terça-feira, 5 de novembro de 2013

A importância do ensino da música nas escolas

A música faz sentido por si só. Não precisa ser canção, não precisa ser acompanhada de uma letra para fazer sentido. Faz sentido, mesmo num mundo em que tudo o que sempre fez sentido, vem hoje sendo questionado. Valores, antes considerados eternos, absolutos, imutáveis, em outras palavras, muitas de nossas supostas verdades, que construíram nossa civilização, estão em cheque.

A arte, no entanto, e aqui mais especificamente a música, sobrevive como verdade em si mesma e, mais do que isso, como verdade humana. Quanto à plena legitimidade do dinheiro, do futuro e do passado, ou mesmo do que é bom ou ruim, certo ou errado, já não estamos bem certos. Mas, por mais que a música passe por momentos considerados "melhores ou piores", coisa difícil de se compreender em toda sua extensão, ainda assim não perde sua legitimidade. Há quem diga que poucas coisas além da arte sobreviverão como verdades inquestionáveis, exatamente por ser essa uma das mais ricas, íntimas, complexas e grandiosas manifestações da aventura humana, que atua de múltiplas formas sobre o indivíduo, inclusive para além de seus estados conscientes. É onda sonora, mas é também signo, não necessariamente explicável em palavras ou imagens, ou outra coisa racionalmente compreensível. Mas ainda assim, significa, ou seja, faz sentido. E embora, paradoxalmente, só seja compreensível por ser lógica, por ser matemática, o resultado dessa matemática inaugura algo misterioso, sensível, algo que no fim das contas ultrapassa a razão e tantas vezes, incide sobre nosso ser mais antropológico, mais intuitivo.

Algo que imagino todos sabermos é que a música tende a sensibilizar o indivíduo. E nesse sentido podemos dizer, antes de tudo, que essa sensibilização coloca-o no presente, no agora, no momento em que a vida acontece. Coloca esse indivíduo, portanto, mais consciente de si mesmo e do mundo a sua volta, ou seja, tende a desaliená-lo. A cada vez que isso acontece, novas "notícias", pessoais e sociais, vêm a tona, mesmo quando o indivíduo não se dá conta. De algum modo, portanto, o faz refletir, questionar sobre a ordem das coisas como se apresentam. O que vai na direção contrária ao entretenimento puro e simples, que tende a manter as coisas como são, geralmente trazendo apenas o conforto do descanso e do esquecimento, de si próprio e do mundo.

Mas por que a necessidade de transformação? Porque o mundo não está pronto, nunca esteve. Porque o mundo e a vida só fazem sentido se esse sentido for construído, tarefa que tantas vezes deixamos nas mãos de outros, que acabam por construir seus próprios sentidos e convicções por nós e sobre nós, no final dominando-nos.

Então, fazer música, fazer arte, tocar um instrumento, é não se deixar ser dominado por outros. Pelo menos não tão facilmente. E com mais uma grande vantagem: é permitir-se ser dominado pela beleza, essa mais profunda, que em outros tempos estava diretamente associada ao bem. Na Idade Antiga a beleza constava no estudo da Ética e da Lógica. Nos pensamentos de Platão e Aristóteles, o belo, o bom e o verdadeiro eram uma mesma unidade. A beleza era, portanto, valor moral. Somente na Idade Média começou-se a estudar a beleza - em especial a estética - separadamente das outras filosofias.

Se a beleza traz mais subjetividade ao indivíduo - e traz, conforme já dito, ao colocá-lo em contato mais direto consigo - é de se supor que também traga mais autoconhecimento. E não é difícil deduzir que o indivíduo, melhor se compreendendo, tende a compreender melhor o próximo, em suas questões, suas dores e alegrias, suas forças e fragilidades, enfim, em sua condição humana. E essa mais compreensão tende a se traduzir em mais compaixão.

Resta ainda um último aspecto: a educação musical, no sentido do consumo da música, das escolhas sobre o que ouvimos cotidianamente, na ampliação da nossa capacidade de absorver qualquer tipo de música, inclusive músicas ou gêneros a nós ainda desconhecidos ou de nós mais distantes.

A maior parte da população apresenta clara resistência em ouvir algo diferente de seu cardápio básico, especialmente qualquer música considerada própria de uma suposta elite cultural.

Isso parece também estar ligado ao que podemos chamar de "cultura de pertencimento". A música difundida pelos veículos de comunicação em massa é também recebida por essa população como um convite à inclusão social, ao pertencimento a determinados grupos sócio-culturais-ideológicos que, de muitos modos, prometem ser portos-seguros sociais, morais e até existenciais. A difusão é feita justamente com esse propósito aglutinador, para formação e manutenção dos rebanhos de consumo. Essa adesão se dá, antes de tudo, por um medo-da-solidão que se tem quando se pensa em trilhar caminhos intelectuais e sensitivos mais independentes, pessoais, subjetivos. E, claro, é a própria mídia que, de muitas formas, replica incessantemente a ideia de que não seguir as tendências da moda é correr o risco de se ficar isolado.

Paradoxalmente, talvez diante da evidente solidão instalada no mundo em que hoje vivemos, mais comum nos grandes centros, vemos surgir um crescente discurso inverso, o do seja-você-mesmo. Esse discurso é apenas o mercado mais uma vez se adiantando. Perante as evidências de que a promessa não foi cumprida, ou seja, que não bastou seguir a moda, as tendências, o que parecia ser o caminho mais seguro, para livrarmo-nos desse terrível fantasma do isolamento, a estratégia passa a ser a retórica sobre as possíveis vantagens da solidão, que imediatamente se liga ao consumo dos produtos customizados, personalizados. Cria-se, dessa forma, a partir da mesma técnica de pertencimento pelo consumo de determinado produto, um novo "braço" para continuar alimentando na população em geral essa sensação de não isolamento. Não que o pertencimento em massa tenha desaparecido, isso está longe de acontecer, se é que acontecerá um dia. Esse novo procedimento apenas reforça ainda mais os limites de "pastagem" humana, impedindo possibilidades recém-surgidas de fuga. E, dessa forma, continua inibindo o indivíduo a aventurar-se em si mesmo, o que pode colocar em risco as estratégias de dominação em massa.

Há, no entanto, nas artes um porto-seguro que parece ser mais legítimo, justamente por levar o indivíduo a ancorar-se, não em um produto externo e inanimado ou a ideologias de inclusão, mas em si próprio. No caso da música, por exemplo, é observável que quando se passa a conhecer noções básicas de harmonia, ritmo e melodia, quando se cria essa base mínima, universos sonoros, mesmo de algum modo desconhecidos, tornam-se curiosos, convidativos, deixam de ser perigosos ou ofensivos ao pertencimento. Não sendo mais tão desconhecidos, é possível com eles o indivíduo se deleitar, perceber as novidades sonoras atuando sobre si mesmo, causando transformações, geralmente até abstratas, mas supostamente benéficas, além de curiosas, indicadoras de novos caminhos, novos universos e sabores.

Talvez a absorção de conhecimento musical seja apenas um processo de destraumatização cultural, uma vez que um sem número de pessoas leigas, supostamente não educadas em música, são capazes de (e estão aptas a) se deleitar com qualquer tipo de música dita mais culta.

Surge, portanto, com a educação musical, isso que podemos chamar de "porto-seguro da arte", sendo a arte não o produto ao qual o indivíduo irá se ancorar, mas somente o instrumento que, por meio da beleza, de paisagens sonoras e semânticas, o levará a um maior contato consigo mesmo, com sua subjetividade, com sua originalidade. Somos todos seres únicos, com nossas histórias de vida únicas, nossas cargas culturais e imagísticas, e nossas configurações psíquicas únicas. E é certo que nos tornamos mais criativos e mais íntegros em nosso viver, quanto mais nos aproximamos de nós mesmos, desse ser único, não no sentido egoico, mas no do autoconhecimento, da experimentação desses movimentos intelectuais, emotivos e sensíveis que nos possibilitam afirmar nossa existência no mundo. E, sem dúvida, a partir da sensibilização promovida por essas evoluções e suas nuances, olhar para o outro de um jeito mais próximo a como olhamos para nós mesmos.


Magno Mello

A mulher

Não é preciso depreciar os homens para enaltecer as mulheres. Elas são lindas por si só.
E são o que são: misteriosas, evidentes, delicadas, decididas, intuitivas, racionais, tolerantes, histéricas, companheiras e sempre abertas ao amor.
 
Mulheres geralmente são coloridas, estão mais à vontade no mundo, é fácil perceber pela velocidade com que seus corpos respondem à música. E não há beleza e luxo com os quais não possam lidar; deixam-se seduzir, mas não se iludem facilmente.
 
