domingo, 22 de junho de 2014

Pensar com as mãos e a partir dos sonhos

Acho que já disse em algum texto meu que, segundo Rousseau, o homem começou a pensar com as mãos, desde o dia em que chamou a primeira ferramenta de ferramenta. Pois diz-se que foi assim: nosso ancestral utilizava uma pedra, e outra, e mais outra, mas a cada vez que fazia uso jogava fora sem imaginar que aquela poderia servir para se utilizar no futuro, no outro dia, em uma próxima situação em que talvez não houvesse uma pedra por perto, caso se precisasse. 
 
Então, um belo dia, aquele bicho querendo virar gente pensou em guardar um desses pedregulhos, ainda não intencionalmente lascado, para usar numa próxima vez. Estava assim criada a ferramenta. E com isso a primeira abstração: ferramenta. “Esta pedra é ferramenta. E a que usei na vez anterior, também”. Eis a primeira idéia lógica, nascida diretamente das mãos e, posterior ou concomitantemente, enviada para a caixa de entrada do cérebro, segundo nosso querido Rousseau. 

Daí entra Freud, que diz em seu belo e curioso estudo “A Interpretação dos Sonhos”, que nossos sonhos são em grande parte feitos de reminiscências de acontecimentos recentes, do dia anterior ou mesmo do próprio dia em que se sonha; e só como detalhe: Freud também propõe que todas as personagens de nossos sonhos somos nós mesmos. 

Voltando ao nosso ancestral macacóide, imagino-o dormindo, mergulhado em seus sonhos, naquele mesmo dia ou no dia seguinte à descoberta que o levou ao pensamento lógico, quando, de alguma doida forma onírica, obviamente,  lhe aparece aquela abstração: a ferramenta. E a pedra-mãe começa a ganhar desdobramentos pré-simbólicos a partir de imagens que vão se contrapondo, justapondo e interpondo misteriosamente. De repente, numa dessas imagens tresloucadas, surge uma outra pedra, do nada, e atinge a cabeça de nosso herói. A pedra que pareceu lhe castigar é por ele mesmo arremessada longe, não mais voltando. E ainda: surge uma ferramenta-raio numa dessas conexões impossíveis que só o sonho permite. E esta, ao ser batida contra o objeto que se quer partir, provoca o estrondo de um trovão, fenômeno que já o amedronta em vida pela proporção e inexplicabilidade. E sua mão nessa hora se transforma na mão de um ser gigante que, assim como o trovão, mora no céu. E por aí vai... 

Agora entra em nossa história um terceiro grande cientista, o antropólogo francês Lévi-Strauss e sua obra “O Cru e o Cozido”, também linda de morrer. Lévi-Strauss trabalhou com a formação dos mitos e esse livro apresenta dezenas de histórias míticas reconstruídas, de tribos ancestrais das Américas, especialmente do Sul e Central. As histórias são usadas para tentar explicar como se deu a transformação psíquica – e, portanto, mítica – na cabeça desses povos, a partir da mudança de consumo do alimento cru para o cozido. 

O interessante é que as histórias são, invariavelmente, loucos devaneios, não de todo sem-pé-nem-cabeça, mas, no mínimo, com os pés-na-cabeça. São acontecimentos não lineares, não temporais e não lógicos, embora sejam acontecimentos (sem dúvida) e registrem a história mítica desses povos, sobre seus deuses, o aparecimento das coisas, dos alimentos, dos bichos, de como surgiu o céu, o rio, enfim, sobre tudo que existia e não existia no mundo. E é impossível não associar essa teia caótica de acontecimentos com os acontecimentos como se dão nos sonhos, ainda que Lévi-Strauss, se bem me lembro, não tenha dado importância a esse fato. 

O que pretendo aqui considerar, portanto, é que fizemos boa parte de nossas conexões mentais com base nos sonhos de outrora. Construímos nosso mundo mítico a partir dos sonhos, sendo que esse universo serviu de base para a construção de nossos valores e crenças, que, finalmente, aliados a outros fatores, especialmente os de interesses pessoais, moldaram o mundo em que vivemos. Enquanto os sonhos de nossos ancestrais iam sendo contados nas tribos, imagino que em grandes rodas, mas também em conversas privadas ou em pequenos grupos, nossas crenças iam se moldando. E ainda íamos com isso desenvolvendo e enriquecendo nossas conexões mentais e silógicas. Tudo, a partir de uma louca e desenfreada experiência: o sonho. E é claro que de forma semelhante, como nos contos míticos desses e de tantos povos, se deram as escrituras do Velho e do Novo Testamento, do Corão e do Vedas, entre outros, que também apresentam essas linguagens e semânticas devaneadas, desconstruídas, lúdicas e simbólicas.  

Enfim, essa é uma possibilidade: começamos a pensar com as mãos e desenvolvemos uma parte significativa de nosso pensamento, de nossas crenças e valores, a partir do fantástico mundo onírico. E das idéias dos que se aproveitaram disso, claro. 
 
Magno Mello         

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