terça-feira, 5 de novembro de 2013

Formas de se chegar numa cidade

Vivo feliz em São Paulo. Não fui feliz quando morei no Rio.
Para o Rio fui em busca de ilusões.  Quanto a São Paulo, vim atrás de objetivos. E isso por si só já começa a definir as chances de sucesso em qualquer empreitada.
E o interessante foi com o cheguei num lugar e noutro.
No segundo dia em que morava na Cidade Maravilhosa, que à época estava bem menos maravilhosa que hoje, fui assaltado em plena luz do dia.
E lá estava eu em Copacabana, às três horas da tarde, num dia meio frio e chuvoso, com uma peixeira encostada na barriga e as mãos para cima, enquanto por mim cruzavam impassíveis cidadãos de bem, no entanto amedrontados.
Aconteceu logo depois que saí de casa. Vestindo um sobretudo, dobrei a primeira esquina da minha rua e segui a um sebo. No meio do quarteirão passou por mim um rapaz alto e negro, dizendo-me qualquer coisa. Olhei para trás tentando entender aquilo. E quando me virei de volta lá estavam outros dois, um deles com a enorme faca em meu abdômem e mais um, com a mão no bolso do casaco, como se tivesse uma arma. Para completar, o que passara por mim também se juntou a esses dois.
E eu, de mãos para cima, ouvia, sem entender direito, um deles me dizer: “money, money!”. E permaneci ali mudo. Apenas fazendo o que me pediam.
Agora, vem algo engraçado:
Não é que acharam que eu fosse gringo? Talvez por causa da altura e dos olhos claros. E possivelmente também pelo sobretudo, o qual já iam me arrancando à força, enquanto eu entregava minha carteira que estava no bolso da calça.
Um deles, porém, ao abrir minha carteira e pegar o dinheiro, viu em minha identidade que eu era brasileiro.
Pois, veja só: eles, por estarem sempre na área, imagino, e fazer seus assaltos rotineiramente por ali, só roubavam estrangeiros, turistas.
E um me disse: “Rapá, mas tu não é gringo! Puta merda!!!” E o outro também falava: “Puta merda!!!” E o terceiro já decretava: “Devolve essa porra toda pro cara!!! Por que tu não disse logo, meu irmão?!”
E, juro, devolveram-me a carteira com todo o dinheiro dentro. E até o sobretudo. E um deles ordenou: - Vaza, meu irmãozinho! Mas, aperta aí – estendendo-me a mão. Respondi que tudo bem, que não precisava...na verdade eu não queria apertar a mão daquele. Mas, ele insistiu com firmeza: - Aperta aí, rapá!!” Só então percebi que estava sendo intimado. E apertei. E ainda fiz o mesmo com os outros dois, fui obrigado. E finalmente, perguntaram: - Beleza, brother? Beleza? Tá com todas tuas paradas aí...beleza? E respondi, que “claro, beleza”.
E se foram. Atravessaram a rua e do outro lado ainda me perguntavam com o polegar: “beleza?” E eu também com o polegar respondia: “beleza”.
Claro que depois fiquei rindo. O negócio foi tenso, mas engraçado.
Mas, não, meus amigos, isso não foi prenuncio de bons tempos vindouros. Pelo contrário. Durante aquele ano em que morei por lá deu tudo errado. E ainda, duas semanas depois do assalto fracassado, um belo dia eu vinha de moto, dobrando a esquina de minha casa, quando passou correndo por mim um cara armado, enquanto outro vinha atrás e nele atirava. E as balas zuniram no meu ouvido, literalmente, levando-me a jogar a moto no chão e ter uma crise nervosa, pois o outro também começou a atirar de lá e eu fiquei no meio do tiroteio.
E essa foi minha chegada ao Rio.
Agora, vejamos a outra parte da história.
Vim para São Paulo a fim de continuar minha carreira artística. Vim sem ilusões, para ralar e sobreviver do que faço. E só.
E aqui estava eu, também no segundo dia em que me mudara, olha que coincidência. Nesses dias eu ainda me hospedava na casa de um amigo que viajara e me emprestara o apartamento até que eu alugasse o meu. Era domingo, hora do almoço e eu caminhava pela Cerro Corá, Alto da Lapa, em busca de um restaurante aberto. A rua estava totalmente vazia.
De repente, vi um gatinho de poucas semanas de vida no meio da rua, estatelado, recém atropelado, que miava bem baixinho, tão baixinho que quase não ouvi.