O mesmo não se pode dizer com relação às palavras, é diante delas que mais costumam sucumbir, especialmente nas questões românticas. E ao ouvir palavras certeiras (ou será o timbre da voz?) se entregam profundamente, às vezes burramente, mas se entregam. O que no fim das contas só pode ser bom, pois mulheres tendem a terminar a vida menos frustradas que homens.
 
Uma das coisas mais intrigantes no mundo feminino é o gosto por sapatos. Tirando o lado estético sedutor, que de fato pode ser arrebatador aos olhos masculinos, imagino que tenha relação com o pisar o chão, experimentar a vida a partir da sustentação, da base, da coisa terrena; e talvez seja isso o que a mulher mais ensine ao homem – embora existam muitas que ingenuamente acreditam poder mudá-lo.
 
Que mulheres são loucas todo mundo sabe. E não adianta reclamar do pacote. Felizmente há duas categorias delas: as possíveis e as impossíveis. Mas mesmo as impossíveis tendem a encontrar seus pares; só não serei eu um deles.
 
Por outro lado toda mulher é uma flor. E todas têm sua beleza. Até a Ana Laura, minha cadela, possui aquela chama que parece desabrochar nos cílios. Sim, a coisa feminina vem, antes de tudo, dos cílios.
 
Quanto às mulheres inteligentes, há quem tema. E há também quem se sinta ameaçado pelas independentes. Conselho de homem para mulher: não tenha medo de demonstrar essas qualidades, do contrário atrairá sobretudo machistas e carentes afetivos – se bem que há quem goste.
 
Ainda poderia escrever tantas e tantas linhas enaltecendo esses seres adoráveis, mas paro por aqui, apenas com uma última observação: o mundo parece ser cada vez mais delas. E que assim seja. Nas mãos dos homens, ainda que tenhamos caminhado tanto em tecnologia, quase nada resolvemos de nossas aspirações mais profundas. Quem sabe daqui para frente aprenderemos a lidar melhor com o amor e a equidade? Sim, nós homens continuamos em frente - e ao lado - mas agora é a vez das meninas, não resta dúvida.
 
Só não se esqueçam da poesia.


Magno Mello

A inspiração

Pode existir um ateu religioso? Espero que sim. Pois não acredito em nada do suposto lado de lá. Mas não consigo explicar, a não ser religiosamente, a inspiração. É um grande mistério, não aleatório. Não tenho dúvida: seu produto já estava pronto. Onde? Por quem?
 
Mas antes fosse somente isso. É ainda uma resolução silógico-intuitiva que vem acompanhada de beleza, aí que está o improvável. Chega-se em algum lugar outro, de modo algum previsto intelectualmente, onde a matemática e o instinto confundem-se com a estética, embora até isso seja apenas o começo. Não precisa me lembrar que há muita lógica no belo. Falo é da coincidência, do momento exato em que uma e outra coisa, além de todas as outras, se encontram e se misturam. Como pode a música tocar o coração, não sendo apenas signo? E não é. Assim como as combinações de cores que nos provocam inomináveis religares; ou basta uma pincelada de amarelo Van Gogh. Sem falar no arrebatamento. Ah...o arrebatamento, que lugar é esse? De repente, você é suspenso. Por que mãos? No entanto, se é puxado pelo plexo. A coluna se arqueia. E lá está você, possuído, diluído, espalhado, e mais densificado que nunca, enquanto as ideias lhe ultrapassam e incríveis mosaicos apenas se desembaralham. A inspiração é fogueira de fagulhas detalhadas, cada uma delas transformada em uma palavra, uma nota, uma cor, um ponto, a compor o todo em combustão, até o resfriamento final. É uma loucura momentânea, quando se enxerga algum deus, que certamente não cabe em si mesmo, quanto mais numa religião. Na verdade, não cabe, por isso transborda. A inspiração vem de algo cheio e ao mesmo tempo vazio, brota como um big bang, implode para fora, explode para dentro. De repente, faz existir. A inspiração é uma reza. Uma liturgia profana. É em si. Assim como está se tornando este nosso planeta de símbolos desconstruídos. Seremos mais inspirados? Deus queira, ateiamente falando. A inspiração, enfim, é tudo que foi inventado neste mundo. E dá-lhe inspiração para reinventá-lo.


Magno Mello

O desaparecimento do futuro

Já reparou que nossa relação íntima com o futuro vem diminuindo? Pense no que representava o futuro há dez anos. E no que representa agora. Especialmente pelo modo solene com que olhávamos para ele. O futuro não só ocupava mais horas de nosso dia, de nossos sonhos e objetivos, e também de nossa fé, como, até muito pouco tempo, vivíamos por alguma coisa ligada a essa ideia de que o futuro era bom, justo, premiador, a mesma noção que tínhamos de progresso. Até ontem o progresso era o bem maior, caminho inconteste rumo à felicidade. E, finalmente, futuro e progresso estavam indissoluvelmente ligados. Assim, elaborávamos em nossa cabeça, e na vida, um caminho e até mesmo um suposto destino, de antemão.

Mas, de repente, esses planos que traçamos durante anos, em nome de tantas supostas verdades, parecem agora nos fazer menos sentido. E neste momento de desencanto somos finalmente obrigados a admitir: o futuro nunca houve, sempre foi algo inventado por nós.
 
Gregos e romanos antigos não tinham o menor interesse pelo tempo vindouro, simplesmente a ideia não lhes fazia sentido. Quanto ao passado, a coisa era de no máximo um século para trás. Antes disso, só havia passado mítico - que também era presente - de deuses, ninfas, heróis impossíveis, plêiades e outros tipos mágicos e exóticos.
 
Outro exemplo interessante vem dos Nueres, da África, possuidores de dimensão do tempo tão curta e pouco profunda, que a árvore de qual a humanidade recebeu a própria vida, ainda estava de pé há alguns anos, a oeste do país. Fenômeno que não deixa de se assemelhar com a crença que hoje dispensamos a um certo futuro, também mítico, mas querendo-se possível, ao nos colocar em contato emocional com as incríveis possibilidades da ciência, que um dia, num tempo não tão longínquo, poderão nos salvar de todas as mazelas da vida, até da morte. Mas, quanto ao futuro mais próximo, esse que temos pela frente ao longo de nossa vida, não nos tem despertado tanto interesse como antes. Justamente quando parecia faltar tão pouco, que o progresso nos salvaria, as máquinas trabalhariam por nós, que havíamos conquistado algum conhecimento técnico e humano propício à felicidade.
 
Por isso, o futuro tornou-se por um lado mítico, em que o mito maior é a ciência-quase-magia, num tempo em que provavelmente não estaremos mais vivos, e, por outro, no tempo de nossa vida, tornou-se amorfo, sem cara, sem legitimação antecipada, sem verdades pré-estabelecidas. E é nisso que reside o drama atual, pois era justamente nesse espaço de tempo, o de nossa vida, o lugar onde criávamos e consolidávamos nossa identidade. Havia um sentido em ser quem éramos. E esse sentido nos era dado pelo futuro. Enquanto o passado nos dizia quem éramos, o futuro nos dava o sentido. Hoje, o que significa esse futuro? E o progresso? Estamos avançando para que? Apenas para um contínuo gozo hedonista até a morte? Não há um “bem” no final? Não há um sentido?
 
Para diminuir nosso desconforto, surge no fim do túnel uma pergunta razoavelmente mais calorosa: quer dizer que para gregos e romanos a vida não fazia sentido, uma vez que não possuíam futuro e nem pareciam tão interessados no passado? É bom lembrar que naquela época o tempo era, acima de tudo, circular, ainda não existia um tempo linear, esse que conhecemos, que aponta para o futuro, inaugurado pelo cristianismo a partir do nascimento de Cristo, data fundadora de nosso calendário. Nem mesmo havia a noção de progresso em nossa mentalidade, que veio se instalar apenas a partir da revolução da imprensa de Gutemberg, em 1439, por aí, culminando no século XIX, segundo Le Goff, com Pierre-Simon Ballanche, escritor e filósofo francês, em sua “teologia do progresso”. Foi, portanto, entre esses séculos, do XV ao XIX, que se instituiu no pensamento comum a ideia de progresso. E de progresso ser um bem, um caminho para a felicidade.
 
Então, a que os gregos e romanos se apegavam para que a vida fizesse sentido? A um bálsamo não menos consistente que nossa ideia de futuro: a chamada verdade mítica. Naquele tempo, magia, história e ciência eram uma só coisa; deuses habitavam a terra, tudo era possível. Nem sequer havia, antes de Platão, entre os pré-socráticos, qualquer objetivo de se alcançar a verdade por meio da ciência. Não havia necessidade da verdade. Observava-se e pensava-se o todo, por todos os lados, inclusive os lados místicos, e as cartas permaneciam abertas; e só. Talvez intuíssem já naquela época que “verdade” seria sempre algo ilusório, existindo apenas na imaginação do indivíduo. E mesmo a verdade dos deuses eram muito pouco sólidas, possuíam esses múltiplas personalidades, sempre sujeitos mais ao próprio humor do que a uma moral sedimentada.
 
