Acompanho as
artes plásticas há muitos anos. E acho que têm muito a ver com música;
equilíbrio, forma, ritmo e, especialmente, cor. As cores são notas musicais,
são acordes, e vice versa; especialmente quando misturadas. E o melhor de tudo:
são outras notas e outros acordes, abstratos, transfigurados, diferentes dos
que entram pelo ouvido. Ainda assim, ouço música, e não outra coisa, ao olhar
uma boa obra - para ser sincero, as más obras também produzem em mim o mesmo
efeito.
E lá vou eu
à Bienal, de coração e olhos abertos, flexível, preparado pra tudo, sem
desconfianças prévias, apesar da última edição não ter sido das melhores.
Talvez por isso tenha preferido ir sem qualquer informação de antemão; crítica,
matéria, nada. Palavras são palavras, arte é outra coisa. Isso quer dizer que venho
falar também de outras coisas.
Na entrada
me deparo com arte eletrônica: várias telas de tv exibindo algo a que não
dediquei muita atenção – não chamou minha atenção. Talvez meus olhos ainda
estivessem voltados mais para dentro até aquele momento, como ao entrar numa
festa cheia de gente bonita, principalmente por certa timidez, comum aos mais
introspectivos. Mas é possível que fosse algo sem graça; para mim, claro. De
qualquer modo, procurei não julgar, apenas seguir em frente.
Não pretendo
citar aqui essa ou aquela obra, além de achar isso chato não acredito que se
possa traduzir arte com meras palavrinhas, redigo. Portanto, minhas observações
serão de caráter geral, sobre tendências, curiosidades e apenas um ou outro
comentário particular, nem sempre referente à arte, mas que não deixa de estar
vinculado a ela.
Após
percorrer as primeiras montagens, uma impressão inicial: trabalhos estruturados
por uma infinidade de repetições ou “quase-repetições”. Explico melhor: um
grande painel contendo dezenas e dezenas de bolsos traseiros de calça,
enfileirados, alinhados em diferentes formatos. Outro: centenas de fotografias
tiradas no mesmo local, na mesma hora, com a mesma pessoa, dia após dia;
trabalho que gerou também um vídeo. E mais uma série de instalações com as
mesmas características, como se o artista (talvez inconscientemente) quisesse
impressionar ou se afirmar, ou se traduzir, pela quantidade ou até pela
arduidade da obra; especialmente em casos de desenhos infantis (literalmente)ou
infantilizados, colocados lado a lado, em séries intermináveis.
Mas a
quantidade também se manifesta em mosaicos de objetos cotidianos, amarrados,
colados, pendurados, postos, atirados, entre outras possíveis formas de se
alojarem na obra. Nesse sentido, um nome chama a atenção: Arthur Bispo do
Rosário. Se fosse atleta seria o campeão da modalidade. Juntou em sua obra
todos os objetos que viu pela frente, sucatas, em geral, misturados a um
incrível trabalho de bordado. Dessa forma criou seu monumental universo
escatológico, ao longo de quase meio século em que passou internado em
instituições psiquiátricas, e cumpriu sua missão divina (pois recebeu um
chamado): fazer um inventário, para Deus, de tudo que havia neste mundo:
coisas, lugares, pessoas etc, apenas com cacarecos, lixo e bordados. É de
chorar.
Como não
podia deixar de ser, em qualquer mostra que se pretende chamar “Bienal”,
“plural” e “democrática”, há grandes contrastes e não são poucos: obras
minimalistas, quase nuas, instalações beirando o niilismo, como um conjunto de
telas em branco, de molduras simples, simetricamente alinhadas na parede. Só.
Daí, cada um vê o que quer, o resto são palavras, blablabá que
definitivamente...não corresponde à arte. Se é que aquilo é arte. Se é que não
é. Se é interessante? Pode depender do dia, do clima, do que você comeu no café
da manhã, se está apaixonado(a) etc. Enfim, ninguém sabe nada, nem mesmo o que
sente. Estamos atravessando o mundo à nossa volta, o tempo, e ainda,
concomitantemente, nos atravessando. Há alguma fixidez nisso? Alguns de nossos
conceitos podem até nos parecer sólidos. Mas são apenas conceitos...apenas mais
palavras, ideias que um dia surgiram na cabecinha de alguém, geralmente algum
espertalhão.
