Vivo feliz
em São Paulo. Não fui feliz quando morei no Rio.
Para o Rio
fui em busca de ilusões. Quanto a São
Paulo, vim atrás de objetivos. E isso por si só já começa a definir as chances
de sucesso em qualquer empreitada.
E o
interessante foi com o cheguei num lugar e noutro.
No segundo
dia em que morava na Cidade Maravilhosa, que à época estava bem menos
maravilhosa que hoje, fui assaltado em plena luz do dia.
E lá estava
eu em Copacabana, às três horas da tarde, num dia meio frio e chuvoso, com uma
peixeira encostada na barriga e as mãos para cima, enquanto por mim cruzavam
impassíveis cidadãos de bem, no entanto amedrontados.
Aconteceu
logo depois que saí de casa. Vestindo um sobretudo, dobrei a primeira esquina
da minha rua e segui a um sebo. No meio do quarteirão passou por mim um rapaz
alto e negro, dizendo-me qualquer coisa. Olhei para trás tentando entender
aquilo. E quando me virei de volta lá estavam outros dois, um deles com a
enorme faca em meu abdômem e mais um, com a mão no bolso do casaco, como se
tivesse uma arma. Para completar, o que passara por mim também se juntou a
esses dois.
E eu, de
mãos para cima, ouvia, sem entender direito, um deles me dizer: “money,
money!”. E permaneci ali mudo. Apenas fazendo o que me pediam.
Agora, vem
algo engraçado:
Não é que
acharam que eu fosse gringo? Talvez por causa da altura e dos olhos claros. E
possivelmente também pelo sobretudo, o qual já iam me arrancando à força,
enquanto eu entregava minha carteira que estava no bolso da calça.
Um deles,
porém, ao abrir minha carteira e pegar o dinheiro, viu em minha identidade que
eu era brasileiro.
Pois, veja
só: eles, por estarem sempre na área, imagino, e fazer seus assaltos
rotineiramente por ali, só roubavam estrangeiros, turistas.
E um me
disse: “Rapá, mas tu não é gringo! Puta merda!!!” E o outro também falava:
“Puta merda!!!” E o terceiro já decretava: “Devolve essa porra toda pro cara!!!
Por que tu não disse logo, meu irmão?!”
E, juro,
devolveram-me a carteira com todo o dinheiro dentro. E até o sobretudo. E um
deles ordenou: - Vaza, meu irmãozinho! Mas, aperta aí – estendendo-me a mão.
Respondi que tudo bem, que não precisava...na verdade eu não queria apertar a
mão daquele. Mas, ele insistiu com firmeza: - Aperta aí, rapá!!” Só então
percebi que estava sendo intimado. E apertei. E ainda fiz o mesmo com os outros
dois, fui obrigado. E finalmente, perguntaram: - Beleza, brother? Beleza? Tá
com todas tuas paradas aí...beleza? E respondi, que “claro, beleza”.
E se foram.
Atravessaram a rua e do outro lado ainda me perguntavam com o polegar:
“beleza?” E eu também com o polegar respondia: “beleza”.
Claro que
depois fiquei rindo. O negócio foi tenso, mas engraçado.
Mas, não,
meus amigos, isso não foi prenuncio de bons tempos vindouros. Pelo contrário.
Durante aquele ano em que morei por lá deu tudo errado. E ainda, duas semanas
depois do assalto fracassado, um belo dia eu vinha de moto, dobrando a esquina
de minha casa, quando passou correndo por mim um cara armado, enquanto outro
vinha atrás e nele atirava. E as balas zuniram no meu ouvido, literalmente,
levando-me a jogar a moto no chão e ter uma crise nervosa, pois o outro também
começou a atirar de lá e eu fiquei no meio do tiroteio.
E essa foi
minha chegada ao Rio.
Agora,
vejamos a outra parte da história.
Vim para São
Paulo a fim de continuar minha carreira artística. Vim sem ilusões, para ralar
e sobreviver do que faço. E só.
E aqui
estava eu, também no segundo dia em que me mudara, olha que coincidência.
Nesses dias eu ainda me hospedava na casa de um amigo que viajara e me
emprestara o apartamento até que eu alugasse o meu. Era domingo, hora do almoço
e eu caminhava pela Cerro Corá, Alto da Lapa, em busca de um restaurante
aberto. A rua estava totalmente vazia.
De repente,
vi um gatinho de poucas semanas de vida no meio da rua, estatelado, recém
atropelado, que miava bem baixinho, tão baixinho que quase não ouvi.