Voltando ao mundo dos vivos, o que temos agora, além do vazio deixado pelo declínio do futuro e de nossas grandes verdades? Como poderemos colocar um novo sentido nesse vácuo? Como consolidaremos nossas identidades individuais em direção ao futuro? Apegados a que? A primeira pista parece ser esta: estamos de volta ao presente, mais do que nunca preocupados com a própria sobrevivência, correndo de um lado para outro, para dar conta do agora. Não é exatamente o aqui e agora preconizado pelas sábias filosofias orientais, próximo do estado meditativo. É algo mais tenso, mais parecido ao bicho na selva, em permanente estado de alerta. Então, voltamos à selva. E, de repente, desconfiamos que sempre estivemos lá, que somos e continuamos a ser, de fato e inexoravelmente, animais. No entanto, temos uma vantagem, um dom, que os bichos não têm, e que pode ser a segunda boa pista para sobrevivermos a esse atual esvaziamento das perspectivas: temos o dom de criar. A própria história humana pode ser traduzida em criação, desde a primeira pedra lascada, passando pelas línguas, crenças, leis, civilizações, objetos de todos os tipos, até os supercomputadores. Tudo em nosso mundo é criação, intelectual e material. E, mais do que acreditar nas coisas, essa é nossa maior vocação. Portanto, se é preciso um sentido, que se crie. Faz-se necessária a verdade? Que se crie, mesmo sabendo que sentidos e verdades não se perpetuarão. Criar é construir sentidos. Criar é construir os próprios sentidos, o mundo, a cada dia, para não ter que viver uma vida subordinada aos sentidos de outros.
 
Pode ser por isso que gregos e romanos não sentiam falta do futuro, possuíam a magia dos deuses em lugar de muitas verdades, embora não todas, e a arte lhes dava sentido. Arte era um termo também utilizado para se qualificar a vida. Viver com arte era um tipo de arte, o mesmo que fazer arte, ou criar, no caso a própria vida. Que no fim das contas significava e ainda significa estar pleno consigo, viver o presente, conhecer-se, entregar-se. E quando isso acontece até a palavra sentido deixa de fazer sentido, assim como a palavra verdade, sendo que verdade só existe uma: a sua. E jamais será a mesma de ontem ou igual a de outro. O sentido, da mesma forma, é enquanto é, jamais pode ser conquistado, consolidado, embora gostaríamos de pensar que sim. Mas já não tem como.



Magno Mello

A Grande Lógica

Imagino que cada um tenha sua lógica para condução da própria vida. Penso também que na complexidade de um percurso entre nascimento e morte devam existir as pequenas lógicas, as médias e uma grande lógica que, por assim dizer, define grosso modo o conjunto da obra. É claro que boa parte dos indivíduos vivem suas vidas a partir de lógicas emprestadas que muito pouco têm de si mesmos. Mas pensando nos que têm uma noção geral do que estão fazendo com suas vidas me movo para escrever este texto.Tentarei descrever, pois, para minha reflexão e alheia, e como ilustração de um caminho possível entre infinitos, o que penso estar fazendo com minha estada por aqui.
 
Desde sempre, ou a partir de quando demonstrei algum talento para o esporte, mais especificamente para o tênis, passei a entender, tanto por motivos de expectativas minhas e de outros, quanto da significação racional e emocional que tirei de minhas experiências, que para ser amado precisava fazer algo, e algo especial. Em outras palavras, signifiquei quase todo o amor em minha vida como condicional. E, sem dúvida, usei meus talentos para obter o afeto que julgava precisar, como todos o fazem, embora tenha confundido ser amado com ser desejado; coisas de garoto.
 
Minha arma, a princípio, até vinte e poucos anos, era uma raquete de tênis. E, ainda que por transferência, fui bem sucedido, pois durante toda a adolescência e juventude me lambuzei e me autopremiei com uma sequência absurda de conquistas amorosas. E mesmo depois que perdi meu poder com a raquete, aproveitei esse histórico de Dom Juan como base emocional para novas seduções.
 
Até que um dia o amor me pegou de jeito, me deixou sem chão, sem defesas, e me fez ver quem eu realmente era. E vi que não era nada do que gostaria de ser ou do que pensava ser. Foi ali que compreendi o quanto havia negligenciado o que naquele momento me pareceu mais caro: meu aprofundamento intelectual e moral. Ficara tão ocupado com meu hedonismo que me esqueci de transformar-me numa pessoa íntegra comigo mesmo.
 
Depois de um tempo o relacionamento acabou. Mas aquela marca ficou. E resolvi me dedicar mais seriamente à minha formação humana e cultural. Mergulhei nos livros, na composição e em tudo que me fizesse entender quem eu era, quem eram as pessoas, o que era o mundo, e o que era minha vida além daquele tão pouco que enxergava. Nesse tempo vendi o ágio do meu apartamento, abandonei meu trabalho e decidi que iria, finalmente, me dedicar só à música e à escrita, custasse o que custasse.
Quando saí desse primeiro mergulho de doze a quatorze horas por dia de estudo, durante dois anos e meio, muita coisa havia mudado. Minha moral era outra, meu caráter mais refinado, já não era tão ignorante e me importava muito mais com as pessoas. E continuei em ritmo acelerado de estudo por alguns anos, porém, já coordenando meu tempo com trabalhos na música e no jornalismo.
 
Pela primeira vez na vida senti que havia criado algo sólido e com alguma profundidade. Se antes era conduzido pelos sabores e dissabores do vento, agora havia voz de comando. E mais ainda, não só comandava como enxergava para onde levava minha vida. Comecei também a perceber melhor como o funcionava o mundo, como as regras eram feitas e até como poderiam - e porque deveriam - ser desconstruídas, caso eu quisesse realmente mandar em minha vida e não deixar que outros mandassem nela por mim. Foi um período glorioso em minha mente e meu espírito.
 
Mas com o passar do tempo caí em duas armadilhas. A primeira, é que mais uma vez coloquei meu fazer, agora intelectual, como condição para ser amado; não havia me livrado disso. Por outro lado já não me importavam as conquistas amorosas, havia conquistado meu próprio graal, embora o usasse da mesma forma, pois qualquer sensação de não fazer me colocava em perigo emocional, me deixava inseguro.
 
A segunda armadilha é que, mesmo lidando com objeto sensível, no caso a música, racionalizei minha existência ao extremo. Acreditei que havia alcançado o sentido da vida com a razão, que havia subjugado o rumo das coisas, que estivesse controlando esses rumos com meu esforço e minha disciplina. O que não se confirmou de forma nenhuma. E mais uma vez tive que dolorosamente voltar atrás.
 
Mas por todo esse percurso anterior de tantos anos de estudos e dedicação ganhei, por assim dizer, uma sobrevida. Fui a certos buracos profundos mas não novamente ao fundo do poço. E quando voltei desses recônditos escuros da existência percebi que aprendera coisas importantes para fazer da minha vida o que bem entendesse, mesmo tendo que pagar alguns preços, que me vi plenamente disposto a pagar - e não tenho a menor dúvida de que vale mesmo a pena pagar o preço dos sonhos.
Hoje ainda luto para ser, acima do fazer, embora saiba que amor incondicional, só mesmo de mãe. E também procuro viver com equilíbrio entre razão e emoção, só não deixando de vez em quando de visitar os extremos de um e de outro, para não engessar procedimentos, nem envelhecer antes do tempo.
 
Claro que não descobri a fórmula da felicidade. Se bem que muitas vezes acredito que sim, pelo menos da minha. E isso, mesmo que sofra, pois jamais deixo de acreditar que sou feliz. Posso passar maus momentos e passo. Mas olho para trás e sinto que não faria nada diferente, nada, nem mesmo quando estou sofrendo.
 
O mais importante dessa jornada, no entanto, foi ter desconstruído alguns mitos profundos. Primeiro: que não podemos fazer o que queremos. Podemos, basta estarmos prontos para pagar o preço de nossas escolhas. Segundo: que as “coisas” nos fazem mais felizes. Não fazem. Terceiro: que existe alguma verdade no mundo. Não existe, tudo é inventado. Quarto: que sem alguma verdade não podemos dar sentido às coisas. Podemos, mas o sentido tem que partir de dentro, de onde nem existem palavras para que se possa construir supostas verdades. Quinto: que alguém sabe algo sobre o que é melhor para você. Não sabe, as formas de se viver e de ser feliz são infinitas. Sexto: que há regras que não podem ser negadas. Todas podem, mesmo que haja um preço; mas esse preço muitas vezes é menor do que a princípio acreditamos.
 
