Certamente, muita gente já
ouviu algo a respeito do big data. Entretanto, muito pouco se sabe sobre esse
fenômeno que poderá, em muito pouco tempo, revolucionar a maneira como olhamos
para o conhecimento. Hoje, sabe-se apenas que big data é o armazenamento e a
leitura por meio de algoritmos de uma quantidade gigantesca de dados.
Sabemos também que esses dados
são utilizados pelas grandes empresas para impulsionar suas vendas por meio de
propagandas direcionadas na internet. Sabemos ainda que somos nós mesmos que
fornecemos esses dados, a cada site que visitamos, a cada aplicativo que
baixamos, a cada atualização em nossos computadores, a cada compra realizada
com cartões de crédito e débito, no mundo físico e virtual. E também quando
usamos nossos GPSs, mandamos um email, fazemos uma ligação pelo celular ou nos
comunicamos pelas redes sociais, entre outras ações cotidianas. Até o modo como
buscamos as informações na tela do computador, ou seja, o movimento de nosso
cursor, é mapeado, dataficado e analisado. E a despeito de leis mais razoáveis de
privacidade - se bem que as regras básicas estão contidas em cada longo termo
de uso, de minúsculas letras, com os quais concordamos - esses bancos de dados
produzidos por nós mesmos têm sido comercializados para empresas de todos os
setores, em larga escala - aí já muitas vezes sem o nosso consentimento. Mas em
outras tantas situações com nossa própria permissão, embora a leitura integral
de cada um desses contratos nos tomaria mais tempo do que nos é possível
dispor, e disso todas as empresas coletoras, analisadoras ou compradoras de
dados estão cientes. E justamente por isso utilizam-se dessa estratégia que já
deveria ter sido refreada pela justiça há pelo menos uns dois ou três anos.
De certo modo, muitas dessas
informações anteriores já são mais ou menos sabidas por muitos de nós. O que
talvez ainda não se tenha refletido de maneira mais aprofundada é que esse é um
caminho sem volta e que essa prática invasiva tende a se espalhar para todos os
segmentos de nossa vida privada. Simplesmente porque a maioria avassaladora das
empresas do mundo, de médio e grande porte, e até as pequenas, vão aderir, na
verdade já estão aderindo, a esse método. E dificilmente sobreviverão no
mercado sem ele.
Bem, esse é o lado mais
negativo do big data, embora haja outros. Mas o que muito pouca gente sabe é
que isso pode ser apenas a ponta do iceberg para uma possível mudança de
paradigma de como usamos e entendemos o conhecimento. Algo que os estudiosos
nessa área têm sugerido como a substituição em larga escala do "por que
algo acontece?", para simplesmente "o que acontece?". Não se
sabe por que tal fenômeno ocorre ou ocorreu, e talvez nem dará tempo de saber.
Mas, a partir do cruzamento de milhões, bilhões ou trilhões de dados, sabe-se
que determinada coisa acontece ou aconteceu. E baseando-se em tal evidência se
agirá, de forma quase automática. E essa mudança pode se estender para
praticamente todas as áreas de nossas vidas: econômica, de consumo, mas também
social, educacional, profissional e até afetiva.
Alguns exemplos do poder do
big data:
Em 2009 o vírus H1N1, da
gripe aviária, começou a se espalhar pelo mundo. Preocupados com uma
possibilidade de pandemia os Centros de Controle de Prevenção de Doenças
(Centers for Disease Control), nos Estados Unidos, solicitaram que os médicos
americanos informassem sobre qualquer novo caso da doença, a fim de que se
pudesse mapear seu alastramento. Mas a defasagem das informações era de uma a
duas semanas. Isso porque o centro de dados dos CDCs só conseguia processar as
informações uma vez por semana. E, claro, essa defasagem era terrivelmente demorada
para a urgência do problema. Quem acabou solucionando a questão foi o Google,
que ao cruzar mais de 50 milhões de termos de busca dos internautas, relativos
à doença, conseguiram detectar com defasagem de apenas 24 horas os focos de
pessoas infectadas em território americano. E isso foi fator decisivo para
controle da doença no Estados Unidos.
