais aprendi com a filosofia: a desconstruir o senso comum – estou fazendo o que mais gosto, continuadamente, faça sol ou chuva, com mais ou menos dinheiro, correndo mais ou menos riscos. Estou fazendo. E continuarei a fazer, uma vez que é assim que sou mais feliz e mais pleno, mesmo em tempos de tristeza ou carências materiais; que não são esses. Portanto, não espero muito mais da vida além de continuar fazendo o que faço. E esse é meu lema: a vida terá passado e eu terei feito o que mais gosto de fazer. E sou feliz por isso, com maior ou menor êxito, com ou sem sucesso. Acordo todos os dias para fazer o que gosto. Não sinto falta de quase nada. E só.
 
Então, veio minha pergunta a ele; a que eu ainda não havia feito: vale mesmo à pena? Ele pensou um pouco, me olhou e respondeu: continue fazendo o que faz, não pare e não acredite em nada do que eu lhe disse. E faça isso por você e também por mim.
 
E ontem, passados alguns dias de nossa conversa, encontrei com ele mais uma vez, e a primeira coisa que me disse: “voltei a pintar, nas poucas horas vagas, mas voltei a pintar”.
                                                       
     
Magno Mello

O sujeito

O que é o sujeito? Segundo o sociólogo Alan Torraine é, antes de tudo, essa indiscriminada movimentação psíquica e emocional, acima e abaixo de normas, ideologias e mitos. Acima, quando não reconhece o (ou não se submete ao) conjunto de imposições sociais diante de vontades ou necessidades pessoais, urgentes ou não. Abaixo, porque esse mesmo ser é inevitavelmente trespassado, influenciado e muitas vezes dominado pelas ideologias de seu tempo e de todos os outros tempos, incluindo os vindouros.
  
Mais intrigante, porém, é identificar como se forma o sujeito em cada um de nós. Freud tem lá suas teorias. Grosso modo, ele nos diz que o sujeito se estrutura pelos traumas, em meio a afetos, claro, porque ninguém é de ferro. Primeiro, ao descobrir que o seio materno e o próprio mundo não são extensão de seu corpo. Depois é só seguir a lista: reconhecimento das diferenças, castração, aparecimento do supereu e toda uma série de imperativos nãos que vamos colecionando vida afora e que nos constroem na forma negativa.
  
Somos, portanto, cultural e psiquicamente muito mais o sujeito das impossibilidades do que das possibilidades. A sociedade, incluindo aí a família, com seus interesses, leis e crenças, acaba por sedimentar nosso rol de impossibilidades, apesar dos afetos.
  
Quanto às possibilidades, são quase sempre as mesmas: instinto de sobrevivência e vontade de poder. São basicamente com essas ferramentas que reagimos, que construímos nosso sujeito pelo lado positivo. Temos, portanto, um quadro de medo, frustração, dominação e achatamento individual, combinado com nossos poderes subjetivos de reação; sempre ligados também ao afeto. E quanto mais atuamos como sujeitos, ou seja, com esses poderes subjetivos de combate, mais nos sentimos aptos, confiantes e dispostos a reagir contra modelos oficializados, que são justamente os pilares de nossas impossibilidades, que não podem, nem poderiam representar o indivíduo. 

Hoje, no entanto, estamos todos sendo afastados, à revelia, de muitos de nossos padrões “conquistados”, que são nossas próprias impossibilidades, e nos vendo forçados a encarar inimigo ainda mais desafiador. Não mais os escaninhos de moral que nos dominavam e dominam, porém, nosso próprio sujeito, esse misterioso ator cheio de impedimentos e íntimas amoralidades, que tanto nos assusta. Apesar de ser uma oportunidade quase inédita na história social do mundo, muitos gostariam de não ter que passar por isso, por não querer assumir individualmente a responsabilidade pelo que sentem ou pensam; não querem carregar esse fardo e nem reconhecem nisso uma possível liberdade. Enquanto as idéias estiverem balizadas no senso comum, na coletividade, seu peso é dividido, o que, supostamente, torna tudo mais simples e mais leve. 

Mas o coletivo se dissipou. Ficamos tão ocupados com nossas individualidades e quando vimos, a coletividade havia perdido sua forma reconhecível ou ideologicamente reconhecível. E agora a pergunta não é mais quem somos nós, mas, quem sou eu. E esse quem sou eu, ao contrário de quem somos nós, não aceita mais nenhum tipo de pacote fechado, nem mesmo a definição ilusória das palavras. Quem sou? Defina-me. No entanto, tudo que disser serão apenas opiniões aleatórias, muito distantes de quem sou de fato. E como bem observa Torraine, “todos nós somos tentados a dar ao sujeito uma figura claramente defasada em relação à experiência vivida”. 

Estamos, portanto, entendendo que somos muito diferentes dos conceitos e estigmatizações sociais, que nossas crenças individuais podem ser bem distantes dos ditames da coletividade, e o que mais dói: hoje nos vemos obrigados não apenas a aprender muito mais sobre quem somos, sem ter como nos apoiar em ideologias ou delineamentos alheios, coletivos ou individuais, mas a criar nossos próprios delineamentos, verdades e sentidos, que por sua vez podem ser (e tendem a ser) apenas temporários. A maioria ainda tenta se agarrar a qualquer coisa que não ao próprio sujeito, esse buraco escuro, preenchido com ideologias simbólicas que nos vem à cabeça ou nos são transmitidas em suas incontáveis formas e não-formas, e se oficializam em modelos e crenças.  

De outro modo, quando se olha em volta, vê-se que esses enquadramentos sociais, comportamentais, psicológicos e até religiosos em muitos casos, estão sumindo ou já sumiram; se não de forma visível, mas invisível e sorrateiramente. Surge, assim, essa nova exigência da vida: segure-se quem puder segurar-se em si próprio, apesar da família, dos amigos, dos colegas, dos patrões, do estado, da religião e dos amores; porque eles também não têm mais as respostas, ninguém as têm.
  