E agora por outro ângulo. Sétimo: quando alguém dá um conselho, geralmente está falando de si próprio, de seus próprios medos. Oitavo: ninguém está apto a dizer como é melhor se viver, nem mesmo os especialistas. Nono: os especialistas muitas vezes são ignorantes com relação a quase todas as outras coisas. Décimo: até que se prove o contrário a vida é uma só, vamos todos morrer e azar de quem se arrepender, porque eu não vou.
 
Portanto, minhas pequenas lógicas, e também as médias, são as seguintes: desafio qualquer pessoa que diga que não estou no caminho certo, faço minha vida exatamente como a quero, só faço praticamente o que gosto, ninguém manda em mim, não aceito patrão, nem chefe, inventei minha própria profissão - que nem sei exatamente qual é e nem quero saber - inventei meu jeito de viver e de olhar para o mundo, quase sempre faço meus próprios horários, só acedo a regras que realmente acredito, e o amor e a arte são meus bens mais preciosos, e por isso, inegociáveis.
 
E eis minha grande lógica: minha vida é também dedicada a mostrar que se um viver é legitimado por si próprio, então só pode ser legitimo. O resto é que é ilusão.

Magno Mello

O sentimento neoliberal

Em recente almoço familiar sou apresentado a um casal, convidado de minha irmã. Inicio amistosa conversa paralela com o marido, enquanto a esposa fala com o restante dos poucos presentes. Rapidamente meu assunto com ele passa a girar em torno de economia e mercado. Numa dessas argumentações quaisquer, observo que, segundo dados publicados num artigo da revista Le Monde Diplomatique, do qual já falei em texto anterior, apenas 387 pessoas espalhadas pelo mundo comandam 80% da economia global. Ele me pergunta, sem nenhuma cerimônia: "Qual o problema desse volume econômico estar nas mãos de tão pouca gente?"
Meio atônito com sua pergunta, respondo que o poder está se concentrando cada vez mais, pelo menos desde meados da Era Moderna para cá, e, se continuar assim, daqui a pouco estará nas mãos de umas cem pessoas, se muito. Cito o exemplo de que a distribuição de renda na economia americana, ao contrário do que muita gente supõe, vem decaindo desde os anos 70 e, hoje, cerca de 50% da população dos Estados Unidos é considerada pobre, opinando que isso está, em boa parte, relacionado à concentração de poder.
Eis sua resposta: “Sinceramente, desde que eu esteja entre essas cem pessoas, não vejo problema nenhum nisso”. E acha graça de sua “presença de espírito”. Não lhe respondo, viro às costas e me volto ao grupo.
É claro que não dá para generalizar, mas também não dá para negar: o pensamento externado por esse cidadão não deixa de representar, em maior ou menor grau, o sentimento neoliberal. Pode-se retrucar, mas há verdade nisso. O neoliberalismo não se importa com os excluídos. O discurso de que o livre mercado gera mais empregos, independentemente de gerar ou não, nada tem a ver com consideração, comiseração e ou respeito humanos.
Tenho uma tia enquadrada no pensamento neoliberal e sua resposta, quando questionada sobre os pobres, excluídos, escravizados, explorados e sacaneados, é essa: “Não há lugar para todos no mundo, é simples”. Há outro discurso corrente no pensamento neoliberal: “Lugar, muitas vezes há, as pessoas é que não querem trabalhar”. O que é argumento insidioso. As pessoas não querem, isto sim, ser exploradas, apenas isso. E não somente por meio de baixos salários, às vezes o problema nem é esse, mas por todo um leque de miseráveis obrigações, inclusive trabalhar em profissões imbecilizantes e ou coisas que detestam. Todos têm sonhos. E os sonhos humanos não se diferem tanto uns dos outros. São sonhos de liberdade e realização, para ricos e pobres, patrões e empregados, instruídos e ignorantes, inteligentes e burros. Mas, ainda assim, a necessidade – ou a crença dessa necessidade – vence. E a maioria trabalha, cada vez mais, para sustentar esse sistema.
O pior do sentimento neoliberalista, no entanto, é não ter limites. Sua vocação é crescer até explodir. Não tem outro propósito, a não ser aumentar as empresas, o consumo e diminuir o sentido. Sua tarefa não é alimentar o mundo, a revolução verde e de alimentos em geral gerou um aumento desmedido da população mundial e não o contrário. Seu objetivo não é tornar as pessoas mais felizes, apenas oferecer-lhes mais produtos, mais açúcar e mais sal.
O neoliberalismo é imediatista, não se importa com as consequências, não se importa com o ser humano, com o bem estar, o câncer, a poluição, o trânsito, a amizade, o amor, o estresse, a arte, a cultura, as crianças, os velhos, os sonhos, não se importa com a vida. E que ninguém se engane: o neoliberalismo é hoje de direita, de centro e de esquerda. O neoliberalismo está. O comunismo caiu. O socialismo também. Os Estados de bem-estar social estão naufragando.
O neoliberalismo ainda está no auge, apesar de vir dando errado há quarenta anos ou mais. No mínimo desde quando os Estados Unidos iniciaram sua curva descendente na distribuição de renda. O neoliberalismo é o filho predileto do capitalismo. O neoliberalismo é mau. O neoliberalismo não será.