Mas ouvi, e
quando olhei lá estava ele. E eu. E tudo em volta era vazio, ninguém passava
naquela hora.
Por uns
poucos segundos fiquei num impasse, sem saber o que fazer. Olhava em volta,
ninguém. Voltava para o bichinho, ele parecia nas últimas. E me deu uma
angústia. Eu numa casa que não era minha. Não conhecia nada do bairro, nem da
cidade. Era domingo e não havia nada aberto. E ainda tinha um compromisso dentro
de quarenta minutos.
Mas, quando
vi estava com o bicho nas mãos. O gatinho, que era do tamanho de uma de minhas
mãos. Nessa hora fiquei ainda mais angustiado. Não tinha a menor ideia do que
fazer. E ele ali, nem se mexendo, só de vez em quando dando um miadinho.
Pois, saí
caminhando a esmo. Andei uns quinhentos metros. Passei por um petshop, fechado.
E depois mais quase um quilômetro. E outro petshop fechado. Até que,
finalmente, depois de caminhar mais cerca de duzentos metros encontrei um que
estava de plantão.
Entrei.
Contei ao veterinário o que acontecera. Ele examinou o animal. Logo me disse
que não quebrara nenhum osso, mas não dava para saber ao certo como estava
internamente. Poderia sobreviver ou não. Perguntei se ele não ficaria com o
bicho. Respondeu-me que não. Perguntei agora que se eu o deixasse na rua com
alguma comida e água ele sobreviveria. Respondeu-me claro que não.
Não havendo
mais o que fazer, levei o bichinho para casa, a casa do meu amigo que viajava.
Eu mal acreditava no que acontecia. Mas, deixei o gato num canto da cozinha,
com jornal, água, leite e um pouco de ração que peguei no veterinário. E fui
para meu encontro.
Quando
voltei para casa, umas duas horas depois, não encontrei o bicho. Chamava e ele
não vinha. Até que o descobri debaixo de um móvel na cozinha. No entanto, ele
não saía de lá de jeito nenhum. E não
saiu durante dois dias. Nem sequer tocou a comida, apenas permaneceu lá debaixo
do móvel muito quieto e arredio. Tentei arrastá-lo para fora, para ver como
estava, se comia, mas não consegui. O móvel era pesado, embaixo era estreito e
fiquei com medo de machucá-lo.
Na madrugada
do terceiro dia, porém, acordei com o enorme barulho do bichinho que berrava
sem parar – aquele mesmo berro de quando os gatos acabam de cruzar. E isso
perdurou madrugada adentro, por umas quatro horas seguidas.
Em algum
momento que nem vi, pois devo ter desmaiado de cansaço, ele parou. E na manhã
seguinte, quando fui à cozinha percebi que ele comera tudo que eu deixara por
lá. Mas continuava debaixo do móvel.
Coloquei
mais comida, que logo se acabou novamente.
Até que no
quarto dia ele resolveu sair lá debaixo, quando eu reabastecia a ração. Ele
veio, timidamente, mas não demorou a deixar que lhe fizesse algum carinho. E
por um bom tempo ficou ali meio grudado em mim, pedindo para ser acariciado.
Passaram-se
mais dois dias e ele já estava bem melhor. Mas eu precisava resolver a
situação, pois meu amigo ia chegar de viagem; e pelo que conhecia dele
imaginava que não devia gostar nada da ideia de ter bichos. Nem
temporariamente.
Então, saí
de casa com o gato, lindinho que só ele, e entrei em um dos petshops que no
domingo estava fechado. Expliquei o caso ao veterinário. Ele também deu uma
examinada no bichinho. E disse que passava muito bem. Disse-lhe que não sabia o
que fazer com ele, acabara de chegar à cidade etc.
E ele me
respondeu que poderia deixar com ele. Que um gatinho lindo como aquele seria
adotado em menos de dois dias. O bicho ficou por lá. E eu, que mal me mudara
para São Paulo, já salvara uma vida. Ainda passei uns quatro dias depois no
veterinário e o bicho já havia sido adotado.
Agora pergunto: não é um jeito muito melhor de
se chegar num lugar? E isso sim, já não dá sinais de que bons dias virão? Pois,
vieram. Mas, não posso deixar de dizer: continuo adorando o Rio e sempre viajo
até lá. Aliás, beijos aos meus amigos cariocas e paulistas!
E uma última
coisa: sou alérgico a gatos. É só chegar perto de um e meu mundo acaba. Mas
naqueles dias a alergia não deu nem sinal. E eu nem mesmo me lembrei disso.
Magno Mello
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