Em 2003 o americano Oren
Etzione, após ter comprado uma passagem aérea pela internet meses antes de
viajar, justamente para pagar menos, descobriu durante o vôo que outros
passageiros haviam comprado suas passagens, com muito menor antecedência,
pagando bem menos. Essa sensação de ter sido prejudicado o levou a buscar uma
amostragem, num site de viagens, de doze mil preços de passagens durante 41
dias. E com essas informações criou um modelo de previsão de preços de
bilhetes, que depois se transformou na startup Farecast. A partir de seu modelo
de captação e cruzamento de dados ele passou a acertar, isso já em 2012, até
75% das previsões sobre o aumento ou diminuição de preços de passagens,
dependendo do dia da compra. O que levou seus clientes a economizarem em média
50 dólares por passagem. O cruzamento das informações, em 2012 chegando a 200
bilhões de registros, não o levava a saber o porque da alta ou queda do valor
das passagens. Mas ele sabia o que e quando acontecia. E nessa mesma época
vendeu sua empresa para a Microsoft por cerca de U$ 110 milhões.
O big data possibilitou a
existência do Google Translator a partir de um banco de dados de um trilhão de
palavras, 95 bilhões de frases, em mais de 60 idiomas. E o sistema é em muitos
aspectos auto-aperfeiçoador, com a ajuda dos próprios internautas, mesmo quando
escrevem - e por isso mesmo - palavras e frases erradas. Sim, o big data não só
aceita o erro, o caos e o paradoxo como deles se utiliza para fornecer dados
sobre "o que acontece".
A Amazon não sabe exatamente
porque um leitor que gosta de Ernest Hemingway tende a gostar também de F.
Scott Fitzgerald, mas seus cruzamentos de bilhões de dados, lidos por algoritmos,
dizem que isso acontece. E esse modelo substitui muito mais êxito o sistema
anterior de recomendação da Amazon, que antes se utilizava de simples
segmentação. Ou seja, se você comprasse um livro sobre música, sua página seria
inundada de ofertas de livros de música e arte.
O Wallmart descobriu com o
big data que quando aproximava-se a temporada de furacões nos Estados Unidos, os
americanos compravam muito mais Pop-Tarts, um doce típico americano. E, claro,
passou a encher as prateleiras da frente das lojas com esse tipo de doce quando
aumentavam as tempestades.
A Kaggle, empresa que
organiza competições de captação de dados, e em 2012 organizou um desses
eventos sobre que tipos de carros vendidos em leilão poderiam apresentar
problemas, descobriu que carros da cor laranja têm metade da propensão de
quebras que os carros de outras cores.
O big data não enxerga
causalidades mas muitas vezes sabe o que acontece. E felizmente sua utilização
não é apenas para comércio - embora em grande parte ainda seja. A Dra. Carolyn
McGregor, do Institute of Technology da University of Ontário, trabalhou junto
à IBM num software que ao analisar 1.260 pontos de dados por segundo de bebês
prematuros, consegue prever uma infecção com até 24 horas de antecedência. A
explosão de bueiros em Manhattan foi diminuída drasticamente a partir da
análise de big data.
Estes são apenas alguns
exemplos, entre milhares, que neste momento estão transformando drasticamente o
mundo em que vivemos. E ainda há muito por vir. A partir do big data muitas
profissões desaparecerão e outras serão criadas. Nossas vidas serão devassadas
pelo comércio. Mas certamente poderemos num futuro próximo utilizar o big data
de forma caseira, para fazer qualquer tipo de pesquisa, de auto-avaliações, de
auto-exames, para extrair múltiplos tipos de leitura de um mesmo banco de
dados. A criatividade e a subjetividade humanas poderão ser ameaças pela
ditadura dos dados. Poderão advir, no entanto, novíssimas perspectivas
criativas e novos modos de se existir neste mundo. Claro, a força das grandes
corporações é quase ilimitada. Mas nosso pensamento também pode ser.
O big data nos dá um aviso:
para prepararmo-nos, de modo apenas razoável, para essa nova configuração
mundial de transformações exponenciais e radicais, teremos que pensar à frente,
por nós mesmos, de forma aberta, radial, global, flexível, cultural, sem jamais
deixar de buscar tanto conhecimentos mais antigos, que formaram nossos padrões
de comportamentos e valores, quanto os mais recentes, gerados na atualidade.
Mas, ainda os que potencialmente estão para eclodir.
Magno Mello
*fonte: Big Data, como extrair volume, variedade, velocidade e valor da avalanche de informação cotidiana - Viktor Mayer-Schönberger e Kenneth Cukier
*fonte: Big Data, como extrair volume, variedade, velocidade e valor da avalanche de informação cotidiana - Viktor Mayer-Schönberger e Kenneth Cukier
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