terça-feira, 18 de março de 2014

A cultura do achismo

O achismo existe desde quando o ser-querendo-tornar-se-humano começou a pensar. Pensou a primeira vez e já acreditou ser verdade. Inventou uma teoria de improviso e a ela, automaticamente, no calor do momento, deu fé. Certamente, na hora, a não ser por uma chispa de pensamento que se lhe acometeu, mas que passou muito rápida para ser considerada, nem parou para refletir se acreditava mesmo no que lhe viera à cabeça. O estado gozoso da criação e da crença egóica, como ainda hoje se dá entre nós humanos, naquele instante foi mais forte que qualquer vontade de ponderação. E mesmo que após algum tempo nosso ancestral tenha reavaliado a idéia, sua teoria de puro achismo, possivelmente, já tinha sido divulgada e corroborada por outros. Aliás, não é assim que nossas crenças e valores foram e continuam sendo construídos?

Eis, provavelmente, um dos primeiros grandes achismos: lá acima, no céu, tem um ser mágico, invisível, gigantesco, que trovoa e atira seus relâmpagos, despeja suas tempestades e suas escuridões. Devemos, portanto, temê-lo. Mas também exibe suas estrelas, nos dá a luz do sol, da lua, e quem sabe criou - quem mais? - este mundo em que agora sabemos que estamos. E, por que não, pode ter nos dado esta vida, esta que agora estamos conscientes de possuir. Isso quer dizer que também devemos adorá-lo - para continuar recebendo o que é bom, além de aplacarmos sua ira? "Sim, exatamente! - alguém achou. Achou por pura influência momentânea, para fazer coro, para pertencer a uma comunidade, ou porque aquilo pelo menos era algum sentido diante do extremo vazio ideológico de uma mente que já começava a exigir explicações. Então, ficou combinado de que era aquilo mesmo.

A partir daí sabemos como a história continua. Mas é sempre bom lembrarmo-nos de algumas passagens, como, por exemplo, do achismo pré-socrático, do achismo egípcio centrado na certeza única, que era a figura do faraó, do achismo lógico/racional/retórico dos gregos, do achismo das igrejas e dos imperadores na Idade Média, do achismo científico iluminista da Idade Moderna e, finalmente, do achismo tecnicista tecnológico da Era Contemporânea, que, a exemplo das outras eras, foi diretamente influenciada e continua sustentada pelas hereditariedades advindas dos períodos anteriores. Todos esses tempos permeados por achismos individuais, grupais, tribais, regionais, nacionais e hoje mundiais, em todas as áreas de conhecimento e comportamento. Achismos, achismos, achismos e, vá lá, um pouco de ciências empíricas e matemáticas, que muitas vezes na história também provaram ser meros achismos, ainda que complexamente elaboradas e calculadas. Não estava mais que provada a existência dos buracos negros? Pois, agora, ninguém menos que Stephen Hawking acha que não existem. Piores são os eternos achismos sobre os benefícios ou malefícios do ovo e do chocolate.

É preciso considerarmos, no entanto, que há pessoas neste mundo que lutam para trazer à luz alguma verdade, muitas vezes até passando por cima das próprias crenças, profundas ou imediatas E para isso mergulham em estudos, pesquisas, comparações de conteúdos e análises críticas, tentando enxergar a coisa tal qual ela se apresenta, acima dos dogmas, dos mitos, de perniciosos acordos intelectuais ou da traiçoeira intelectualidade imaginativa ou intuitiva. Isto, para considerarmos, por outro lado, que a grande maioria esmagadora dos seres humanos habitantes deste planeta, em todas as gerações, em todos os tempos, falam qualquer coisa que vem à cabeça ou, simplesmente, em muitas situações apenas replicam conceitos e idéias que ouviram por aí, em qualquer esquina do mundo. Neste sentido, basta que se ouça um argumento, uma idéia, um relato, uma notícia, para se apressar numa impressão, num ponto de vista, desengonçadamente irrefletidos. Se com frases feitas ou pensamentos improvisados, isso não importa, a vontade de falar, de emitir opinião, é sempre maior que a de refletir. E mesmo a vontade de pensar livremente é muito maior que a de estudar, ler, buscar conhecimento consistente ou analisar de maneira crítica, ponderada, responsável, consideradora das múltiplas faces de um objeto.

Desse modo, lá vamos nós pela vida ensinando e aprendendo, disseminando e absorvendo, veleidades, fantasias, ilusões, inverdades, invenções, ficções, falsas teorias, achismos nos mais variados graus, todos os dias, a qualquer hora, em qualquer lugar. E é um tal de lançar falsos números, datas e passagens improvisadas, de colocar palavras na boca de pensadores consagrados, de se dizer que leu em tal lugar, que estudou isso e aquilo, que se tem formação tal e tal, que fulano e cicrano também concordam, e, acima de tudo, de que se tem certeza absoluta. Antes esses discursos se dessem somente nos botecos ou mesmo nas rodas acadêmicas. O problema é que os formadores de opinião, a imprensa, os analistas, os governantes, a mídia em geral, e também os economistas, os pais, professores, amigos, cônjuges, padres e pastores, se valem do mesmo artifício.

Enfim, não é esse o mundo em que vivemos? O que você acha?


Magno Mello


Nenhum comentário:

Postar um comentário