Mas ouvi, e quando olhei lá estava ele. E eu. E tudo em volta era vazio, ninguém passava naquela hora.
Por uns poucos segundos fiquei num impasse, sem saber o que fazer. Olhava em volta, ninguém. Voltava para o bichinho, ele parecia nas últimas. E me deu uma angústia. Eu numa casa que não era minha. Não conhecia nada do bairro, nem da cidade. Era domingo e não havia nada aberto. E ainda tinha um compromisso dentro de quarenta minutos.
Mas, quando vi estava com o bicho nas mãos. O gatinho, que era do tamanho de uma de minhas mãos. Nessa hora fiquei ainda mais angustiado. Não tinha a menor ideia do que fazer. E ele ali, nem se mexendo, só de vez em quando dando um miadinho.
Pois, saí caminhando a esmo. Andei uns quinhentos metros. Passei por um petshop, fechado. E depois mais quase um quilômetro. E outro petshop fechado. Até que, finalmente, depois de caminhar mais cerca de duzentos metros encontrei um que estava de plantão.
Entrei. Contei ao veterinário o que acontecera. Ele examinou o animal. Logo me disse que não quebrara nenhum osso, mas não dava para saber ao certo como estava internamente. Poderia sobreviver ou não. Perguntei se ele não ficaria com o bicho. Respondeu-me que não. Perguntei agora que se eu o deixasse na rua com alguma comida e água ele sobreviveria. Respondeu-me claro que não.
Não havendo mais o que fazer, levei o bichinho para casa, a casa do meu amigo que viajava. Eu mal acreditava no que acontecia. Mas, deixei o gato num canto da cozinha, com jornal, água, leite e um pouco de ração que peguei no veterinário. E fui para meu encontro.
Quando voltei para casa, umas duas horas depois, não encontrei o bicho. Chamava e ele não vinha. Até que o descobri debaixo de um móvel na cozinha. No entanto, ele não saía de lá de jeito nenhum.  E não saiu durante dois dias. Nem sequer tocou a comida, apenas permaneceu lá debaixo do móvel muito quieto e arredio. Tentei arrastá-lo para fora, para ver como estava, se comia, mas não consegui. O móvel era pesado, embaixo era estreito e fiquei com medo de machucá-lo.
Na madrugada do terceiro dia, porém, acordei com o enorme barulho do bichinho que berrava sem parar – aquele mesmo berro de quando os gatos acabam de cruzar. E isso perdurou madrugada adentro, por umas quatro horas seguidas.
Em algum momento que nem vi, pois devo ter desmaiado de cansaço, ele parou. E na manhã seguinte, quando fui à cozinha percebi que ele comera tudo que eu deixara por lá. Mas continuava debaixo do móvel.
Coloquei mais comida, que logo se acabou novamente.
Até que no quarto dia ele resolveu sair lá debaixo, quando eu reabastecia a ração. Ele veio, timidamente, mas não demorou a deixar que lhe fizesse algum carinho. E por um bom tempo ficou ali meio grudado em mim, pedindo para ser acariciado.
Passaram-se mais dois dias e ele já estava bem melhor. Mas eu precisava resolver a situação, pois meu amigo ia chegar de viagem; e pelo que conhecia dele imaginava que não devia gostar nada da ideia de ter bichos. Nem temporariamente.
Então, saí de casa com o gato, lindinho que só ele, e entrei em um dos petshops que no domingo estava fechado. Expliquei o caso ao veterinário. Ele também deu uma examinada no bichinho. E disse que passava muito bem. Disse-lhe que não sabia o que fazer com ele, acabara de chegar à cidade etc.
E ele me respondeu que poderia deixar com ele. Que um gatinho lindo como aquele seria adotado em menos de dois dias. O bicho ficou por lá. E eu, que mal me mudara para São Paulo, já salvara uma vida. Ainda passei uns quatro dias depois no veterinário e o bicho já havia sido adotado.
 Agora pergunto: não é um jeito muito melhor de se chegar num lugar? E isso sim, já não dá sinais de que bons dias virão? Pois, vieram. Mas, não posso deixar de dizer: continuo adorando o Rio e sempre viajo até lá. Aliás, beijos aos meus amigos cariocas e paulistas!
E uma última coisa: sou alérgico a gatos. É só chegar perto de um e meu mundo acaba. Mas naqueles dias a alergia não deu nem sinal. E eu nem mesmo me lembrei disso.


 Magno Mello

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