O
achismo existe desde quando o ser-querendo-tornar-se-humano começou a pensar. Pensou
a primeira vez e já acreditou ser verdade. Inventou uma teoria de improviso e a
ela, automaticamente, no calor do momento, deu fé. Certamente, na hora, a não
ser por uma chispa de pensamento que se lhe acometeu, mas que passou muito
rápida para ser considerada, nem parou para refletir se acreditava mesmo no que
lhe viera à cabeça. O estado gozoso da criação e da crença egóica, como ainda
hoje se dá entre nós humanos, naquele instante foi mais forte que qualquer vontade
de ponderação. E mesmo que após algum tempo nosso ancestral tenha reavaliado a
idéia, sua teoria de puro achismo, possivelmente, já tinha sido divulgada e corroborada por outros. Aliás, não é assim que nossas crenças e
valores foram e continuam sendo construídos?
Eis,
provavelmente, um dos primeiros grandes achismos: lá acima, no céu, tem um ser
mágico, invisível, gigantesco, que trovoa e atira seus relâmpagos, despeja suas
tempestades e suas escuridões. Devemos, portanto, temê-lo. Mas também exibe
suas estrelas, nos dá a luz do sol, da lua, e quem sabe criou - quem mais? -
este mundo em que agora sabemos que estamos. E, por que não, pode ter nos dado
esta vida, esta que agora estamos conscientes de possuir. Isso quer dizer que
também devemos adorá-lo - para continuar recebendo o que é bom, além de aplacarmos
sua ira? "Sim, exatamente! - alguém achou. Achou por pura influência
momentânea, para fazer coro, para pertencer a uma comunidade, ou porque aquilo
pelo menos era algum sentido diante do extremo vazio ideológico de uma mente
que já começava a exigir explicações. Então, ficou combinado de que era aquilo
mesmo.
A
partir daí sabemos como a história continua. Mas é sempre bom lembrarmo-nos de
algumas passagens, como, por exemplo, do achismo pré-socrático, do achismo
egípcio centrado na certeza única, que era a figura do faraó, do achismo
lógico/racional/retórico dos gregos, do achismo das igrejas e dos imperadores na
Idade Média, do achismo científico iluminista da Idade Moderna e, finalmente, do
achismo tecnicista tecnológico da Era Contemporânea, que, a exemplo das outras
eras, foi diretamente influenciada e continua sustentada pelas
hereditariedades advindas dos períodos anteriores. Todos esses tempos permeados
por achismos individuais, grupais, tribais, regionais, nacionais e hoje mundiais,
em todas as áreas de conhecimento e comportamento. Achismos, achismos, achismos
e, vá lá, um pouco de ciências empíricas e matemáticas, que muitas vezes na história
também provaram ser meros achismos, ainda que complexamente elaboradas e
calculadas. Não estava mais que provada a existência dos buracos negros? Pois,
agora, ninguém menos que Stephen Hawking acha que não
existem. Piores são os eternos achismos sobre os benefícios ou malefícios do
ovo e do chocolate.
É
preciso considerarmos, no entanto, que há pessoas neste mundo que lutam para
trazer à luz alguma verdade, muitas vezes até passando por cima das próprias
crenças, profundas ou imediatas E para isso mergulham em estudos, pesquisas,
comparações de conteúdos e análises críticas, tentando enxergar a coisa tal
qual ela se apresenta, acima dos dogmas, dos mitos, de perniciosos acordos
intelectuais ou da traiçoeira intelectualidade imaginativa ou intuitiva. Isto,
para considerarmos, por outro lado, que a grande maioria esmagadora dos seres
humanos habitantes deste planeta, em todas as gerações, em todos os tempos,
falam qualquer coisa que vem à cabeça ou, simplesmente, em muitas situações
apenas replicam conceitos e idéias que ouviram por aí, em qualquer esquina do
mundo. Neste sentido, basta que se ouça um argumento, uma idéia, um relato, uma
notícia, para se apressar numa impressão, num ponto de vista, desengonçadamente
irrefletidos. Se com frases feitas ou pensamentos improvisados, isso não
importa, a vontade de falar, de emitir opinião, é sempre maior que a de
refletir. E mesmo a vontade de pensar livremente é muito maior que a de
estudar, ler, buscar conhecimento consistente ou analisar de maneira crítica,
ponderada, responsável, consideradora das múltiplas faces de um objeto.
Desse
modo, lá vamos nós pela vida ensinando e aprendendo, disseminando e absorvendo,
veleidades, fantasias, ilusões, inverdades, invenções, ficções, falsas teorias,
achismos nos mais variados graus, todos os dias, a qualquer hora, em qualquer
lugar. E é um tal de lançar falsos números, datas e passagens improvisadas, de
colocar palavras na boca de pensadores consagrados, de se dizer que leu em tal
lugar, que estudou isso e aquilo, que se tem formação tal e tal, que fulano e
cicrano também concordam, e, acima de tudo, de que se tem certeza absoluta. Antes
esses discursos se dessem somente nos botecos ou mesmo nas rodas acadêmicas. O
problema é que os formadores de opinião, a imprensa, os analistas, os governantes,
a mídia em geral, e também os economistas, os pais, professores, amigos,
cônjuges, padres e pastores, se valem do mesmo artifício.
Enfim,
não é esse o mundo em que vivemos? O que você acha?
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