Mas vem a parte boa: a nova construção de nós mesmos, baseada em nós mesmos e não mais em idéias coletivas e tendenciosas do que somos, devemos ou deveríamos ser. A estrada está irremediavelmente aberta e é isto o que agora temos para nos balizar: nossa autoconstrução permanente, nossa moral quase própria e multifacetada, e nossas crenças mais íntimas, antes das palavras, ou seja, nossa intuição.
 
De resto, o mais importante muitas vezes não é o mais importante, isso é apenas uma idéia que alguém teve, seguida de contínuas confirmações alheias, que podem ter acontecido por qualquer motivo, qualquer mesmo, mais provavelmente por falta de subjetividade dos atores. Verdade absoluta: “nada é mais importante do que a vida”. Mentira. Para muitos a morte é mais importante, seja para aplacar de vez uma dor insuportável ou, especialmente, nos incontáveis casos de suicídios ideológicos ou religiosos. Para mim, nada é mais importante do que a vida. Mas para outros, como posso julgar? Eu mesmo não acredito em vida depois da morte. Mas tenho que achar que isso é verdade absoluta? 


Verdade absoluta, se existisse, seria muito mais alguém morrer voluntariamente acreditando que vai receber de presente setenta e duas virgens e assim existir num gozo eterno.                              

Magno Mello

Os livros

Antes de eu me apoderar dos livros, eles se apoderaram de mim. Nem foi amor à primeira leitura, mas anterior a isso. A ideia e suposição de que um dia a eles eu me entregaria, como quem se entrega aos átomos, já me causava ansiedade. E não era, nem foi, para menos. Responderam ao exato grau de minhas expectativas; se bem que muito mais.
 
De repente, nessas últimas semanas me pego mais uma vez mergulhado na obra de Shakespeare. E tudo continua lá, intacto, em suas palavras carregadas de todos os sentidos. Todos. Porque uma grande obra é assim: nela fica impresso para sempre o suor, a febre; e basta pegar o termômetro para conferir.
 
Nada é mais humano que um bom livro. Nem mesmo pessoas em seu cotidiano morno e absorto. Uma obra-prima, por exemplo, explode a cada vez que se toca. E sua grande e passional humanidade está no fato de que ela só dá, se antes receber. Arte não é de graça, tem seu preço. É, no entanto, sábio investimento, devolve em dobro.
 
Livros são fonte de impensados prazeres. Pouca gente deixaria de ler Cem Anos de Solidão se soubesse do gozo, ali, a se multiplicar a cada parágrafo. Entregar-se a um grande livro é entregar-se ao amor, ao bem, ainda que por meio de longas descrições de ódio e do mal. É assim com Macbeth. É assim com Fausto. E é também com O Retrato de Dorian Gray. Vidas Secas jamais seca, sempre estará naquele mesmo lugar: o dos Clássicos. Mas nada disso é intelectual e ou animicamente de graça, embora muitas vezes fisicamente quase o seja: dois, cinco, dez reais, nas prateleiras dos sebos.
 
Não, não estou falando de entretenimento. Falo de O Livro de Areia, de Os Irmãos Karamazov, de Ilíada, falo de sentido e não de sua falta. De vida e não de morte. De inteligência e não de burrice. De sensibilidade e não de alma bruta, que se contenta com qualquer coisa.
 
Sim, deve haver espaço para o entretenimento. Mas jamais em detrimento da arte. Um não substitui a outra, não pode, sob pena de se ganir de miséria, nas horas mais silenciosas, mesmo se estando rodeado de ouro. Há que se criar o mundo. Há que conhecer-se a si mesmo. Cavalgar com Dom Quixote é ultrapassar as próprias misérias. Tatear O Ensaio Sobre a Cegueira é finalmente enxergar a escuridão. Seguir O Estrangeiro é desafiar a morte. São tantas e tantas e tantas obras incríveis, que não buscá-las é quase fazer mal a si mesmo. É não se dar oportunidade de conhecer alguns dos maiores tesouros deixados pela genialidade humana. Se pecado existisse, isso sim, seria pecado.
 
Pois que o bom senso lhe sorria. Não há desculpa para não propiciar a si mesmo uma boa literatura. Falta de tempo é auto sabotagem. A vida passa. As histórias e os livros ficam.


Magno Mello

A articulação do poder

O mundo se constrói e se articula por meio do poder, o tempo todo, a cada momento, nos lares, no trabalho, nos espaços públicos, nas relações. Antes de tudo, de modo privado, de um sobre um, de um sobre dois, de dois sobre dez. A partir daí a coisa começa a ficar pública: de doze sobre nove mil, de vinte e dois sobre cinquenta mil, de setenta sobre duzentos milhões, de trezentos e oitenta e sete sobre sete bilhões.
 
Quanto a nós, eu ou você, exercemos poder aqui e somos atingidos ali pelo poder de outro, diariamente ou quase, e até muitas vezes ao dia, com a frequência dependendo menos da posição ocupada do que da independência pessoal alcançada dentro do sistema.
 
O que faz o poder? Por exemplo, inventa o domingo e a semana. Oito pessoas, se muito, lá por volta dos anos 300 d.C, representando apenas elas mesmas e um grupo seleto de amigos ou comparsas, em uma sala mal iluminada e úmida, de móveis e objetos pesadíssimos, decidem criar um dia chamado domingo, que seria o dia do descanso, o tal do sétimo dia. Esse, faria parte de um conjunto de outros seis dias, ancorados na ideia da concepção apocalíptica judaica de uma idade sabática no fim dos tempos, ou os seis dias da Criação. E cada um dos seis dias estaria ligado a uma idade religiosa da terra: de Adão a Noé, de Noé a Abraão, de Abraão a David, de David ao cativeiro da babilônia, do cativeiro ao nascimento de Cristo, do nascimento de Cristo ao fim do mundo, nos conta Le Goff. Tal ligação foi conferida por Santo Agostinho como verdade teórica em alguns de seus textos. E para legitimar, oficializar, de modo ainda mais “natural”, os seis dias foram também conectados às seis idades do indivíduo na terra: primeira infância, infância, adolescência, juventude, fase adulta e velhice.
 
