terça-feira, 5 de novembro de 2013

O sentimento neoliberal

Em recente almoço familiar sou apresentado a um casal, convidado de minha irmã. Inicio amistosa conversa paralela com o marido, enquanto a esposa fala com o restante dos poucos presentes. Rapidamente meu assunto com ele passa a girar em torno de economia e mercado. Numa dessas argumentações quaisquer, observo que, segundo dados publicados num artigo da revista Le Monde Diplomatique, do qual já falei em texto anterior, apenas 387 pessoas espalhadas pelo mundo comandam 80% da economia global. Ele me pergunta, sem nenhuma cerimônia: "Qual o problema desse volume econômico estar nas mãos de tão pouca gente?"
Meio atônito com sua pergunta, respondo que o poder está se concentrando cada vez mais, pelo menos desde meados da Era Moderna para cá, e, se continuar assim, daqui a pouco estará nas mãos de umas cem pessoas, se muito. Cito o exemplo de que a distribuição de renda na economia americana, ao contrário do que muita gente supõe, vem decaindo desde os anos 70 e, hoje, cerca de 50% da população dos Estados Unidos é considerada pobre, opinando que isso está, em boa parte, relacionado à concentração de poder.
Eis sua resposta: “Sinceramente, desde que eu esteja entre essas cem pessoas, não vejo problema nenhum nisso”. E acha graça de sua “presença de espírito”. Não lhe respondo, viro às costas e me volto ao grupo.
É claro que não dá para generalizar, mas também não dá para negar: o pensamento externado por esse cidadão não deixa de representar, em maior ou menor grau, o sentimento neoliberal. Pode-se retrucar, mas há verdade nisso. O neoliberalismo não se importa com os excluídos. O discurso de que o livre mercado gera mais empregos, independentemente de gerar ou não, nada tem a ver com consideração, comiseração e ou respeito humanos.
Tenho uma tia enquadrada no pensamento neoliberal e sua resposta, quando questionada sobre os pobres, excluídos, escravizados, explorados e sacaneados, é essa: “Não há lugar para todos no mundo, é simples”. Há outro discurso corrente no pensamento neoliberal: “Lugar, muitas vezes há, as pessoas é que não querem trabalhar”. O que é argumento insidioso. As pessoas não querem, isto sim, ser exploradas, apenas isso. E não somente por meio de baixos salários, às vezes o problema nem é esse, mas por todo um leque de miseráveis obrigações, inclusive trabalhar em profissões imbecilizantes e ou coisas que detestam. Todos têm sonhos. E os sonhos humanos não se diferem tanto uns dos outros. São sonhos de liberdade e realização, para ricos e pobres, patrões e empregados, instruídos e ignorantes, inteligentes e burros. Mas, ainda assim, a necessidade – ou a crença dessa necessidade – vence. E a maioria trabalha, cada vez mais, para sustentar esse sistema.
O pior do sentimento neoliberalista, no entanto, é não ter limites. Sua vocação é crescer até explodir. Não tem outro propósito, a não ser aumentar as empresas, o consumo e diminuir o sentido. Sua tarefa não é alimentar o mundo, a revolução verde e de alimentos em geral gerou um aumento desmedido da população mundial e não o contrário. Seu objetivo não é tornar as pessoas mais felizes, apenas oferecer-lhes mais produtos, mais açúcar e mais sal.
O neoliberalismo é imediatista, não se importa com as consequências, não se importa com o ser humano, com o bem estar, o câncer, a poluição, o trânsito, a amizade, o amor, o estresse, a arte, a cultura, as crianças, os velhos, os sonhos, não se importa com a vida. E que ninguém se engane: o neoliberalismo é hoje de direita, de centro e de esquerda. O neoliberalismo está. O comunismo caiu. O socialismo também. Os Estados de bem-estar social estão naufragando.
O neoliberalismo ainda está no auge, apesar de vir dando errado há quarenta anos ou mais. No mínimo desde quando os Estados Unidos iniciaram sua curva descendente na distribuição de renda. O neoliberalismo é o filho predileto do capitalismo. O neoliberalismo é mau. O neoliberalismo não será.


Magno Mello

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