Magno Mello

Bienal

Acompanho as artes plásticas há muitos anos. E acho que têm muito a ver com música; equilíbrio, forma, ritmo e, especialmente, cor. As cores são notas musicais, são acordes, e vice versa; especialmente quando misturadas. E o melhor de tudo: são outras notas e outros acordes, abstratos, transfigurados, diferentes dos que entram pelo ouvido. Ainda assim, ouço música, e não outra coisa, ao olhar uma boa obra - para ser sincero, as más obras também produzem em mim o mesmo efeito.
E lá vou eu à Bienal, de coração e olhos abertos, flexível, preparado pra tudo, sem desconfianças prévias, apesar da última edição não ter sido das melhores. Talvez por isso tenha preferido ir sem qualquer informação de antemão; crítica, matéria, nada. Palavras são palavras, arte é outra coisa. Isso quer dizer que venho falar também de outras coisas.
Na entrada me deparo com arte eletrônica: várias telas de tv exibindo algo a que não dediquei muita atenção – não chamou minha atenção. Talvez meus olhos ainda estivessem voltados mais para dentro até aquele momento, como ao entrar numa festa cheia de gente bonita, principalmente por certa timidez, comum aos mais introspectivos. Mas é possível que fosse algo sem graça; para mim, claro. De qualquer modo, procurei não julgar, apenas seguir em frente.
Não pretendo citar aqui essa ou aquela obra, além de achar isso chato não acredito que se possa traduzir arte com meras palavrinhas, redigo. Portanto, minhas observações serão de caráter geral, sobre tendências, curiosidades e apenas um ou outro comentário particular, nem sempre referente à arte, mas que não deixa de estar vinculado a ela.
Após percorrer as primeiras montagens, uma impressão inicial: trabalhos estruturados por uma infinidade de repetições ou “quase-repetições”. Explico melhor: um grande painel contendo dezenas e dezenas de bolsos traseiros de calça, enfileirados, alinhados em diferentes formatos. Outro: centenas de fotografias tiradas no mesmo local, na mesma hora, com a mesma pessoa, dia após dia; trabalho que gerou também um vídeo. E mais uma série de instalações com as mesmas características, como se o artista (talvez inconscientemente) quisesse impressionar ou se afirmar, ou se traduzir, pela quantidade ou até pela arduidade da obra; especialmente em casos de desenhos infantis (literalmente)ou infantilizados, colocados lado a lado, em séries intermináveis.
Mas a quantidade também se manifesta em mosaicos de objetos cotidianos, amarrados, colados, pendurados, postos, atirados, entre outras possíveis formas de se alojarem na obra. Nesse sentido, um nome chama a atenção: Arthur Bispo do Rosário. Se fosse atleta seria o campeão da modalidade. Juntou em sua obra todos os objetos que viu pela frente, sucatas, em geral, misturados a um incrível trabalho de bordado. Dessa forma criou seu monumental universo escatológico, ao longo de quase meio século em que passou internado em instituições psiquiátricas, e cumpriu sua missão divina (pois recebeu um chamado): fazer um inventário, para Deus, de tudo que havia neste mundo: coisas, lugares, pessoas etc, apenas com cacarecos, lixo e bordados. É de chorar.
Como não podia deixar de ser, em qualquer mostra que se pretende chamar “Bienal”, “plural” e “democrática”, há grandes contrastes e não são poucos: obras minimalistas, quase nuas, instalações beirando o niilismo, como um conjunto de telas em branco, de molduras simples, simetricamente alinhadas na parede. Só. Daí, cada um vê o que quer, o resto são palavras, blablabá que definitivamente...não corresponde à arte. Se é que aquilo é arte. Se é que não é. Se é interessante? Pode depender do dia, do clima, do que você comeu no café da manhã, se está apaixonado(a) etc. Enfim, ninguém sabe nada, nem mesmo o que sente. Estamos atravessando o mundo à nossa volta, o tempo, e ainda, concomitantemente, nos atravessando. Há alguma fixidez nisso? Alguns de nossos conceitos podem até nos parecer sólidos. Mas são apenas conceitos...apenas mais palavras, ideias que um dia surgiram na cabecinha de alguém, geralmente algum espertalhão.
Ultrapassando agora os extremos, as incontáveis “invariações” sobre o mesmo tema, e algo como dois gravetos atrelados a uma bolinha de pingue-pongue, num espaço de trinta metros quadrados (essa obra é minha), surge em mim uma segunda impressão: boa parte das instalações interativas convidam à novas construções dos sentidos e do olhar. Mas isso é novidade? Assim me pareceu. Nas últimas décadas os trabalhos visuais tenderam muito mais à desconstrução do que a construir o que fosse. Numa das instalações, frutas e legumes recobertos e como que reafirmados por grossa camada de espécie de lava, preta, seca. Em outro ambiente, pequenos desenhos de objetos, animais, máquinas em geral, cada um acompanhado por um mini autofalante emitindo o som ou o nome da coisa representada. Além desses, uma linda e improvável sala de estar com enfeites insólitos ou tradicionais, e belos bordados em cestos, peneiras, raquetes de tênis e redes de limpar piscina. Considero todas essas obras formas de afirmação, sedimentação, numa época em que muitas de nossas verdades caem por terra, a cada dia, em velocidade acelerada. É apenas uma leitura entre tantas possíveis e impossíveis.
Outro fato, no entanto, me chama a atenção e reitera minhas impressões: a presença significativa da pintura. Parece-me o retorno - ou a reafirmação - de algo importante. Ou pode ser apenas o declínio dessa caretice de muitos curadores não acharem a pintura uma arte contemporânea. Como disse T.S. Eliot: “A cultura efetiva é aquela que está dirigindo as atividades daqueles que estão manipulando aquilo que eles chamam de cultura”. E, no caso, tomara que a própria cultura derrube de vez essa ideia estapafúrdia, tola mesmo, da pintura não ser contemporânea. É possível uma geração de produtores e críticos afirmar que o piano não tem mais lugar na música moderna? Isso se sustenta? Pois está aí a pintura de volta à Bienal, se não em grande estilo, por haver outras combinações de gravetos e bolinhas de pingue-pongue, agora em estado pictórico, salva-se por alguns trabalhos que fazem valer a pena o percurso.
Outra forte impressão me invadiu por conta da volumosa autorreferência artística. Muitos foram os trabalhos em que o artista aparece na obra. Alguns, não só fazem sentido, especialmente nos casos de vídeo-arte, como a performance artística é o centro da obra, sendo muitas vezes o artista submetido a dores, esforços físicos radicais e muita poeira. Mais uma vez me pareceu uma legitimação artística pelo esforço, como se fosse este um novo termômetro para julgar o que é válido ou não artisticamente, numa época em que faltam critérios mais sólidos. O esforço é sólido.
Uma última observação artística: as palavras tomaram conta das artes plásticas. São muitos os trabalhos que apresentam profusões de letras, sílabas, palavras, frases, textos inteiros, de todos os tipos. Não chega a ser poesia, nem prosa. É outra coisa que talvez ainda não tenha nome. E certamente não sobrevive sem o visual. Mas é algo, ou está tentando ser. E uma coisa é certa: as artes visuais estão definitivamente migrando para os nossos outros sentidos. Alguém mais radical diria: “hoje mais tocamos, cheiramos, ouvimos, fotografamos e lemos as artes plásticas, do que propriamente as vemos”. Não chega a ser assim, até porque o negócio teria que mudar de nome.
Ficam agora minhas derradeiras impressões mais sociais que artísticas: foi legal ver os gays transitarem à vontade pelo ambiente, de mãos dadas, homens e mulheres, trocando carinhos discretos, assim como os heteros, sem preocupações de serem agredidos, criticados, sacaneados ou enxovalhados, ao menos naquele momento. Numa boa, não sou gay e já passei da época de me tornar, mas dizer que dois homens juntos trocando carinhos é algo agressivo, é simplesmente ridículo. Vemos todos os dias imagens de gente morta, despedaçada em tragédias, assassinatos e acidentes, e até com isso nos acostumamos; embora não devêssemos. E a maioria de nós, homens e mulheres, ainda com essa frescura de achar feio ver duas pessoas que se gostam, muitas vezes se amam, trocar afetos publicamente. Isso também é questão de educação estética.
E, finalmente, deixo essa para reflexão: quando todos os valores, verdades, conceitos, palavras, sentidos e ilusões forem de vez por água abaixo, pois é tudo coisa inventada por gente mesmo, a arte será uma das grandes estrelas da vida. Nascemos para criar e para nos alimentar de criação, não para obedecer, não para imitar. Criar a verdade a cada dia: eis uma boa condição para que ela possa existir.



Magno Mello

Sobre criação artística

Conceito

A criação requer conteúdo antecipado, conhecimento, vivência, subjetividade.
Isso quer dizer que se pode ter uma boa ideia, mas se não houver conteúdo, preparo suficiente, é improvável que essa ideia se transforme num bom conceito, em algo que valha a pena existir no mundo, a não ser como uma espécie de droga para o próprio ego.
Uma das principais exigências do conceito é a sensibilidade para se detectar hiatos no conjunto do que já existe.
E também há que se enxergar a filosofia invisível por trás de todas as coisas, que tenham conexão com algum tipo de sentimento humano, que sejam comunicáveis, transformadoras e que façam sentido.
Não existe conceito se não houver sentido.
Conceito é também capacidade de síntese; aliás, o conceito geralmente já é algo bastante sintético, que comprime várias ideias dentro de uma ideia, rico em possibilidades de desdobramentos, concretos e ou abstratos.
E, por fim, para se obter um bom conceito é importante que se saiba redefinir situações, desconstruir o previsto, ou seja, inventar outras formas para se transmitir determinado conteúdo.
               
Mergulho e afastamento

Certa vez li uma passagem do dramaturgo Autran Dourado em que ele dizia - não me lembro das exatas palavras - que para um autor emocionar seu público, deveria deixar de emocionar a si mesmo no momento da criação.
Isso teve profundo efeito sobre mim à época, pois percebi ali a importância do afastamento, do saber olhar com distanciamento a própria criação, com visão crítica, e assim poder lapidá-la a contento, sem permitir a obnubilação do bom senso pelo ego.
Hoje acredito que isso seja apenas a metade da história. A outra metade consiste sim, num mergulho apaixonado, febril, dilacerado e, muitas vezes, egóico.
Percebi que esta é justamente a grande dificuldade de se criar algo significativo e tocante: conseguir mergulhar profundamente e num instante seguinte afastar-se, alçar vôo e olhar a coisa de cima, criticamente, racionalmente, e logo em seguida mergulhar de novo na afetividade, na emoção, e repetir a ação por muitas vezes, até se chegar a resultados satisfatórios.

Subjetividade

No processo criativo nada é mais importante do que se chegar à própria subjetividade, nesse encontro consigo mesmo. 
Pois toda subjetividade traz em si um percurso emocional, racional, visual, tátil, auditivo - entre outros - único; ou seja, uma história de vida singular.
Quanto mais perto chegamos de nós mesmos no momento da criação, mais chances temos de trazer à tona algo que soe novo, que tenha frescor, que seja original, acima da expectativa comum.
Para se criar um produto com qualidade suficiente para arrebatar um interlocutor - e isso não é nada fácil – é preciso, portanto, possuir essa capacidade de traduzir-se em ideias, a partir de nossa mais profunda intimidade: a que mora antes mesmo das palavras e dos signos. 