No avanço do poder de poucos sobre muitos houve ainda outra contundente estratégia: o calendário. Sim, esse mesmo que conhecemos, com datas festivas, oficiais, dias de descanso, de reza, de jejum, de trabalho. Os calendários mais antigos continham até o horário em que se deveria rezar e comer. Sem contar suas procedências: todos os calendários, talvez sem exceção, na história mitológica dos povos, foram “encontrados” por deuses ou reis-deuses. Não foram criados pelo homem. Foram, isto sim, encontrados, vieram do céu. Pronto, nosso tempo estava dominado, da forma mais profunda possível, o poder atuando diretamente em nossa fé, em nosso medo do castigo divino. E os que exerciam poder passaram a exercer mais poder.
 
Pois é assim que o mundo vai se construindo, a partir de seu poder sobre o outro e do outro sobre você, e ainda do poder dos mais espertos, corruptos e gananciosos, sobre todo mundo; poder de convencimento, físico, econômico, moral, sedutor.
 
Mas poderia existir um mundo sem poder? Não. O poder é natural. Poderia, no entanto, ser atenuado pelo uso da razão. Só que isso quase não acontece. Civilidade é uma coisa, o que está por baixo da capa de gordura é o que realmente articula a sociedade. E isso é poder, que se dá em gradações infinitas, desde uma simples informação absorvida por outrem, o que significa poder de influência de alguém sobre esse, até patamares absolutos, como tirar uma vida alheia ou dominar um povo pelo uso da força militar; ou estratégias pacíficas e invisíveis.
 
Poder, portanto, não é bom nem ruim, apenas existe. O problema é o que construímos no mundo a cada vez que exercemos nosso poder sobre os outros e quando deixamos, seja por qual motivo for, que outros exerçam seu poder sobre nós.


Magno Mello

As palavras nas relações humanas

As relações humanas são o centro de nossa vida. Não há nada que façamos mais que isso: nos relacionar. Nada nos é mais importante, mesmo quando pensamos em dinheiro ou trabalho. Enfim, tudo acaba em gente. É isso que queremos, seja por sexo, amor, amizade, reconhecimento, aprendizagem, negócios ou outros interesses; e interesse é coisa que sempre há, em qualquer relação humana.

Muito além de pretender aqui discorrer sobre as várias formas de linguagem que usamos nos diferentes tipos de relações - entre inflexões e vocabulários - de infantil a senil, doce a violenta, amorosa a profissional, pretendo debruçar-me, sobretudo, nas intenções. Estas, sim, são pouco faladas, embora transmitidas bem mais do que pensamos. Apenas 70% da comunicação entre humanos se dá por palavras, é o que sabemos. Todo o resto vem pelo gestual, pela forma de olhar, entonação e mesmo pela energia, além do cheiro e outras percepções menos conscientes.
 
Palavras são códigos que permitem todo tipo de elucubrações, desvios de intenção, falseamentos, floreios, construções retóricas e semânticas fictícias, discretas ou absurdas, que muitas vezes se distanciam drasticamente do pensamento, e este, por sua vez, pode se distanciar outros tantos anos-luz do sentimento, que fica a três idas a Júpiter do inconsciente, que pode ser antípoda da coisa-em-si.
 
Então, temos que admitir: as palavras mentem. Mesmo assim, construímos nosso mundo com essa poderosa e, tantas vezes, perigosa ferramenta (entre outras), fabricante de crenças, conhecimentos, costumes, leis e poesia. Mas é o que temos, pelo menos até hoje. E palavras podem ser boas, assim como as relações; só não são aquilo que prometem ou que gostamos de acreditar que são. Disso, porém, todo mundo sabe.
 
Temos, desse modo, também de admitir que somos seres lúdicos, não exatamente verdadeiros ou falsos - embora uns mais que outros - mas muito além disso. Todos nós, sem exceção, aceitamos os jogos das palavras e a prodigalidade delas em nossas relações.
 
Exemplos de discursos vazios não faltam. Qualquer tipo de tagarelice, como falar do tempo, já o é. Até aí nada. Mas logo passamos ao nível B, quando por condicionamento ou influência, direta ou indireta, repetimos e transmitimos palavras, pensamentos, gestos e atitudes, postulando-os como nossa própria verdade. E a verdade é que muitas vezes podemos dizer coisas que simplesmente não acreditamos. Num momento criticamos o discurso de um amigo e logo à frente incorporamos e informamos esse mesmo discurso como algo que cremos. Ouvimos aqui e negamos, para logo depois afirmar a outros. E, definitivamente, não sabemos se de fato sentimos aquilo ou não. Sentimos e não sentimos. Uma hora sentimos, na outra não sentimos. Mas será que somos tão errados assim? Não, apenas as palavras não dão conta de nossos pensamentos, que não dão conta de nossos sentimentos, que não abarcam nosso inconsciente, que passa longe da coisa-em-si. 
 
Até então, porém, nos exemplos anteriores ainda defendíamos alguma “verdade”, mesmo que falseada. Mas temos que ter opiniões fechadas? Quem disse? E para que? Duvido que isso nos torne, por exemplo, mais confiáveis. Talvez, em alguns casos, apenas mais previsíveis. E só. O problema, no entanto, vai se agravando quando chegamos ao nível C.
 
