Em recente
almoço familiar sou apresentado a um casal, convidado de minha irmã. Inicio
amistosa conversa paralela com o marido, enquanto a esposa fala com o restante
dos poucos presentes. Rapidamente meu assunto com ele passa a girar em torno de
economia e mercado. Numa dessas argumentações quaisquer, observo que, segundo
dados publicados num artigo da revista Le Monde Diplomatique, do qual já falei
em texto anterior, apenas 387 pessoas espalhadas pelo mundo comandam 80% da
economia global. Ele me pergunta, sem nenhuma cerimônia: "Qual o problema
desse volume econômico estar nas mãos de tão pouca gente?"
Meio atônito
com sua pergunta, respondo que o poder está se concentrando cada vez mais, pelo
menos desde meados da Era Moderna para cá, e, se continuar assim, daqui a pouco
estará nas mãos de umas cem pessoas, se muito. Cito o exemplo de que a
distribuição de renda na economia americana, ao contrário do que muita gente
supõe, vem decaindo desde os anos 70 e, hoje, cerca de 50% da população dos
Estados Unidos é considerada pobre, opinando que isso está, em boa parte,
relacionado à concentração de poder.
Eis sua
resposta: “Sinceramente, desde que eu esteja entre essas cem pessoas, não vejo
problema nenhum nisso”. E acha graça de sua “presença de espírito”. Não lhe
respondo, viro às costas e me volto ao grupo.
É claro que
não dá para generalizar, mas também não dá para negar: o pensamento externado
por esse cidadão não deixa de representar, em maior ou menor grau, o sentimento
neoliberal. Pode-se retrucar, mas há verdade nisso. O neoliberalismo não se
importa com os excluídos. O discurso de que o livre mercado gera mais empregos,
independentemente de gerar ou não, nada tem a ver com consideração, comiseração
e ou respeito humanos.
Tenho uma
tia enquadrada no pensamento neoliberal e sua resposta, quando questionada
sobre os pobres, excluídos, escravizados, explorados e sacaneados, é essa: “Não
há lugar para todos no mundo, é simples”. Há outro discurso corrente no
pensamento neoliberal: “Lugar, muitas vezes há, as pessoas é que não querem
trabalhar”. O que é argumento insidioso. As pessoas não querem, isto sim, ser
exploradas, apenas isso. E não somente por meio de baixos salários, às vezes o
problema nem é esse, mas por todo um leque de miseráveis obrigações, inclusive
trabalhar em profissões imbecilizantes e ou coisas que detestam. Todos têm
sonhos. E os sonhos humanos não se diferem tanto uns dos outros. São sonhos de
liberdade e realização, para ricos e pobres, patrões e empregados, instruídos e
ignorantes, inteligentes e burros. Mas, ainda assim, a necessidade – ou a
crença dessa necessidade – vence. E a maioria trabalha, cada vez mais, para
sustentar esse sistema.
O pior do
sentimento neoliberalista, no entanto, é não ter limites. Sua vocação é crescer
até explodir. Não tem outro propósito, a não ser aumentar as empresas, o
consumo e diminuir o sentido. Sua tarefa não é alimentar o mundo, a revolução
verde e de alimentos em geral gerou um aumento desmedido da população mundial e
não o contrário. Seu objetivo não é tornar as pessoas mais felizes, apenas
oferecer-lhes mais produtos, mais açúcar e mais sal.
O
neoliberalismo é imediatista, não se importa com as consequências, não se
importa com o ser humano, com o bem estar, o câncer, a poluição, o trânsito, a
amizade, o amor, o estresse, a arte, a cultura, as crianças, os velhos, os
sonhos, não se importa com a vida. E que ninguém se engane: o neoliberalismo é
hoje de direita, de centro e de esquerda. O neoliberalismo está. O comunismo
caiu. O socialismo também. Os Estados de bem-estar social estão naufragando.
O
neoliberalismo ainda está no auge, apesar de vir dando errado há quarenta anos
ou mais. No mínimo desde quando os Estados Unidos iniciaram sua curva
descendente na distribuição de renda. O neoliberalismo é o filho predileto do
capitalismo. O neoliberalismo é mau. O neoliberalismo não será.
Magno Mello
Nenhum comentário:
Postar um comentário