Magno Mello

Feios e bonitos

Bonito mesmo são as pessoas se achando bonitas. E postando suas fotos sem vergonha de ser quem são, julgando-se bonitas. Muitas podem até ser feias. Mas para quem?
Já ri da cara de algumas, confesso. E por que não ririam da minha? Até as pessoas lindas (o que não é o meu caso) podem ser feias, basta olhá-las com cuidado. Ou pegá-las em seus momentos de feiúra. Quem não os têm? Já vi pessoas lindas horríveis e feias bonitas, dependendo da luz, de fora e de dentro, enfim, do momento, coisa que todos sabem.
E quem garante que as lindas não serão feias daqui a dez anos? Já testemunhei muita gente feia se tornar bonita e vice-versa, especialmente da adolescência para a juventude. E também da fase adulta para a velhice. Nascer e morrer bonito é para poucos. Nascer e morrer feio...aí é melhor deixar pra lá.
É por isso que beleza é beleza: é menos comum. Mas às vezes desconfio que seja apenas isso. Desconfio, pois, da simetria, como padrão do que é belo. Principalmente ao olhar a Uma Thurman...que gostosa! E a exemplo de feiúras risíveis, belezas extremas também podem ser engraçadas.
Não tenho dúvida de que as mulheres têm mais talento para apreciar a beleza. Uma amiga linda acha lindo o Willem Dafoe. E se ela acha, ele é. Da mesma forma, se alguém "curte" a foto postada de uma pessoa feia, essa não é feia, não importa por qual parâmetro. E se ninguém "curtir", mas a pessoa estiver lá toda sorridente e feliz, também não é feia. Porque feio, no fim das contas, é quem não é bonito para si mesmo. E aí, definitivamente, a coisa é séria: achar-se feio dessa forma é ver feiúra em toda, ou quase toda, a família, triste assim.
Duas considerações extremas: Hitler: não se achava bonito o desgraçado? Mas, Gandhi, do mesmo modo, não se sentia lá, de certa forma, bonitão? Duvido que não. Isso, para não nos esquecermos (jamais) de que ser bonito é ser exatamente esse que se é, com todas as forças.
Quem quiser, portanto, ficar choramingando de  ter os olhos mais juntos, queixo maior ou bunda menor do que gostaria, que se mereça. E aos feiosos que se amam e vivem postando suas fotos e poses, caras e bocas, deixo aqui meu abraço e minhas saudações. Analogamente, parafraseando um louco - que muitas vezes pode se sentir lindo e horrível em curtíssimo espaço de tempo, o que não difere muito dos considerados normais: mais feio é quem me diz que não é feliz. Nesse caso, a não ser que se tenha um motivo profundo - que nem posso imaginar qual - feiúra maior não existe. No entanto, prefiro fechar com a beleza, pois é nessa condição que me sinto. Ta fechado.


Magno Mello

Características gerais e comuns em um artista

1 - Artista não pensa primeiro no dinheiro.
2 - Artista gosta de aparecer
3 - Artista joga tudo para o alto e vai ser artista
4 - Artista não é profissão que se escolha
5 - Artista é tomado por uma grande certeza entre milhões de incertezas
6 - Artista quer fundir-se com a beleza
7 - Artista mergulha no caos
8 - Artista brinca em serviço
9 - Artista sofre mas sabe que sofreria mais se não fosse artista
10 - Artista surfa na obsessão
11 - Artista é inseguro
12 - Artista não consegue não sê-lo mesmo que tente.
13 - Artista entende que a angústia não é inimiga.
14 - Artista sabe que o mundo o olha com admiração e algum desprezo.
15 - Artista vê o mundo como ele é: uma grande e séria brincadeira
16 - Artista vive o mistério
17 - Artista quebra regras
18 - Artista vê o mundo do jeito que quer
19 - Artista não se subordina facilmente
20 - Artista ouve de um jeito e faz de outro
21 - Artista corre perigo
22 - Artista depende do público
23 - Artista chora e ri ao mesmo tempo
24 - Artista sabe que fã existe
25 - Artista é instrumento
26 - Artista viaja
27 - Artista transforma
28 - E, considerando todas essas particularidades, artista é artista.

Magno Mello 

Uma cena de metrô

Lá estava eu naquele dia num vagão de metrô em São Paulo. O trecho era curto, apenas quatro estações, da Trianon-Masp até Sumaré. Vinha de uma exposição do expressionismo alemão no Masp e ia a uma sessão de psicanálise, tudo delícia embora tudo tão denso – lembrei-me de doce de leite em pasta colocado no congelador. Já comeu? Prove! 

Das coisas prazerosas havia também o fato de estar de metrô, sem ter que enfrentar o trânsito horas a fio, o trânsito, sem mais adjetivos possíveis, de Sampa. E ainda me lembrei de outra coisa: deixara o carro na casa de uma amiga muito querida que mora perto de uma estação e quando voltasse de minha excursão iria visitá-la. Por que ela não foi comigo ao Masp? Porque era uma terça feira de tarde quando nem todos os mortais podem se dar ao luxo de ir ao museu. Mas artistas, entre outros profissionais da criatividade, muitas vezes podem e devem.
 
Então, era esta minha situação psíquica: eu, muito à vontade em meu próprio corpo, relaxado, mas com olhos atentos, que é o que acontece quando se sai de uma boa exposição. Cheguei ao metrô, entrei no vagão que devia ter uns vinte e cinco passageiros, encontrei um lugar para me sentar e sentindo-me da cabeça aos pés em estado quase meditativo passei a observar sem nenhum pudor a troca inconsciente de informações não verbais entre as pessoas. Se a idéia lhe parece esquisita ou mal compreendida, explico melhor.
 
Quando pessoas se juntam em determinado espaço, seja por qual for o motivo, cria-se uma evolução complexa, divertida e quase imperceptível entre elas, coisa parecida com aquelas observações feitas pelo matemático John Forbes Nash, do movimento previsível dos pombos no pátio da universidade, no filme Uma Mente Brilhante. Claro, aquilo tinha a ver com a previsibilidade dos movimentos econômicos e aqui estamos falando de gente, desse universo bem mais imprevisível que o das aves, onde a mínima atitude de um pode incidir de forma evidente sobre a atitude de outros, e às vezes de todos. E nesse caso a regra é irregularidade. Deve ser também por isso que os economistas erram tanto. Em outras palavras, as pessoas se afetam mutuamente sem se dar conta, o que não é nenhuma novidade. A novidade, porém, fica por conta desse sempre inédito balé de causa e efeito. E foi o que vi naquele momento, deliciando-me com minha curiosidade invasiva, mas tomando cuidado para me fazer desaparecido na situação, a fim de não romper o fluxo do qual eu também fazia parte, claro. 

Pois bem, havia uma garota bonita e como era de se esperar, a maioria dos homens a observavam de vez em quando, inclusive eu, quase sem querer. Mas entre os homens haviam dois que a olhavam com maior insistência: um mais jovem, lá pelos dezenove anos de idade, e o outro por volta dos quarenta. E parecia que, psiquicamente, a disputavam. O mais jovem olhava-a de cima a baixo enquanto o mais velho observava o mais jovem e logo depois também voltava-se para a moça, forçando um pouco a vista na direção de seus olhos, certamente na esperança de que ela retribuísse a sedução. Tudo em movimentos rápidos e sutis.
  
Enquanto isso, pois a coisa era simultânea, uma senhora fazia ligeiro ar de desaprovação em direção ao mais velho. Um rapaz ao lado olhava a expressão da senhora e parecia rir internamente. O que levou um outro a ajeitar-se no assento e tossir levemente. Quando este tossiu mais outros quatro espalhados pelo vagão também tossiram, quase ao mesmo tempo. E como estamos falando de simultaneidade, aquele que se ajeitou no assento levou outros dois a passarem a mão na cabeça e, pelo que pude observar, mais dois esfregaram as mãos nas próprias pernas, como se estivessem enxugando o suor de suas palmas, tudo em efeito cascata, quase sincrônico. 

O balé continuava. Uma mulher de uns trinta anos, um pouco acima do peso, bem próxima à cena, passava rapidamente a vista sobre nossa garota bonita com um ar de não sei bem o que. Ela, sem dúvida, percebia o fluxo dos homens em direção à garota. Será que de alguma forma a julgava? Não saberia dizer ao certo, pois sua cara era mesmo de parede. Um senhor coçou o nariz e, mediatamente, outro rapaz também. E, da mesma forma, uma outra menina. Mais um tossiu, outros tossiram. Então, o rapaz mais novo, que antes não tirara os olhos da garota, começou a perder interesse, demonstrando também certo ar de desaprovação em relação ao mais velho e afoito, que ainda tentava arrancar um olhar de reciprocidade da menina. 
 
Agora o mais velho a olhava com ainda maior insistência, o que gerou incômodo em muitos; nela, nem se fala. O mais novo lançou um ar mais agressivo de desaprovação em direção ao mais velho e logo em seguida olhou em volta buscando cúmplices para sua indignação. Nesse momento, as pessoas se mexiam mais do que nunca, ajeitavam-se no assento, passavam a mão em seus corpos e tossiam mais e mais vezes. Já se iam duas estações.
 
Eis que o mais velho preparou-se para saltar na estação Clínicas, uma antes do meu ponto final. Quando o homem finalmente deixou o vagão e a porta se fechou, deu-se um acelerado entreolhar geral e muitos se voltaram para a moça que havia sido assediada. Agora os homens não demonstravam qualquer interesse sexual por ela, mas lançavam olhares de certa consideração e comiseração pelo que ela acabara de passar. O mais novo, porém, exagerou um pouquinho em sua compaixão e arriscou um último olhar mais demorado para aquela, como se o fato do outro ter feito o que fez desse a ele um caráter de boa pessoa ou mesmo de “melhor opção”. Mas isso não durou, pois ele percebeu seu gesto duvidoso e, mais ainda, que ela não iria olhar de volta de jeito nenhum. E enfim relaxou. No final das contas, pareceu-me que o assediante mais velho trouxera a outros o mesmo tipo de indulgência: pelo menos daquele jeito eles não eram. 
  