No nível C da comunicação entre humanos estão os falseamentos deliberados, as mentiras.  Juras de amor para se obter sexo, mentiras que tentam salvar uma relação ou um emprego, promessas vãs, mentirinhas compulsivas, negociatas, discurso de políticos, mídia, propaganda, tudo isso. Sabemos que a coisa não é o que diz ser. Ainda assim jogamos o jogo, o tempo todo, todos os dias.
 
O que restaria, todavia, se não acreditássemos nessas coisas e nas palavras? Deixaríamos de nos relacionar? Claro que não. Acharíamos outras formas de comunicação, possivelmente mais honestas e com largo uso da intuição, essa potência que ainda usamos tão pouco. E talvez encontraremos essas novas formas no futuro, com a ajuda de aparelhos, externos ou internos. Mas o que seria das palavras, esses códigos incríveis com os quais construímos boa parte de nossa vida e nossos valores? Quero acreditar que encontrariam seu melhor lugar na poesia, na ficção, que é onde sempre estiveram e de onde nunca saíram, desde a primeira abstração.
 
É que somos e sempre fomos, de fato, poetas, todos nós, sempre inventando, ou tomando emprestado sentidos, crenças, histórias e a própria vida. Somos todos poetas porque não podemos ser mais do que isso: lúdicos inventores de um mundo que não mais existirá quando morrermos; seres fictícios, românticos, crentes apenas do que queremos, nessa estrada que vai do nada ao nada (assim dizia Caetano), mas onde se ouve música, se faz sexo, arte, amor, loucuras, come-se comidas gostosas, brinca-se, com brinquedos ou sem, viaja-se, trabalha-se, estuda-se, se procria, se cria, se dança, onde rimos e choramos, nos emocionamos, nos entorpecemos, construímos castelos, fazemos esportes e, finalmente (embora não só), onde nos relacionamos uns com os outros. Sinceramente, precisa mais que isso?
 
De quebra, apenas mais uma palavra: profiterole. Que delícia! Não a palavra. Se bem que...



Magno Mello

A dona morte

Um belo dia começamos a pensar na morte. Talvez só as pessoas com mais de quarenta anos entendam exatamente o que digo. No entanto, a morte é para todos. Eu mesmo, sinto nesse momento da vida que a minha veio para ficar. Provavelmente ainda demora a me levar, mas já vislumbro sua cara, coisa que há poucos anos mal suspeitava. 
 
A constatação da própria finitude pode ser até estranha, mas não é necessariamente triste. De certa forma abrem-se novas perspectivas do viver, inauguram-se novos olhares e passamos a enxergar o que nos é realmente mais importante. Está certo, ninguém gosta de ver uma nova marca aparecer no rosto numa manhã qualquer. Pois ontem mesmo me apareceu uma. Mas, além de ter me achado um pouco menos bonito, fiquei pensando no que ainda quero fazer nesta vida. Pois é daqui para frente ou nunca mais. A não ser, claro, que se encontre logo essa fórmula da longevidade extrema e de preferência antes que eu me torne decrépito, porque aí talvez prefira mesmo morrer a arrastar uma carcaça miserável por uma quase eternidade.

Se bem que, entre os novos estudos do gênero há os que buscam não somente o retardamento do envelhecimento como o próprio rejuvenescer das células, o que nos tornaria efetivamente mais jovens. Uma das mais curiosas e até promissoras dessas pesquisas é o experimento de se suprimir alguns genes. Fizeram isso com um verme de mais ou menos noventa e cinco mil genes. Desligaram alguns deles e sua longevidade dobrou. Desligaram outros e aumentaram sua expectativa de vida em seis vezes. Agora estão fazendo a mesma experiência com ratos, que têm noventa e sete por cento de genes iguais aos nossos. Se conseguirem com eles, ficarão perto de fazer o mesmo com humanos. A coisa com eles, porém, ainda está no começo, embora não se possa mais prever o avanço exponencial da ciência. 

O que estou mais preocupado, no entanto, é com o que ainda quero fazer nesta vida antes de desaparecer do mapa; contando que minha expectativa de vida seja de uns noventa anos, se tudo correr muito bem. E quanto a isso, tenho um novo colírio para minhas idéias. 

Como diriam os americanos, tenho um plano: pegar uma Harley-Davidson e viajar o mundo por um ano. Ainda tirando três ou quatro horas por dia para escrever mais um ou dois livros. Esta é umas das coisas que mais tem me passado pela cabeça nos últimos tempos. Além da tal da morte em si. Quanto a este último pensamento, me vem uma recorrente cena daquelas pinturas que os nobres mandavam fazer lá pela Idade Média e pouco depois disso, em que apareciam segurando uma caveira, ao estilo ser ou não ser de Hamlet. Faziam isso para lembrar-se da própria finitude e também para emprestar às próprias imagens um caráter de humildade e sabedoria, justamente por serem ali sabedores de sua mortalidade, da qual nem mesmos os príncipes escapavam. 

Agora vamos a algumas variações sobre o tema. Sabe o ouriço do mar? É um bicho que não envelhece. Até morre, mas não envelhece, mais ou menos por aí. Os anos se passam e o ouriço continua lá com aquela cara de garotão até seus últimos dias. Ele e Dorian Gray. Sem contar a ameba, esta não morre mesmo. Cresce e se divide, infinitamente.

No fundo, a idéia da morte tem me trazido alguma melancolia. Às vezes fico ali imaginando que fatalmente desaparecerei e este pensamento parece-me às vezes meio absurdo. Deixarei de existir e isto não tem graça. Ainda mais eu que não acredito em nada após a morte. Ai, que dorzinha...Gostaria de acreditar em algo, mas não consigo. Quer dizer, às vezes até consigo, mas logo passa. Da mesma forma que a dorzinha da morte também passa, ainda que a idéia continue rondando. 
 
