segunda-feira, 7 de julho de 2014

O que ganhamos com a cultura

O mais importante benefício de se possuir boa cultura, sem dúvida, diz respeito à capacidade do indivíduo reconhecer-se como protagonista de sua própria história no mundo do qual participa. Não a partir de um protagonismo ilusório e alternante que ora se sente realizado por incluir-se no senso comum, muitas vezes até tendo a sensação de nele estar diluído - como no caso de torcidas esportivas, de imensas platéias em shows de artistas do momento, de vocabulários, indumentárias e produtos da moda, entre outros signos de pertencimento - e num outro momento compreende sua falta de opções para atuar de modo mais decisivo em seu destino profissional, social e até afetivo. Nesse momento, muitas vezes, são pessoas que não gostam de seus trabalhos, de suas obrigações cotidianas, percebendo-se também irremediavelmente atreladas a uma tediosa e alienante rotina, que as levam a sonhar com acertos em loterias e outras formas de enriquecimento repentino, e ainda com aposentadorias, com imagens artificiais produzidas pela mídia, com a fama pura e simples, com a aquisição de produtos que possam torná-las supostamente mais importantes.
 
O indivíduo subjetivado e detentor de certa cultura, por outro lado, sente-se mais frequentemente importante diante de si mesmo. Procura, e, não raras as vezes, encontra um caminho para fazer o que mais gosta, ganhando dinheiro com isso. Tem menos necessidade de consumo, por ocupar mais horas de seu dia com experenciações próprias, dentro e fora de si, como situações de auto-aprendizado, com seu próprio trabalho, que lhe é agradável ou motivo de paixão, com as pessoas em seu ambiente profissional, pois a escolha de seu trabalho também determina a qualidade de suas relações. E ainda, em alto grau, com a criação em geral, com sua solitude, com outras percepções e apreensões do mundo, que não necessariamente envolvem consumo, mas, em tantos momentos, até produzem insumos, tangíveis e intangíveis, reais e ficcionais, para usufruto próprio ou de terceiros. 

A subjetividade e a visão cultural também possibilitam ao indivíduo perceber melhor seus talentos e vocações, descobrir o que deseja profissionalmente, enxergar para além de modelos padronizados e ilusórios, encontrar formas singulares de vivenciar seus interesses, seus gozos, suas vontades, impor ao mundo seu estilo de vida e respeitar o dos outros, desconstruir sub-reptícios conceitos de culpa, romper com táticas visíveis e invisíveis de dominação, olhar o mundo com seus próprios olhos, criar seus próprios valores, transgredir saudavelmente e colaborar para um mundo melhor para todos. 

Um outro aspecto da aquisição cultural e artística são as escolhas que fazemos a cada produto que compramos, a cada roteiro de viagem que escolhemos, a cada filme ou programa de TV que assistimos, a cada música que ouvimos, a cada livro que lemos, a cada amizade que estabelecemos, a cada comida que comemos. O refinamento estético aliado à capacidade de discernimento crítico, à sensibilidade e à percepção da singularidade de quem somos, nos faz escolher melhor a cada situação em nossas vidas, sem que seja esta uma escolha necessariamente racional, mas, antes, um processo internalizado. O uso de nosso tempo, portanto, depende de escolhas. Decidimos a cada momento se faremos isto, aquilo ou outra coisa. E ainda, como e porque faremos, pois são muitas as ofertas do mundo.
 
Por fim, a visão cultural mais ampliada além de nos mostrar um leque maior de possibilidades, nos leva também a intuir, a partir do cruzamento de nosso arsenal de dados objetivos e subjetivos, opções que não estão visíveis, mas que podem ser criadas por nós mesmos.
 

Magno Mello

2 comentários:

  1. "A visão cultural mais ampliada além de nos mostrar um leque maior de possibilidades, nos leva também a intuir, a partir do cruzamento de nosso arsenal de dados objetivos e subjetivos, opções que não estão visíveis, mas que podem ser criadas por nós mesmos."

    Fechou de forma brilhante. Adorei!

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