Claro que são apenas elucubrações o que faço, pois sei que meu olhar é permanentemente afetado por tudo que sou e que penso. E sei também que tudo ou quase tudo que penso dos outros são projeções de mim mesmo. Mas sobre a existência do fluxo de ações e reações quase imperceptíveis entre pessoas, num universo de imprevisibilidades, não há o que discutir. E, sem dúvida, é uma observação divertida, que nos conecta aos outros e a nós mesmos; apenas devendo-se tomar o cuidado para não se observar com a prepotência de quem acha que tudo vê. 


Penso agora num conceito de Isaac Linger: “o que todos os artistas têm em comum é uma curiosidade incomum sobre o caráter e o comportamento humanos...que é um modo especial de ver o mundo”. Mas, há como não ser especial o olhar de uma pessoa com sua história única, sua configuração única de informações, conhecimentos, imagens, sensações, sinapses e tudo mais que permeia o indivíduo? Pois, sendo artista ou não, este mundo é mesmo muito interessante, só não vê quem não quer ou anda muito ocupado com coisas menos importantes do que viver.


Magno Mello                                                                                                                                   

Foi assim que recebi seu perdão

Comecei a escrever poemas para ela. Um após o outro. Foi a primeira coisa que me veio à cabeça. E a cada um, minha esperança se esvanecia com um balançar negativo de sua cabeça. Mas eu insistia, escrevia outro. E ela, tão jovem quanto eu, os dois sentados no chão, de frente um para o outro, novamente dava seu veredicto de desaprovação.
Eram poemas de amor, claro. Declarações de todas as formas possíveis. De todos os ângulos. De modos mais e menos afetuosos, mas sempre poesia, a que eu dominava naqueles tempos.
Até que, ao ler minha décima quarta folha de rabiscos ardentes e retóricos, rendeu-se, finalmente. A cena acontece em um apartamento no Rio. E eu tentando convencê-la de não ir embora. Até pior: dela não sair sozinha e pegar o primeiro cara mais bonito que eu, que visse pela frente, como ameaçava fazer - embora continuasse ali parada esperando a próxima página. Estava realmente brava. E eu, morto de medo dela se vingar de sei lá o que; e nem quero me lembrar.
Por outro lado, demonstrei meu apreço por ela, ao escrever nada menos que quatorze pseudos poemas em nove minutos e meio, a la Chico Xavier.
E foi, de fato, um ato de amor. Do tipo que a gente transcende. Muito parecido com esse que acontece agora, comigo sentado em frente ao computador, atravessado pelas palavras, em estado levemente febril, apenas apertando as teclas, enquanto as sílabas vão se formando meio segundo antes do toque na tecla. É uma forma que tende a inibir um pouco mais as inverdades que todo texto carrega, seja ele falado ou escrito.
Agora o fluxo ininterrupto cessou. Mas claro que não vou parar a essa altura. Pois deu-se assim. Acho que ela soube de alguma coisa que não devia saber. Por isso estava brava comigo e ameaçava ir embora; lembrei-me do que não queria.
Concluída a tarefa de resgate, finalmente beijei-a. E em seguida fizemos amor. Até que dormimos depois de uma garrafa e meia de vinho, e mais sexo apaixonado. Acordar foi uma delícia, nenhuma ressaca, apenas a visão daquela mulher linda, ainda de olhos fechados; e eu pensando que um dia, talvez, escreveria um livro.


Magno Mello

Haverá bichos estetas?

Em viagem a trabalho à cidade de Maringá, no Paraná, e aproveitando para visitar uma parte da família, espalhada por alguns estados brasileiros, fui caminhar no delicioso Parque do Ingá. O lugar é belíssimo. Se bem que, como quase todo parque urbano no país, poderia ser melhor aproveitado e equipado. Negligências à parte, que não me competem, dei duas voltas em torno do lago central, caminhando por uma estradinha asfaltada, mas totalmente cercada de densa e colorida vegetação.
Enquanto caminhava, respirava muito ar puro, observava plantas e bichos – macacos, pavões e grande diversidade de outras aves - e havia ainda o espelho d’água do lago. Como se pode prever, fiquei mais e mais sensibilizado à medida que andava.
Após finalizar o percurso, encontrei uma espécie de recanto oriental, construído em homenagem à grande imigração japonesa na cidade. O jardim, pode-se chamar assim, abriga enormes bambuzais, pequeninos lagos com símbolos orientais cravados em pedras, pontezinhas côncavas de madeira atravessando regatos de um metro de largura, bancos, também de madeira, pedras arredondas de todos os tamanhos, além de árvores e vegetações bem recortadas. Uma beleza!
Mas a maior beleza ainda estaria por vir. De repente percebi estar cercado por mais ou menos uma dúzia de pássaros de fantásticas plumagens e cores. Pássaros que só vi ali, naquele recanto. Havia outras espécies pelo caminho. Mas, as que agora observava – e eram precisamente duas espécies diferentes – possuíam misturas de amarelos, lilases, rosas, uma infinidade de azuis, como gradações pictóricas dos grandes artistas, e ainda ornamentos incomuns na cabeça e na cauda.
Como beleza é coisa que se multiplica por si mesma, e estando algumas espécies de pássaros entre os bichos mais inteligentes do planeta, depois do ser humano, além do fato de que inteligência está intimamente ligada ao senso estético mais profundo, fui tomado pelo questionamento poético se não seriam aqueles bichos, os mais belos do lugar, de algum modo estetas, por se encontrarem apenas naquele espaço, o mais belo do parque; não deixando de considerar, entretanto, que a maioria dos bichos não carnívoros encontram seus alimentos em vegetações específicas. Mas e a coincidência de haver duas espécies, justamente as mais coloridas, habitando o lugar mais colorido de todo o local?
No percurso de volta para casa de meu pai, onde estava hospedado, continuei pensando nisso, permeado de certa poesia, convencido, porém, tratar-se apenas de fantasia.
No outro dia fui andar novamente pelo lugar e mais uma vez finalizei o passeio visitando o jardim oriental. Certamente, havia em mim leve esperança de que aqueles pássaros estivessem por lá; não os vi em outro lugar durante o percurso - embora isso de modo algum reforçaria meu raciocínio do dia anterior. No entanto, não estavam. O que acabei não dando muita importância. Caminhei devagar, pisando as pedrinhas brancas, menos com o intuito de procurá-los e mais para respirar aqueles ares bucólicos e absorver toda a beleza.
Mas havia, sim, leve desalento, no fundo da alma, por constatar pela enésima vez que a vida é, foi e sempre será, a despeito de toda nossa fantasia, apenas o que se vê e nada mais - não obstante a energia, que é fenômeno físico - especialmente para um ateu inveterado como eu; é para pessoas como eu que a beleza acaba por ser religião, ou quase.
Quando, porém, atravessava de volta o portal do jardim, eis que surgiu um, apenas um deles, com sua barriga amarela e sobrancelha (pássaro tem sobrancelha?) azul anil, contrastando com lilases e outros azuis mais escuros.
Ele estava no alto de uma pequena árvore. Assim que o vi, ele voou e pousou no chão. Nesse momento estanquei, fiquei bem quieto, olhando-o revirar com o bico as folhas caídas, a três metros de mim. E ali ficamos por um tempo. Então ele novamente subiu até um galho, aproximando-se um pouco mais de mim e colocando-se ainda mais visível.
Agora éramos eu e ele, ali, a dois metros um do outro, e tudo em volta no mais puro silêncio. Ele devia estar curioso, foi o que pensei. Após cerca de trinta segundos ele pulou para outro galho, mais acima, mais próximo, ficando nesse momento a um metro e meio de mim. Exibia-se? Tanto faz. Era para mim um momento íntimo. Talvez não para ele. Mas éramos somente nós.
E como se já fosse suficiente para minha apreciação, ele voou, mudo, um pouco mais para longe. E eu continuei ali, respirando a natureza, observando-o se afastar. Olhei em volta e tudo estava mais colorido. Não era pra menos, minha visão estava plena; embora nem precisei disso para ver que já havia outros pássaros pelo local, da mesma espécie do dia anterior; os de plumagem rósea também. O lugar era deles, suas belezas combinavam. E certamente não era escolha racional e excludente, como fazemos nós humanos. Parecia imanência pura.
Voltando para casa de meu pai ainda pensei, nem sei bem porque, na belíssima pressuposição de G. K. Chesterton, de que o homem foi um animal que um dia enlouqueceu e começou a pensar.
Haverá pássaros enlouquecidos de beleza?



