sexta-feira, 4 de abril de 2014

Para que e a quem serve a educação

Dizer que hoje se tem alguma resposta para a educação, é mentira. Chegamos num ponto em que ninguém sabe exatamente mais o que pensar, ainda que se continue pensando e isto seja necessário. Precisamos reconhecer: tudo o que temos dito sobre o assunto nos últimos tempos são apenas conjeturas. Isso porque ninguém tem a menor idéia de para aonde o mundo está indo. Qualquer novo grande fenômeno - e advirão muitos nas próximas décadas - poderá mudar drasticamente o rumo dos acontecimentos. Então, como saber de que modo preparar o aluno? Para que mundo?

Mesmo quando se diz ser necessário ensinar o indivíduo a aprender por si mesmo, estamos alimentando uma falácia. Em último grau isto quer dizer: aprender de improviso diante de um objeto desconhecido, de desconhecidas causas e consequências. Neste caso, pode-se aprender algo completamente ineficiente ou mesmo danoso, em curto, médio e ou longo prazo. Imagine que um novo fenômeno se apresente e lá vamos nós conjeturar a partir de lógicas que por si mesmas são falhas e enganosas, por não contemplarem a complexa multiplicidade dos fatos e dos objetos. Nem mesmo trilhões de dados reunidos e sofisticados algoritmos podem traduzir essa complexidade. E muito disso por estarmos lidando com pessoas e seus infinitos paradoxais interesses, além de suas ideologias, sua imaturidades e, principalmente, sua animalidade.

Nenhuma ciência, portanto, é tão séria quanto quer parecer. Por exemplo, não é muito séria uma medicina que não enxerga o ser humano como um conjunto de reações interdependentes, físicas e psíquicas. No entanto, é essa medicina que se aplica no mundo. Não são muito sérias uma engenharia e uma arquitetura que não contemplam os reais impactos ambientais, inclusive sobre o ambiente humano, impedidas dessa leitura por interesses econômicos que atropelam possibilidades mais éticas e humanísticas. Não é muito séria uma educação que apenas tenta preparar o indivíduo para o mercado de trabalho, esquecendo-se de educá-lo para o bem-estar. A escola, na verdade, ensina o indivíduo a ser triste, por ser ela mesma uma das grandes replicadoras de um modelo falido que não contempla o mais importante: a vida. Ou existe algo mais importante que a vida? Também não é nada séria uma política econômica que fomenta tantas desigualdades e promove a competitividade como se ainda estivéssemos numa selva, como não é séria nossa estrutura social que vem promovendo uma explosão demográfica de deprimidos, ansiosos críticos, alienados e simples produtores e consumidores.

Então, o que ensinar ao aluno? Acredito em apenas duas possibilidades: ensiná-lo a desconstruir seus atavismos, suas crenças e sua cultura, nocivos a si mesmo e à sociedade, e autorizá-lo a reconstruir um mundo melhor, incluindo o seu próprio. Porque estamos, claramente, como que presos a um emaranhado de arame farpado, no qual, quanto mais tentamos agir, mais nos enroscamos e nos machucamos.

A única educação que poderia hoje se dizer séria, portanto, seria uma a romper cada conexão dessa teia farpada que nos escraviza e nos entristece cada vez mais.


Magno Mello

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