Mas daqui a pouco já nem ligo e costumo até rir desse desaparecimento.  Acho até que poderia morrer agora mesmo, embora não queira. Deve ser porque não tenho arrependimentos de nada, tudo que fiz e faço é o melhor que posso. E não adianta eu pensar que poderia fazer mais do que posso. Porque, na verdade última, não posso. Se pudesse, faria. Quem pensa que pode está equivocado, não pode. Então, começo novamente a deparar-me com a possibilidade da morte e é como se passasse um trem querendo me despertar das nulidades, dos desperdícios e acomodamentos. E talvez seja este o grande presente que a consciência da morte nos traz: mais vontade de vida. 

É por isso que digo: “bem-vinda Dona Morte!”, pois sei que quer me contar um pouco mais sobre a vida que ainda posso viver; pelo menos até que ela termine de me contar sua assustadora e maravilhosa história na qual somos cúmplices, protagonistas e marionetes. 

Tomara que eu consiga fazer minha viagem, escrever mais alguns livros, gravar outros discos e encontrar novos significados, sempre, em especial os que contém afeto. De resto, só mesmo as mitocôndrias, essas usinas que nos fornecem energia e ao mesmo tempo liberam em nós os radicais livres, que fazem nossas células envelhecer e morrer.


E se estivermos realmente próximos de combater esse processo autodestrutivo, também com a possibilidade de utilizarmos nano-robôs para a faxina permanente em nossas células, ou mesmo de substituir órgãos, teremos, aí sim, mais do que nunca, que aprender a viver com mais significados e significância. Pois imagine uma vida de duzentos anos assistindo a seriados e ouvindo música sertaneja? Ou mesmo passar milhões de horas na internet? 


Magno Mello

O declínio da privacidade

Qualquer pessoa com mais de duzentos amigos no facebook está deliberadamente se expondo e, por isso, quer se expor. Neste caso, mais uma vez nos vemos mergulhados no velho paradoxo da vida: queremos mas não queremos, mas queremos.  Sim, queremos. Este é nosso tema de hoje.

Não há dúvida de que o privado seja algo cultural. Bichos, por exemplo, não têm problemas com privacidade. Ou mesmo os seres humanos de um passado não muito remoto. Se pensarmos que nos anos 1000, durante a primeira Cruzada, milhões de católicos saíram da Europa em direção a Jerusalém, todos juntos, de todos os extratos sociais, príncipes, prostitutas, ricos mercadores, desvalidos, loucos, recatados, crianças e idosos, todos eles, misturados naquele mar de sangue que iam deixando para trás, matando otomanos de qualquer gênero e idade, lambuzando-se também entre seus próprios suores, sujeiras, feridas e genitálias, teremos uma boa idéia do que era privacidade àquela época. 

Estamos vivendo, portanto, uma fase da humanidade, como outras anteriores, em que o privado e o público parecem mais uma vez fundir-se, embora hoje de modo radicalmente menos físico. E antes fosse apenas o confessionário virtual com tantas pessoas se esparramando de corpo e alma nas redes sociais, boa parte delas expondo suas misérias, fraquezas, loucuras, alegrias, vergonhas e outras intimidades; além de ser quase desnecessário comentar sobre as inúmeras fórmulas de reality shows e toda a indústria das celebridades instantâneas, nas quais o trabalho duro é expor-se ao máximo. Há também as milhões de câmeras espalhadas pelas cidades e todas as informações que fornecemos de graça às empresas e aos governos para que invadam nossa intimidade de maneira cada vez mais irrestrita. E ainda, a explosão demográfica de artistas, incluindo aí DJs e auto intitulados compositores, videomakers, cantores, escritores, fotógrafos, poetas e instrumentistas, bem como toda a gama de profissionais, com seus bilhões de páginas e sites abertos para o mundo. Enfim, todo um ambiente propício à máxima interação e exposição do privado junto ao público.
 
A história, todavia, nem sempre se deu assim. Como nos mostra Hannah Arendt, encontraremos distintas situações entre o público e o privado ao longo dos tempos. E, às vezes, diferenças marcantes em mesmo local e época. Reportando-nos à Grécia Antiga, por exemplo, a situação privada era a seguinte: na esfera da casa - ou oikos - o patriarca era o chefe supremo que dominava todos à sua volta, entre esposa, filhos e servos, até com poder de vida e morte sobre estes. Não havia qualquer lei no âmbito privado a não ser a lei daquele que alimentava, abrigava e protegia sua família e seus servos.
 
Mas o domínio absoluto no privado ainda significava muito pouco, pois se esse déspota familiar não conquistasse independência suficiente para sanar todas as necessidades da casa, não poderia fazer parte da koinon, que era a esfera pública, onde se praticava a vida política. Sem essa condição não se podia participar da vida pública nem exercer a retórica na discussão democrática das idéias; embora devemos nos lembrar que a retórica era tão somente a "arte do convencimento" e não da legítima argumentação; e democracia sempre foi isso. 
 
Entrar no âmbito público era um dos princípios maiores da coragem, pois ali iria se defender algumas vezes a própria vida, que podia ser ameaçada pelo mal uso das idéias. Por outro lado, uma vez adentrado na vida pública o cidadão experimentava a democracia plena, sob a qual ninguém estava acima de ninguém, pelo menos até que se provasse o contrário, por meio da argumentação. De resto, as chances eram iguais para todos - isso dentro daquela elite do sexo masculino de economicamente sanados, e contanto que não fossem escravos. 

Lembre-se: o assunto ainda é superexposição nas mídias. 
 
Já no caso do Império Romano o público e o privado se confundiam na figura do rei, a quem tanto uma esfera quanto outra estavam despoticamente subordinadas. Quando o Império Romano ruiu, quem assumiu esse papel unificador das duas esferas foi a igreja católica, que à época crescia a toda velocidade e logo passou a reger toda a conduta moral e espiritual do ocidente. Quase ninguém mais escapava dos olhos onipresentes da igreja. E essa força aglutinadora continuou por toda a idade média.
 
