terça-feira, 5 de novembro de 2013

A Grande Lógica

Imagino que cada um tenha sua lógica para condução da própria vida. Penso também que na complexidade de um percurso entre nascimento e morte devam existir as pequenas lógicas, as médias e uma grande lógica que, por assim dizer, define grosso modo o conjunto da obra. É claro que boa parte dos indivíduos vivem suas vidas a partir de lógicas emprestadas que muito pouco têm de si mesmos. Mas pensando nos que têm uma noção geral do que estão fazendo com suas vidas me movo para escrever este texto.Tentarei descrever, pois, para minha reflexão e alheia, e como ilustração de um caminho possível entre infinitos, o que penso estar fazendo com minha estada por aqui.
 
Desde sempre, ou a partir de quando demonstrei algum talento para o esporte, mais especificamente para o tênis, passei a entender, tanto por motivos de expectativas minhas e de outros, quanto da significação racional e emocional que tirei de minhas experiências, que para ser amado precisava fazer algo, e algo especial. Em outras palavras, signifiquei quase todo o amor em minha vida como condicional. E, sem dúvida, usei meus talentos para obter o afeto que julgava precisar, como todos o fazem, embora tenha confundido ser amado com ser desejado; coisas de garoto.
 
Minha arma, a princípio, até vinte e poucos anos, era uma raquete de tênis. E, ainda que por transferência, fui bem sucedido, pois durante toda a adolescência e juventude me lambuzei e me autopremiei com uma sequência absurda de conquistas amorosas. E mesmo depois que perdi meu poder com a raquete, aproveitei esse histórico de Dom Juan como base emocional para novas seduções.
 
Até que um dia o amor me pegou de jeito, me deixou sem chão, sem defesas, e me fez ver quem eu realmente era. E vi que não era nada do que gostaria de ser ou do que pensava ser. Foi ali que compreendi o quanto havia negligenciado o que naquele momento me pareceu mais caro: meu aprofundamento intelectual e moral. Ficara tão ocupado com meu hedonismo que me esqueci de transformar-me numa pessoa íntegra comigo mesmo.
 
Depois de um tempo o relacionamento acabou. Mas aquela marca ficou. E resolvi me dedicar mais seriamente à minha formação humana e cultural. Mergulhei nos livros, na composição e em tudo que me fizesse entender quem eu era, quem eram as pessoas, o que era o mundo, e o que era minha vida além daquele tão pouco que enxergava. Nesse tempo vendi o ágio do meu apartamento, abandonei meu trabalho e decidi que iria, finalmente, me dedicar só à música e à escrita, custasse o que custasse.
Quando saí desse primeiro mergulho de doze a quatorze horas por dia de estudo, durante dois anos e meio, muita coisa havia mudado. Minha moral era outra, meu caráter mais refinado, já não era tão ignorante e me importava muito mais com as pessoas. E continuei em ritmo acelerado de estudo por alguns anos, porém, já coordenando meu tempo com trabalhos na música e no jornalismo.
 
Pela primeira vez na vida senti que havia criado algo sólido e com alguma profundidade. Se antes era conduzido pelos sabores e dissabores do vento, agora havia voz de comando. E mais ainda, não só comandava como enxergava para onde levava minha vida. Comecei também a perceber melhor como o funcionava o mundo, como as regras eram feitas e até como poderiam - e porque deveriam - ser desconstruídas, caso eu quisesse realmente mandar em minha vida e não deixar que outros mandassem nela por mim. Foi um período glorioso em minha mente e meu espírito.
 
Mas com o passar do tempo caí em duas armadilhas. A primeira, é que mais uma vez coloquei meu fazer, agora intelectual, como condição para ser amado; não havia me livrado disso. Por outro lado já não me importavam as conquistas amorosas, havia conquistado meu próprio graal, embora o usasse da mesma forma, pois qualquer sensação de não fazer me colocava em perigo emocional, me deixava inseguro.
 
A segunda armadilha é que, mesmo lidando com objeto sensível, no caso a música, racionalizei minha existência ao extremo. Acreditei que havia alcançado o sentido da vida com a razão, que havia subjugado o rumo das coisas, que estivesse controlando esses rumos com meu esforço e minha disciplina. O que não se confirmou de forma nenhuma. E mais uma vez tive que dolorosamente voltar atrás.
 
Mas por todo esse percurso anterior de tantos anos de estudos e dedicação ganhei, por assim dizer, uma sobrevida. Fui a certos buracos profundos mas não novamente ao fundo do poço. E quando voltei desses recônditos escuros da existência percebi que aprendera coisas importantes para fazer da minha vida o que bem entendesse, mesmo tendo que pagar alguns preços, que me vi plenamente disposto a pagar - e não tenho a menor dúvida de que vale mesmo a pena pagar o preço dos sonhos.
Hoje ainda luto para ser, acima do fazer, embora saiba que amor incondicional, só mesmo de mãe. E também procuro viver com equilíbrio entre razão e emoção, só não deixando de vez em quando de visitar os extremos de um e de outro, para não engessar procedimentos, nem envelhecer antes do tempo.
 
Claro que não descobri a fórmula da felicidade. Se bem que muitas vezes acredito que sim, pelo menos da minha. E isso, mesmo que sofra, pois jamais deixo de acreditar que sou feliz. Posso passar maus momentos e passo. Mas olho para trás e sinto que não faria nada diferente, nada, nem mesmo quando estou sofrendo.
 
O mais importante dessa jornada, no entanto, foi ter desconstruído alguns mitos profundos. Primeiro: que não podemos fazer o que queremos. Podemos, basta estarmos prontos para pagar o preço de nossas escolhas. Segundo: que as “coisas” nos fazem mais felizes. Não fazem. Terceiro: que existe alguma verdade no mundo. Não existe, tudo é inventado. Quarto: que sem alguma verdade não podemos dar sentido às coisas. Podemos, mas o sentido tem que partir de dentro, de onde nem existem palavras para que se possa construir supostas verdades. Quinto: que alguém sabe algo sobre o que é melhor para você. Não sabe, as formas de se viver e de ser feliz são infinitas. Sexto: que há regras que não podem ser negadas. Todas podem, mesmo que haja um preço; mas esse preço muitas vezes é menor do que a princípio acreditamos.
 
E agora por outro ângulo. Sétimo: quando alguém dá um conselho, geralmente está falando de si próprio, de seus próprios medos. Oitavo: ninguém está apto a dizer como é melhor se viver, nem mesmo os especialistas. Nono: os especialistas muitas vezes são ignorantes com relação a quase todas as outras coisas. Décimo: até que se prove o contrário a vida é uma só, vamos todos morrer e azar de quem se arrepender, porque eu não vou.
 
Portanto, minhas pequenas lógicas, e também as médias, são as seguintes: desafio qualquer pessoa que diga que não estou no caminho certo, faço minha vida exatamente como a quero, só faço praticamente o que gosto, ninguém manda em mim, não aceito patrão, nem chefe, inventei minha própria profissão - que nem sei exatamente qual é e nem quero saber - inventei meu jeito de viver e de olhar para o mundo, quase sempre faço meus próprios horários, só acedo a regras que realmente acredito, e o amor e a arte são meus bens mais preciosos, e por isso, inegociáveis.
 
E eis minha grande lógica: minha vida é também dedicada a mostrar que se um viver é legitimado por si próprio, então só pode ser legitimo. O resto é que é ilusão.

Magno Mello

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