Acho que já disse em algum
texto meu que, segundo Rousseau, o homem começou a pensar com as mãos, desde o
dia em que chamou a primeira ferramenta de ferramenta. Pois diz-se que foi
assim: nosso ancestral utilizava uma pedra, e outra, e mais outra, mas a cada
vez que fazia uso jogava fora sem imaginar que aquela poderia servir para se
utilizar no futuro, no outro dia, em uma próxima situação em que talvez não
houvesse uma pedra por perto, caso se precisasse.
Então, um belo dia, aquele
bicho querendo virar gente pensou em guardar um desses pedregulhos, ainda não
intencionalmente lascado, para usar numa próxima vez. Estava assim criada a
ferramenta. E com isso a primeira abstração: ferramenta. “Esta pedra é
ferramenta. E a que usei na vez anterior, também”. Eis a primeira idéia lógica,
nascida diretamente das mãos e, posterior ou concomitantemente, enviada para a
caixa de entrada do cérebro, segundo nosso querido Rousseau.
Daí entra Freud, que diz em
seu belo e curioso estudo “A Interpretação dos Sonhos”, que nossos sonhos são
em grande parte feitos de reminiscências de acontecimentos recentes, do dia
anterior ou mesmo do próprio dia em que se sonha; e só como detalhe: Freud
também propõe que todas as personagens de nossos sonhos somos nós mesmos.
Voltando ao nosso ancestral
macacóide, imagino-o dormindo, mergulhado em seus sonhos, naquele mesmo dia ou
no dia seguinte à descoberta que o levou ao pensamento lógico, quando, de
alguma doida forma onírica, obviamente,
lhe aparece aquela abstração: a ferramenta. E a pedra-mãe começa a
ganhar desdobramentos pré-simbólicos a partir de imagens que vão se
contrapondo, justapondo e interpondo misteriosamente. De repente, numa dessas
imagens tresloucadas, surge uma outra pedra, do nada, e atinge a cabeça de
nosso herói. A pedra que pareceu lhe castigar é por ele mesmo arremessada
longe, não mais voltando. E ainda: surge uma ferramenta-raio numa dessas
conexões impossíveis que só o sonho permite. E esta, ao ser batida contra o
objeto que se quer partir, provoca o estrondo de um trovão, fenômeno que já o
amedronta em vida pela proporção e inexplicabilidade. E sua mão nessa hora se
transforma na mão de um ser gigante que, assim como o trovão, mora no céu. E
por aí vai...
Agora entra em nossa
história um terceiro grande cientista, o antropólogo francês Lévi-Strauss e sua
obra “O Cru e o Cozido”, também linda de morrer. Lévi-Strauss trabalhou com a
formação dos mitos e esse livro apresenta dezenas de histórias míticas reconstruídas,
de tribos ancestrais das Américas, especialmente do Sul e Central. As histórias
são usadas para tentar explicar como se deu a transformação psíquica – e,
portanto, mítica – na cabeça desses povos, a partir da mudança de consumo do
alimento cru para o cozido.
O interessante é que as
histórias são, invariavelmente, loucos devaneios, não de todo
sem-pé-nem-cabeça, mas, no mínimo, com os pés-na-cabeça. São acontecimentos não
lineares, não temporais e não lógicos, embora sejam acontecimentos (sem dúvida)
e registrem a história mítica desses povos, sobre seus deuses, o aparecimento
das coisas, dos alimentos, dos bichos, de como surgiu o céu, o rio, enfim,
sobre tudo que existia e não existia no mundo. E é impossível não associar essa
teia caótica de acontecimentos com os acontecimentos como se dão nos sonhos,
ainda que Lévi-Strauss, se bem me lembro, não tenha dado importância a esse
fato.
O que pretendo aqui
considerar, portanto, é que fizemos boa parte de nossas conexões mentais com
base nos sonhos de outrora. Construímos nosso mundo mítico a partir dos sonhos,
sendo que esse universo serviu de base para a construção de nossos valores e
crenças, que, finalmente, aliados a outros fatores, especialmente os de
interesses pessoais, moldaram o mundo em que vivemos. Enquanto os sonhos de
nossos ancestrais iam sendo contados nas tribos, imagino que em grandes rodas,
mas também em conversas privadas ou em pequenos grupos, nossas crenças iam se
moldando. E ainda íamos com isso desenvolvendo e enriquecendo nossas conexões
mentais e silógicas. Tudo, a partir de uma louca e desenfreada experiência: o
sonho. E é claro que de forma semelhante, como nos contos míticos desses e de
tantos povos, se deram as escrituras do Velho e do Novo Testamento, do Corão e
do Vedas, entre outros, que também apresentam essas linguagens e semânticas
devaneadas, desconstruídas, lúdicas e simbólicas.
Enfim, essa é uma
possibilidade: começamos a pensar com as mãos e desenvolvemos uma parte significativa
de nosso pensamento, de nossas crenças e valores, a partir do fantástico mundo
onírico. E das idéias dos que se aproveitaram disso, claro.
Magno Mello