O poder nesses tempos, no entanto, também estendia-se aos senhores feudais, que absorviam e dominavam a esfera privada dos vilãos (habitantes das vilas) e dos servos, centralizando esse comando nas esferas pública e privada do feudo, que incluía o castelo, a vila e as até propriedades dos vilãos. Ali, era o próprio senhor feudal quem administrava a justiça e aplicava as leis. Na segunda metade do século XV (1453), porém, os otomanos tomam Constantinopla. É o fim do Império Romano do Oriente, da Idade Média e também do feudalismo europeu.
  
Nos primórdios da Idade Moderna aparece Lutero, iniciando em 1517 a Reforma Protestante e colocando tudo novamente de cabeça para baixo. Se até aquele momento havia um poder público ou divino, que dominava os âmbitos público e privado, a partir de agora, segundo Max Weber, começava a surgir um novo poder, privado, independente - que mais tarde iria subjugar as esferas pública e religiosa juntas, e sob o consentimento de Deus: o capitalismo. A premissa da lei luterana era que se o homem tinha o poder de acumular bens e não o fazia, estava indo contra a vontade de Deus, pois o próprio Deus havia lhe conferido esse poder. Por outro lado, havia claro aconselhamento quanto ao recato e à austeridade, também preconizado por Lutero em uma de suas 95 teses sobre a nova religião. Conquistar era uma coisa, mas exibir as conquistas era algo bem diferente.
  
Aproxima-se, então, o fim da Idade Moderna e início da Idade Contemporânea, isto segundo os moldes da História tradicional. E o privado, de forma inédita passa a se opor à esfera social e política, inaugurando a era do individualismo, embora ainda fortemente ligado às idéias coletivas. É bom ressaltar neste momento que o individualismo, segundo o sociólogo Norbert Elias, deu seus primeiros passos ainda no final da Idade Média, quando as pessoas começaram a comer e beber em taças e pratos separados, entre outros afastamentos físicos que iniciaram-se por aquela época. Sobre o individualismo já mais avançado, Rousseau foi um dos que mais alimentou a ideologia no século XVIII, de que os sentimentos privados deveriam ser preservados da esfera comum do social.

Hoje encontramo-nos na era do individualismo pleno. Mas mesmo não mais vivendo sob as tradicionais bandeiras de sustentação do coletivo, ou seja, do Estado e da Igreja, temos, no entanto, outro poderoso sustentáculo comum: o do consumo. Em uma analogia rasa podemos dizer que o dinheiro é nosso novo Deus (ou rei) e o consumo, nossa Igreja (ou Estado), mas com a profunda diferença de que dinheiro e consumo não possuem pátria ou credo. Em outras palavras, não estamos mais sob controle de nenhuma moral superior, embora de outras forças até mais efetivas e menos visíveis. 

É aí que voltamos ao nosso tema central e aos dias atuais. Pelo que parece, chegamos novamente a algo próximo à vida pública na Grécia Antiga, onde todos os remediados tinham direito de exibir seus dotes e idéias. E agora, até suas misérias. Hoje, apesar dos bilhões de rechaçados no mundo, somos muitos os sanados economicamente. E conforme as leis gregas da antiguidade, pois ainda vivemos sob conceitos platônicos e aristotélicos de república e democracia, estamos aptos a nos expor. Agora nem tanto com nossas próprias idéias e significações - e ninguém vai nos matar pela falta delas - mas com nossas caras e bocas, nossos vídeos, fotos, máximas emprestadas, rgs, cpfs, emails, telefones, endereços, preferências, dores, prazeres e até vexames públicos.
 
Estamos, também vivendo mais uma vez a experiência radicalmente pública, de certo modo semelhante a que se dava nos tempos das primeiras Cruzadas, embora com a diferença profunda de, nos dias atuais, misturarmo-nos tão pouco no plano físico; pois queremos, mas não queremos, mas queremos.

Não, não queremos. Mas algo mais forte nos separa; ainda que pareça nos unir - e, paradoxalmente, poderá mesmo nos unir, explico logo adiante. O que não deixa de ser um triste espetáculo, pois, ao contrário de todos os outros tempos a vida humana não é mais o centro de nossas preocupações e dedicações. O espetáculo ultrapassou a vida. Não somente o espetáculo da exibição pública. Mas também o da tecnologia pela tecnologia, o do consumo pelo consumo, da produção pela produção, da ciência pela ciência, do dinheiro pelo dinheiro, do poder pelo poder. Nada disso liga-se mais ao ser humano. São apenas obsecações de um processo profundamente vicioso. Saímos de nós, tornamo-nos objetos destes agora sujeitos.

Quero acreditar, todavia, que há esperança, sempre quero. E neste caso, uma de nossas possíveis salvações seria, justamente, a superexposição. Claro, trata-se apenas de uma teoria entre todas as outras que construíram e constroem o mundo. Mas, imagino que quando chegarmos ao limite, quando estivermos enfim todos conectados "de forma quase telepatica", nada mais podendo esconder uns dos outros, por todos os motivos já comentados neste texto, essa coletividade exposta poderá nos fazer lembrar quem somos, para além dos visíveis e invisíveis poderes e processos desumanizantes ao longo da história; embora, confesso, creia bem mais numa catástrofe salvadora.

A humanidade em nós sempre dependeu da legitimação do outro. E do outro sempre dependeremos, caso queiramos mantermo-nos humanos. Diante do afastamento radical de nós mesmos, além do afastamento entre nós, portanto, que foi se dando ao longo da história, talvez não haja outro remédio que não a exposição radical de quem somos e de como estamos neste momento, isso para sobrevivermos como espécie. Expor-se, sempre foi uma tentativa de subjetivar-se no mundo, mas também de conectar-se a outros.

É por isso que vejo alguma esperança nas fotinhos tiradas diante do espelho. E mesmo na entrega de todas as nossas informações pessoais. Deve haver algo de estratégia inconsciente nisso, freudianamente falando. Não é possível que sejamos, assim, tão tolos e burros.