Ultrapassando
agora os extremos, as incontáveis “invariações” sobre o mesmo tema, e algo como
dois gravetos atrelados a uma bolinha de pingue-pongue, num espaço de trinta
metros quadrados (essa obra é minha), surge em mim uma segunda impressão: boa
parte das instalações interativas convidam à novas construções dos sentidos e
do olhar. Mas isso é novidade? Assim me pareceu. Nas últimas décadas os
trabalhos visuais tenderam muito mais à desconstrução do que a construir o que
fosse. Numa das instalações, frutas e legumes recobertos e como que reafirmados
por grossa camada de espécie de lava, preta, seca. Em outro ambiente, pequenos
desenhos de objetos, animais, máquinas em geral, cada um acompanhado por um
mini autofalante emitindo o som ou o nome da coisa representada. Além desses,
uma linda e improvável sala de estar com enfeites insólitos ou tradicionais, e
belos bordados em cestos, peneiras, raquetes de tênis e redes de limpar
piscina. Considero todas essas obras formas de afirmação, sedimentação, numa
época em que muitas de nossas verdades caem por terra, a cada dia, em
velocidade acelerada. É apenas uma leitura entre tantas possíveis e
impossíveis.
Outro fato,
no entanto, me chama a atenção e reitera minhas impressões: a presença
significativa da pintura. Parece-me o retorno - ou a reafirmação - de algo
importante. Ou pode ser apenas o declínio dessa caretice de muitos curadores
não acharem a pintura uma arte contemporânea. Como disse T.S. Eliot: “A cultura
efetiva é aquela que está dirigindo as atividades daqueles que estão
manipulando aquilo que eles chamam de cultura”. E, no caso, tomara que a
própria cultura derrube de vez essa ideia estapafúrdia, tola mesmo, da pintura
não ser contemporânea. É possível uma geração de produtores e críticos afirmar
que o piano não tem mais lugar na música moderna? Isso se sustenta? Pois está
aí a pintura de volta à Bienal, se não em grande estilo, por haver outras
combinações de gravetos e bolinhas de pingue-pongue, agora em estado pictórico,
salva-se por alguns trabalhos que fazem valer a pena o percurso.
Outra forte
impressão me invadiu por conta da volumosa autorreferência artística. Muitos
foram os trabalhos em que o artista aparece na obra. Alguns, não só fazem
sentido, especialmente nos casos de vídeo-arte, como a performance artística é
o centro da obra, sendo muitas vezes o artista submetido a dores, esforços
físicos radicais e muita poeira. Mais uma vez me pareceu uma legitimação
artística pelo esforço, como se fosse este um novo termômetro para julgar o que
é válido ou não artisticamente, numa época em que faltam critérios mais sólidos.
O esforço é sólido.
Uma última
observação artística: as palavras tomaram conta das artes plásticas. São muitos
os trabalhos que apresentam profusões de letras, sílabas, palavras, frases,
textos inteiros, de todos os tipos. Não chega a ser poesia, nem prosa. É outra
coisa que talvez ainda não tenha nome. E certamente não sobrevive sem o visual.
Mas é algo, ou está tentando ser. E uma coisa é certa: as artes visuais estão
definitivamente migrando para os nossos outros sentidos. Alguém mais radical diria:
“hoje mais tocamos, cheiramos, ouvimos, fotografamos e lemos as artes
plásticas, do que propriamente as vemos”. Não chega a ser assim, até porque o
negócio teria que mudar de nome.
Ficam agora
minhas derradeiras impressões mais sociais que artísticas: foi legal ver os
gays transitarem à vontade pelo ambiente, de mãos dadas, homens e mulheres,
trocando carinhos discretos, assim como os heteros, sem preocupações de serem
agredidos, criticados, sacaneados ou enxovalhados, ao menos naquele momento.
Numa boa, não sou gay e já passei da época de me tornar, mas dizer que dois
homens juntos trocando carinhos é algo agressivo, é simplesmente ridículo.
Vemos todos os dias imagens de gente morta, despedaçada em tragédias,
assassinatos e acidentes, e até com isso nos acostumamos; embora não
devêssemos. E a maioria de nós, homens e mulheres, ainda com essa frescura de
achar feio ver duas pessoas que se gostam, muitas vezes se amam, trocar afetos
publicamente. Isso também é questão de educação estética.
E,
finalmente, deixo essa para reflexão: quando todos os valores, verdades,
conceitos, palavras, sentidos e ilusões forem de vez por água abaixo, pois é
tudo coisa inventada por gente mesmo, a arte será uma das grandes estrelas da
vida. Nascemos para criar e para nos alimentar de criação, não para obedecer,
não para imitar. Criar a verdade a cada dia: eis uma boa condição para que ela
possa existir.
Magno Mello
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