Eram poemas de amor, claro. Declarações de todas as formas
possíveis. De todos os ângulos. De modos mais e menos afetuosos, mas sempre
poesia, a que eu dominava naqueles tempos.
Até que, ao ler minha décima quarta folha de rabiscos
ardentes e retóricos, rendeu-se, finalmente. A cena acontece em um apartamento
no Rio. E eu tentando convencê-la de não ir embora. Até pior: dela não sair
sozinha e pegar o primeiro cara mais bonito que eu, que visse pela frente, como
ameaçava fazer - embora continuasse ali parada esperando a próxima página.
Estava realmente brava. E eu, morto de medo dela se vingar de sei lá o que; e
nem quero me lembrar.
Por outro lado, demonstrei meu apreço por ela, ao escrever
nada menos que quatorze pseudos poemas em nove minutos e meio, a la Chico
Xavier.
E foi, de fato, um ato de amor. Do tipo que a gente
transcende. Muito parecido com esse que acontece agora, comigo sentado em
frente ao computador, atravessado pelas palavras, em estado levemente febril,
apenas apertando as teclas, enquanto as sílabas vão se formando meio segundo
antes do toque na tecla. É uma forma que tende a inibir um pouco mais as
inverdades que todo texto carrega, seja ele falado ou escrito.
Agora o fluxo ininterrupto cessou. Mas claro que não vou
parar a essa altura. Pois deu-se assim. Acho que ela soube de alguma coisa que
não devia saber. Por isso estava brava comigo e ameaçava ir embora; lembrei-me
do que não queria.
Concluída a tarefa de resgate, finalmente beijei-a. E em
seguida fizemos amor. Até que dormimos depois de uma garrafa e meia de vinho, e
mais sexo apaixonado. Acordar foi uma delícia, nenhuma ressaca, apenas a visão
daquela mulher linda, ainda de olhos fechados; e eu pensando que um dia,
talvez, escreveria um livro.
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