Ou é?

Magno Mello

A vida artística é um tobogã, obrigado

É um tobogã, mas muito diferente desses dos que fazem pouco ou se deprimem à toa. É um tobogã repleto de sentido e emoções, assim entendo esse caminho deliciosamente acidentado, o do fazer artístico. Pois é assim essa estrada, em que muitas vezes não importam altos ou baixos, contanto que se crie. Dias nebulosos, estranhos, incômodos, que deságuam em novas e significativas criações? Aceita-se sem dó. Fases de recolhimento e abandono, plantão 24 horas, mergulhos agudos em extravagantes áreas de conhecimento, incertezas crônicas, consumo compulsivo de arte e cultura, nenhum vínculo empregatício, experimentações aleatórias, acometimentos involuntários de criatividade, arroubos epifânicos e febres instantâneas? Tira-se de letra. Até os desertos criativos, isso também se atravessa. E o 4X4 que faz a travessia chama-se fé; sabe-se lá exatamente em que ou quem: Deus, nessa deusa chamada Arte, no mistério, ou apenas na ponta do pincel, ou nas cordas do violão, o que for.

“Io sonno un poeta o sonno un imbecile?” perguntou-se o italiano Lorenzo Stechetti, embora ele próprio devesse saber que isso também tanto faz ao artista. É claro que ninguém gosta de passar mal. E, igualmente, todos querem reconhecimento. Mas mesmo passando bem, o artista passa mal. E mesmo passando mal, passa bem - jobinianamente falando. Está sempre metido num gozo ou numa inquietude qualquer. Sempre comprometido com sua arte, que ele faz questão de chamar de sua, mesmo sabendo que é apenas para uso e não para a posse, como diria Tom Zé.
 
Mas, lá no fundo o que quer o artista? Ora, passear de tobogã enquanto cria. E viver o amor universal, ainda que tantas vezes se atrapalhando no bilateral. Pois, dá-lhe ondulações, curvas radicais, subidas e descidas vertiginosas, e até confusões entre ficção e realidade. O que importa é o passeio. Nesse tobogã, dor não é tristeza, felicidade não é necessariamente alegria. Esse tobogã chama-se vida. E vai na mesma direção das estradas retas, planas e suaves, onde se brinca de trenzinho ou carrinho bate-bate. Esse tobogã chama-se criação e atravessa, e transforma, corpos sólidos. Chama-se caos e, no entanto, cura.
 
É desse modo o viver artístico: incomodamente confortável. Estrada esburacada em carro de luxo. Estrada que desaparece atrás de nós a cada passo, impedindo que se tome novamente o mesmo caminho, de ida ou de volta. E à frente, da mesma forma, só o mistério, a próxima curva, o próximo perigo, a escuridão, a criação do mundo, a arte.
 
Nessa pista ondulada o mundo sempre foi plano.


Magno Mello

Mãos (in)visíveis

Espero, sempre, que meu trabalho traga algo positivo para as pessoas e para o mundo. Melhorar o mundo fazendo o que se gosta: é o que norteia minha vida desde a adolescência. E parece ser esse um dos grandes desafios sociais e humanos daqui para frente.
 
Isso, pelo lado positivo da moeda. Pelo lado negativo, que é também de toda importância, há que se abrir guerra contra as grandes corporações, especialmente às ligadas a mercados especulativos de capitais, que abocanham em ritmo acelerado fatias cada vez mais gordas do dinheiro do planeta. Essa prática predatória se dá a cada afrouxamento das normas reguladoras do mercado, sob domínio desses grupos que movimentam produtos financeiros especulativos num volume onze vezes maior que o PIB mundial, algo em torno de (dados entre 2007 a 2009) setecentos e vinte trilhões de dólares ao ano, enquanto todo o comércio mundial movimenta meros quinze trilhões de dólares e o crime, "apenas" um trilhão e meio. É, definitivamente, o pior tipo de assalto: por meios legais.
 
Os maiores responsáveis por esses atos criminosos, hoje se sabe, são os executivos do Goldman Sachs, Bank of America, Morgan Stanley, Royal Bank Scoltland, Santander, Sumimoto Mitsui, Mitsubishi, Loyd’s, Santander, Deutsche Bank , Mood’s, todos conectados por um emaranhado de ações distribuídas entre os maiores acionistas, cada grupo subcontrolando o outro, que subcontrola o outro, tudo muito transnacional, numa briga vencida de antemão contra os pobres mecanismos reguladores, de estruturas apenas nacionais, que podem ser facilmente invadidos e manipulados. E são.
 
Esse conglomerado dos mais poderosos é, segundo demonstrado num exemplar da revista Le Monde Diplomatique, uma supernova em meio a pequenos planetas, que são o restante do volume de dinheiro gerado no mundo. Cinquenta e oito trilhões ao ano (entre o mesmo período) é o montante da capitalização das bolsas mundiais. Sessenta e dois trilhões são o volume do PIB mundial. Essa turma, de principais acionistas das 737 maiores empresas transnacionais, controladoras de 80% da economia mundial, sendo que o mercado especulativo possui 3/4 de tudo, domina grande parte dos aparelhos do Estado e da mídia; do dinheiro nem se fala. Por meio do Estado afrouxam as regras em benefício próprio, pela mídia fazem maciças, pesadíssimas campanhas publicitárias em prol do consumo e dos comportamentos de massa que os tornam mais e mais ricos.
 
Dominam até as maiores universidades do mundo, atuam sobre a forma de pensar do aluno, por já terem assediado os próprios professores. São centenas, talvez milhares de professores espalhados pelas salas das melhores faculdades do planeta, que prestam consultoria permanente a grandes empresas, trabalham por seus interesses e moldam gerações de economistas e administradores. E consequentemente o senso comum, talhado ao gosto do freguês. Para isso também recebem seus milhares e milhões de dólares. E por meio do dinheiro esses grandes conglomerados, de maneira direta ou indireta, mandam em nosso tempo, nosso salário e cada vez mais em nossos destinos. Você pode ser ejetado a qualquer momento. Simples assim. E quem criou essas regras?
 