Magno Mello

Formas de se chegar numa cidade

Vivo feliz em São Paulo. Não fui feliz quando morei no Rio.
Para o Rio fui em busca de ilusões.  Quanto a São Paulo, vim atrás de objetivos. E isso por si só já começa a definir as chances de sucesso em qualquer empreitada.
E o interessante foi com o cheguei num lugar e noutro.
No segundo dia em que morava na Cidade Maravilhosa, que à época estava bem menos maravilhosa que hoje, fui assaltado em plena luz do dia.
E lá estava eu em Copacabana, às três horas da tarde, num dia meio frio e chuvoso, com uma peixeira encostada na barriga e as mãos para cima, enquanto por mim cruzavam impassíveis cidadãos de bem, no entanto amedrontados.
Aconteceu logo depois que saí de casa. Vestindo um sobretudo, dobrei a primeira esquina da minha rua e segui a um sebo. No meio do quarteirão passou por mim um rapaz alto e negro, dizendo-me qualquer coisa. Olhei para trás tentando entender aquilo. E quando me virei de volta lá estavam outros dois, um deles com a enorme faca em meu abdômem e mais um, com a mão no bolso do casaco, como se tivesse uma arma. Para completar, o que passara por mim também se juntou a esses dois.
E eu, de mãos para cima, ouvia, sem entender direito, um deles me dizer: “money, money!”. E permaneci ali mudo. Apenas fazendo o que me pediam.
Agora, vem algo engraçado:
Não é que acharam que eu fosse gringo? Talvez por causa da altura e dos olhos claros. E possivelmente também pelo sobretudo, o qual já iam me arrancando à força, enquanto eu entregava minha carteira que estava no bolso da calça.
Um deles, porém, ao abrir minha carteira e pegar o dinheiro, viu em minha identidade que eu era brasileiro.
Pois, veja só: eles, por estarem sempre na área, imagino, e fazer seus assaltos rotineiramente por ali, só roubavam estrangeiros, turistas.
E um me disse: “Rapá, mas tu não é gringo! Puta merda!!!” E o outro também falava: “Puta merda!!!” E o terceiro já decretava: “Devolve essa porra toda pro cara!!! Por que tu não disse logo, meu irmão?!”
E, juro, devolveram-me a carteira com todo o dinheiro dentro. E até o sobretudo. E um deles ordenou: - Vaza, meu irmãozinho! Mas, aperta aí – estendendo-me a mão. Respondi que tudo bem, que não precisava...na verdade eu não queria apertar a mão daquele. Mas, ele insistiu com firmeza: - Aperta aí, rapá!!” Só então percebi que estava sendo intimado. E apertei. E ainda fiz o mesmo com os outros dois, fui obrigado. E finalmente, perguntaram: - Beleza, brother? Beleza? Tá com todas tuas paradas aí...beleza? E respondi, que “claro, beleza”.
E se foram. Atravessaram a rua e do outro lado ainda me perguntavam com o polegar: “beleza?” E eu também com o polegar respondia: “beleza”.
Claro que depois fiquei rindo. O negócio foi tenso, mas engraçado.
Mas, não, meus amigos, isso não foi prenuncio de bons tempos vindouros. Pelo contrário. Durante aquele ano em que morei por lá deu tudo errado. E ainda, duas semanas depois do assalto fracassado, um belo dia eu vinha de moto, dobrando a esquina de minha casa, quando passou correndo por mim um cara armado, enquanto outro vinha atrás e nele atirava. E as balas zuniram no meu ouvido, literalmente, levando-me a jogar a moto no chão e ter uma crise nervosa, pois o outro também começou a atirar de lá e eu fiquei no meio do tiroteio.
E essa foi minha chegada ao Rio.
Agora, vejamos a outra parte da história.
Vim para São Paulo a fim de continuar minha carreira artística. Vim sem ilusões, para ralar e sobreviver do que faço. E só.
E aqui estava eu, também no segundo dia em que me mudara, olha que coincidência. Nesses dias eu ainda me hospedava na casa de um amigo que viajara e me emprestara o apartamento até que eu alugasse o meu. Era domingo, hora do almoço e eu caminhava pela Cerro Corá, Alto da Lapa, em busca de um restaurante aberto. A rua estava totalmente vazia.
De repente, vi um gatinho de poucas semanas de vida no meio da rua, estatelado, recém atropelado, que miava bem baixinho, tão baixinho que quase não ouvi.
Mas ouvi, e quando olhei lá estava ele. E eu. E tudo em volta era vazio, ninguém passava naquela hora.
Por uns poucos segundos fiquei num impasse, sem saber o que fazer. Olhava em volta, ninguém. Voltava para o bichinho, ele parecia nas últimas. E me deu uma angústia. Eu numa casa que não era minha. Não conhecia nada do bairro, nem da cidade. Era domingo e não havia nada aberto. E ainda tinha um compromisso dentro de quarenta minutos.
Mas, quando vi estava com o bicho nas mãos. O gatinho, que era do tamanho de uma de minhas mãos. Nessa hora fiquei ainda mais angustiado. Não tinha a menor ideia do que fazer. E ele ali, nem se mexendo, só de vez em quando dando um miadinho.
Pois, saí caminhando a esmo. Andei uns quinhentos metros. Passei por um petshop, fechado. E depois mais quase um quilômetro. E outro petshop fechado. Até que, finalmente, depois de caminhar mais cerca de duzentos metros encontrei um que estava de plantão.
Entrei. Contei ao veterinário o que acontecera. Ele examinou o animal. Logo me disse que não quebrara nenhum osso, mas não dava para saber ao certo como estava internamente. Poderia sobreviver ou não. Perguntei se ele não ficaria com o bicho. Respondeu-me que não. Perguntei agora que se eu o deixasse na rua com alguma comida e água ele sobreviveria. Respondeu-me claro que não.
Não havendo mais o que fazer, levei o bichinho para casa, a casa do meu amigo que viajava. Eu mal acreditava no que acontecia. Mas, deixei o gato num canto da cozinha, com jornal, água, leite e um pouco de ração que peguei no veterinário. E fui para meu encontro.
Quando voltei para casa, umas duas horas depois, não encontrei o bicho. Chamava e ele não vinha. Até que o descobri debaixo de um móvel na cozinha. No entanto, ele não saía de lá de jeito nenhum.  E não saiu durante dois dias. Nem sequer tocou a comida, apenas permaneceu lá debaixo do móvel muito quieto e arredio. Tentei arrastá-lo para fora, para ver como estava, se comia, mas não consegui. O móvel era pesado, embaixo era estreito e fiquei com medo de machucá-lo.
Na madrugada do terceiro dia, porém, acordei com o enorme barulho do bichinho que berrava sem parar – aquele mesmo berro de quando os gatos acabam de cruzar. E isso perdurou madrugada adentro, por umas quatro horas seguidas.
Em algum momento que nem vi, pois devo ter desmaiado de cansaço, ele parou. E na manhã seguinte, quando fui à cozinha percebi que ele comera tudo que eu deixara por lá. Mas continuava debaixo do móvel.
Coloquei mais comida, que logo se acabou novamente.
Até que no quarto dia ele resolveu sair lá debaixo, quando eu reabastecia a ração. Ele veio, timidamente, mas não demorou a deixar que lhe fizesse algum carinho. E por um bom tempo ficou ali meio grudado em mim, pedindo para ser acariciado.
Passaram-se mais dois dias e ele já estava bem melhor. Mas eu precisava resolver a situação, pois meu amigo ia chegar de viagem; e pelo que conhecia dele imaginava que não devia gostar nada da ideia de ter bichos. Nem temporariamente.
Então, saí de casa com o gato, lindinho que só ele, e entrei em um dos petshops que no domingo estava fechado. Expliquei o caso ao veterinário. Ele também deu uma examinada no bichinho. E disse que passava muito bem. Disse-lhe que não sabia o que fazer com ele, acabara de chegar à cidade etc.
E ele me respondeu que poderia deixar com ele. Que um gatinho lindo como aquele seria adotado em menos de dois dias. O bicho ficou por lá. E eu, que mal me mudara para São Paulo, já salvara uma vida. Ainda passei uns quatro dias depois no veterinário e o bicho já havia sido adotado.
 Agora pergunto: não é um jeito muito melhor de se chegar num lugar? E isso sim, já não dá sinais de que bons dias virão? Pois, vieram. Mas, não posso deixar de dizer: continuo adorando o Rio e sempre viajo até lá. Aliás, beijos aos meus amigos cariocas e paulistas!
E uma última coisa: sou alérgico a gatos. É só chegar perto de um e meu mundo acaba. Mas naqueles dias a alergia não deu nem sinal. E eu nem mesmo me lembrei disso.


 Magno Mello