O mais importante benefício de se possuir boa cultura, sem dúvida, diz respeito à capacidade do indivíduo reconhecer-se como protagonista de sua própria história no mundo do qual participa. Não a partir de um protagonismo ilusório e alternante que ora se sente realizado por incluir-se no senso comum, muitas vezes até tendo a sensação de nele estar diluído - como no caso de torcidas esportivas, de imensas platéias em shows de artistas do momento, de vocabulários, indumentárias e produtos da moda, entre outros signos de pertencimento - e num outro momento compreende sua falta de opções para atuar de modo mais decisivo em seu destino profissional, social e até afetivo. Nesse momento, muitas vezes, são pessoas que não gostam de seus trabalhos, de suas obrigações cotidianas, percebendo-se também irremediavelmente atreladas a uma tediosa e alienante rotina, que as levam a sonhar com acertos em loterias e outras formas de enriquecimento repentino, e ainda com aposentadorias, com imagens artificiais produzidas pela mídia, com a fama pura e simples, com a aquisição de produtos que possam torná-las supostamente mais importantes.
O indivíduo subjetivado e detentor de certa cultura, por outro lado, sente-se mais frequentemente importante diante de si mesmo. Procura, e, não raras as vezes, encontra um caminho para fazer o que mais gosta, ganhando dinheiro com isso. Tem menos necessidade de consumo, por ocupar mais horas de seu dia com experenciações próprias, dentro e fora de si, como situações de auto-aprendizado, com seu próprio trabalho, que lhe é agradável ou motivo de paixão, com as pessoas em seu ambiente profissional, pois a escolha de seu trabalho também determina a qualidade de suas relações. E ainda, em alto grau, com a criação em geral, com sua solitude, com outras percepções e apreensões do mundo, que não necessariamente envolvem consumo, mas, em tantos momentos, até produzem insumos, tangíveis e intangíveis, reais e ficcionais, para usufruto próprio ou de terceiros.
A subjetividade e a visão cultural também possibilitam ao indivíduo perceber melhor seus talentos e vocações, descobrir o que deseja profissionalmente, enxergar para além de modelos padronizados e ilusórios, encontrar formas singulares de vivenciar seus interesses, seus gozos, suas vontades, impor ao mundo seu estilo de vida e respeitar o dos outros, desconstruir sub-reptícios conceitos de culpa, romper com táticas visíveis e invisíveis de dominação, olhar o mundo com seus próprios olhos, criar seus próprios valores, transgredir saudavelmente e colaborar para um mundo melhor para todos.
Um outro aspecto da aquisição cultural e artística são as escolhas que fazemos a cada produto que compramos, a cada roteiro de viagem que escolhemos, a cada filme ou programa de TV que assistimos, a cada música que ouvimos, a cada livro que lemos, a cada amizade que estabelecemos, a cada comida que comemos. O refinamento estético aliado à capacidade de discernimento crítico, à sensibilidade e à percepção da singularidade de quem somos, nos faz escolher melhor a cada situação em nossas vidas, sem que seja esta uma escolha necessariamente racional, mas, antes, um processo internalizado. O uso de nosso tempo, portanto, depende de escolhas. Decidimos a cada momento se faremos isto, aquilo ou outra coisa. E ainda, como e porque faremos, pois são muitas as ofertas do mundo.
Por fim, a visão cultural mais ampliada além de nos mostrar um leque maior de possibilidades, nos leva também a intuir, a partir do cruzamento de nosso arsenal de dados objetivos e subjetivos, opções que não estão visíveis, mas que podem ser criadas por nós mesmos.
Magno Mello
"A visão cultural mais ampliada além de nos mostrar um leque maior de possibilidades, nos leva também a intuir, a partir do cruzamento de nosso arsenal de dados objetivos e subjetivos, opções que não estão visíveis, mas que podem ser criadas por nós mesmos."
ResponderExcluirFechou de forma brilhante. Adorei!
Obrigado pelo comentário! Abraço.
Excluir