É difícil imaginar que uma situação dessas possa mudar nas próximas décadas, sendo que a maioria de nós trabalha em profissões que colaboram o tempo inteiro para aumentar esse poder. Por isso, pensei nessa campanha singela, tola, quase infantil, quixotesca, simplista, como queira chamar: "trabalhe em algo que faça do mundo um lugar melhor". E, claro, fazendo o que se gosta. Isso pode contribuir para minar empreendimentos nocivos à sociedade, sejam quais forem. E o fará sentir-se mais importante consigo mesmo. Sentindo-se realmente importante para si, não terá muita necessidade de se sentir mais importante que o outro. Uma violência a menos no mundo.


Magno Mello

A beleza da feiúra e a alegria da tristeza

Ainda prefiro olhar para o mundo como ele é. E não acho que seja um lugar tão feliz, pelo menos para a maioria. Não que as pessoas vivam tristes e deprimidas o tempo todo - embora muita gente sim. Mas cá para nós, a vida não é um mar de rosas. Então por que tornou-se tão feio falar de coisas feias ou tristes? Na plenitude de uma sociedade hedonista isso virou quase ofensa, exceto nos noticiários, onde a miséria se esparrama, sei lá com o consentimento de quem.
Mas há coisas que só podem ser traduzidas sob o viés da feiúra, da escrotidão, da infelicidade; até para se chegar a outras belezas. Então deixaremos de prová-las apenas por não querermos sujar a barra da calça? Preferiremos a assepsia niilista a um pulsar de vida ligeiramente chapiscado de barro?
Pois há beleza na feiúra. E essa beleza está justamente em nos vermos também ali representados. É a aceitação plena de quem somos, uma espécie de reconciliação com o imperfeito, de secularização da natureza e até de retomada da realidade. Tristeza e feiúra nos desalienam. E a elas somos mal agradecidos, cuspimos nesse prato em que tantas vezes comemos. Individualmente ninguém é tão tolo de acreditar que não haja benefícios na tristeza. Mas coletivamente somos obrigados a mentir, a fingir que a alegria é o único remédio para a dor de se estar vivo.
Ou então devo ser uma das pessoas mais burras desse mundo, pois chego até mesmo a provocar a tristeza, a convocá-la, quando sinto necessidade de introspecção, seja para criar artisticamente, ou para resolver determinado problema que posso passar meses negligenciando quando tudo corre entre sorrisos e risadas. É o que chamo de adoecimento consciente. Eu mesmo diria ser essa uma espécie de autoconhecimento, já que não costumo associar tristeza à infelicidade, nem beleza à perfeição, e nem mesmo caos à morte. Associo, isto sim, vida à experimentação. Provar apenas da alegria? Que tédio.
E aí me dá vontade de falar de umas coisas tristes; não como nos noticiários, mas com o propósito de suplantá-las, claro. E a coisa mais triste que há é quando não se tem nem mais direito à tristeza. Imagino ser esse o último grau da miséria humana. Então, por favor, permita-me entristecer; até porque isso acontecerá. Se sou infeliz? Claro, às vezes também sou. E até a infelicidade tem sua graça, do contrário não teríamos passado pelo Romantismo. Apenas não me confunda, porque assim como você, no geral, declaro-me feliz.
Está vendo, estamos aqui falando de tristeza e feiúra e ninguém derreteu. E esse assunto vai agora virar tabu? Pode isso? Além do que, feiúra é relativa e da mesma forma a tristeza. E a segunda coisa mais triste que consigo imaginar é se elas deixassem de sê-lo. Porque todo mundo tem direito a sua dor particular. E para com ela seus deveres. E a partir de seus obstáculos ultrapassados, seus prêmios.
É por isso que tristeza está longe de ser infelicidade. No pensamento de Nietszche, por exemplo, a dor é o motor da vontade: “vontade é a vingança contra o que já foi, contra o que não pode ser mudado”, por aí. A vontade de viver, portanto, é resultado direto de nossa dor e a ela não agradecemos. E ainda queremos sufocá-la a qualquer custo, torná-la artificial. Se bem que, tristeza e feiúra já deixaram de ser naturais, a partir da consolidação da propaganda. Confundiu-se a vida com a filosofia sorrateira dos produtos. Confundiu-se alegria, algo que está dentro de nós, com aquelas caras sorridentes nos comerciais, tão distantes, do outro lado da tela, e que apenas são pagas para sorrir. E hoje, muitas vezes, tristeza é não ter o que não se precisa. Assim como alegria tantas vezes é ter algo que nos deixa mais tristes; embora não possamos admitir. O mais curioso é observar como o coletivo conseguiu se distanciar tanto do individual. E nem posso ficar triste com isso? Fico.
Mas apesar de tudo, concordo: falar de tristeza e feiúra tem limite; embora uma coisa seja olhar abertamente para as intempéries da vida, com o intuito de ultrapassá-las, e a outra, ficar choramingando pelos cantos, e pior ainda, em público. Portanto, não me confunda - parte dois: não tenho a menor paciência com chorões, negativos, pessimistas, masoquistas e derrotados. E muito menos com o mau-gosto, que está longe de ser representado pela feiúra; a ausência do feio também pode ser algo de mau-gosto. E desconfio que a ausência de tristeza pode gerar uma grande infelicidade; tanto quanto a falta de humor.
Pois quem quiser que continue propagando o riso nervoso como alegria, apenas para pertencer ao coletivo, que certamente já não representa o indivíduo.
O coletivo já não representa o indivíduo. E não é justamente por isso que nos tornamos individualistas?


Magno Mello