Imagino que
cada um tenha sua lógica para condução da própria vida. Penso também
que na complexidade de um percurso entre nascimento e morte devam existir as
pequenas lógicas, as médias e uma grande lógica que, por assim dizer, define
grosso modo o conjunto da obra. É claro que
boa parte dos indivíduos vivem suas vidas a partir de lógicas emprestadas que
muito pouco têm de si mesmos. Mas pensando nos que têm uma noção geral do que
estão fazendo com suas vidas me movo para escrever este texto.Tentarei
descrever, pois, para minha reflexão e alheia, e como ilustração de um caminho
possível entre infinitos, o que penso estar fazendo com minha estada por aqui.
Desde
sempre, ou a partir de quando demonstrei algum talento para o esporte, mais
especificamente para o tênis, passei a entender, tanto por motivos de
expectativas minhas e de outros, quanto da significação racional e emocional
que tirei de minhas experiências, que para ser amado precisava fazer algo, e
algo especial. Em outras palavras, signifiquei quase todo o amor em minha vida
como condicional. E, sem dúvida, usei meus talentos para obter o afeto que
julgava precisar, como todos o fazem, embora tenha confundido ser amado com ser
desejado; coisas de garoto.
Minha arma,
a princípio, até vinte e poucos anos, era uma raquete de tênis. E, ainda que
por transferência, fui bem sucedido, pois durante toda a adolescência e
juventude me lambuzei e me autopremiei com uma sequência absurda de conquistas
amorosas. E mesmo depois que perdi meu poder com a raquete, aproveitei esse
histórico de Dom Juan como base emocional para novas seduções.
Até que um
dia o amor me pegou de jeito, me deixou sem chão, sem defesas, e me fez ver
quem eu realmente era. E vi que não era nada do que gostaria de ser ou do que
pensava ser. Foi ali que compreendi o quanto havia negligenciado o que naquele
momento me pareceu mais caro: meu aprofundamento intelectual e moral. Ficara
tão ocupado com meu hedonismo que me esqueci de transformar-me numa pessoa
íntegra comigo mesmo.
Depois de um
tempo o relacionamento acabou. Mas aquela marca ficou. E resolvi me dedicar
mais seriamente à minha formação humana e cultural. Mergulhei nos livros, na
composição e em tudo que me fizesse entender quem eu era, quem eram as pessoas,
o que era o mundo, e o que era minha vida além daquele tão pouco que enxergava.
Nesse tempo vendi o ágio do meu apartamento, abandonei meu trabalho e decidi
que iria, finalmente, me dedicar só à música e à escrita, custasse o que
custasse.
Quando saí
desse primeiro mergulho de doze a quatorze horas por dia de estudo, durante
dois anos e meio, muita coisa havia mudado. Minha moral era outra, meu caráter
mais refinado, já não era tão ignorante e me importava muito mais com as
pessoas. E continuei em ritmo acelerado de estudo por alguns anos, porém, já
coordenando meu tempo com trabalhos na música e no jornalismo.
Pela
primeira vez na vida senti que havia criado algo sólido e com alguma
profundidade. Se antes era conduzido pelos sabores e dissabores do vento, agora
havia voz de comando. E mais ainda, não só comandava como enxergava para onde
levava minha vida. Comecei também a perceber melhor como o funcionava o mundo,
como as regras eram feitas e até como poderiam - e porque deveriam - ser
desconstruídas, caso eu quisesse realmente mandar em minha vida e não deixar
que outros mandassem nela por mim. Foi um período glorioso em minha mente e meu
espírito.
Mas com o
passar do tempo caí em duas armadilhas. A primeira, é que mais uma vez coloquei
meu fazer, agora intelectual, como condição para ser amado; não havia me
livrado disso. Por outro lado já não me importavam as conquistas amorosas,
havia conquistado meu próprio graal, embora o usasse da mesma forma, pois
qualquer sensação de não fazer me colocava em perigo emocional, me deixava
inseguro.
A segunda
armadilha é que, mesmo lidando com objeto sensível, no caso a música,
racionalizei minha existência ao extremo. Acreditei que havia alcançado o
sentido da vida com a razão, que havia subjugado o rumo das coisas, que
estivesse controlando esses rumos com meu esforço e minha disciplina. O que não
se confirmou de forma nenhuma. E mais uma vez tive que dolorosamente voltar
atrás.
Mas por todo
esse percurso anterior de tantos anos de estudos e dedicação ganhei, por assim
dizer, uma sobrevida. Fui a certos buracos profundos mas não novamente ao fundo
do poço. E quando voltei desses recônditos escuros da existência percebi que
aprendera coisas importantes para fazer da minha vida o que bem entendesse,
mesmo tendo que pagar alguns preços, que me vi plenamente disposto a pagar - e
não tenho a menor dúvida de que vale mesmo a pena pagar o preço dos sonhos.
Hoje ainda
luto para ser, acima do fazer, embora saiba que amor incondicional, só mesmo de
mãe. E também procuro viver com equilíbrio entre razão e emoção, só não
deixando de vez em quando de visitar os extremos de um e de outro, para não
engessar procedimentos, nem envelhecer antes do tempo.
Claro que
não descobri a fórmula da felicidade. Se bem que muitas vezes acredito que sim,
pelo menos da minha. E isso, mesmo que sofra, pois jamais deixo de acreditar
que sou feliz. Posso passar maus momentos e passo. Mas olho para trás e sinto
que não faria nada diferente, nada, nem mesmo quando estou sofrendo.
O mais
importante dessa jornada, no entanto, foi ter desconstruído alguns mitos
profundos. Primeiro: que não podemos fazer o que queremos. Podemos, basta
estarmos prontos para pagar o preço de nossas escolhas. Segundo: que as
“coisas” nos fazem mais felizes. Não fazem. Terceiro: que existe alguma verdade
no mundo. Não existe, tudo é inventado. Quarto: que sem alguma verdade não
podemos dar sentido às coisas. Podemos, mas o sentido tem que partir de dentro,
de onde nem existem palavras para que se possa construir supostas verdades.
Quinto: que alguém sabe algo sobre o que é melhor para você. Não sabe, as
formas de se viver e de ser feliz são infinitas. Sexto: que há regras que não
podem ser negadas. Todas podem, mesmo que haja um preço; mas esse preço muitas
vezes é menor do que a princípio acreditamos.
E agora por outro
ângulo. Sétimo: quando alguém dá um conselho, geralmente está falando de si
próprio, de seus próprios medos. Oitavo: ninguém está apto a dizer como é
melhor se viver, nem mesmo os especialistas. Nono: os especialistas muitas
vezes são ignorantes com relação a quase todas as outras coisas. Décimo: até
que se prove o contrário a vida é uma só, vamos todos morrer e azar de quem se
arrepender, porque eu não vou.
Portanto,
minhas pequenas lógicas, e também as médias, são as seguintes: desafio qualquer
pessoa que diga que não estou no caminho certo, faço minha vida exatamente como
a quero, só faço praticamente o que gosto, ninguém manda em mim, não aceito
patrão, nem chefe, inventei minha própria profissão - que nem sei exatamente
qual é e nem quero saber - inventei meu jeito de viver e de olhar para o mundo,
quase sempre faço meus próprios horários, só acedo a regras que realmente
acredito, e o amor e a arte são meus bens mais preciosos, e por isso,
inegociáveis.
E eis minha
grande lógica: minha vida é também dedicada a mostrar que se um viver é
legitimado por si próprio, então só pode ser legitimo. O resto é que é ilusão.
Magno Mello
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