terça-feira, 5 de novembro de 2013

A inspiração

Pode existir um ateu religioso? Espero que sim. Pois não acredito em nada do suposto lado de lá. Mas não consigo explicar, a não ser religiosamente, a inspiração. É um grande mistério, não aleatório. Não tenho dúvida: seu produto já estava pronto. Onde? Por quem?
 
Mas antes fosse somente isso. É ainda uma resolução silógico-intuitiva que vem acompanhada de beleza, aí que está o improvável. Chega-se em algum lugar outro, de modo algum previsto intelectualmente, onde a matemática e o instinto confundem-se com a estética, embora até isso seja apenas o começo. Não precisa me lembrar que há muita lógica no belo. Falo é da coincidência, do momento exato em que uma e outra coisa, além de todas as outras, se encontram e se misturam. Como pode a música tocar o coração, não sendo apenas signo? E não é. Assim como as combinações de cores que nos provocam inomináveis religares; ou basta uma pincelada de amarelo Van Gogh. Sem falar no arrebatamento. Ah...o arrebatamento, que lugar é esse? De repente, você é suspenso. Por que mãos? No entanto, se é puxado pelo plexo. A coluna se arqueia. E lá está você, possuído, diluído, espalhado, e mais densificado que nunca, enquanto as ideias lhe ultrapassam e incríveis mosaicos apenas se desembaralham. A inspiração é fogueira de fagulhas detalhadas, cada uma delas transformada em uma palavra, uma nota, uma cor, um ponto, a compor o todo em combustão, até o resfriamento final. É uma loucura momentânea, quando se enxerga algum deus, que certamente não cabe em si mesmo, quanto mais numa religião. Na verdade, não cabe, por isso transborda. A inspiração vem de algo cheio e ao mesmo tempo vazio, brota como um big bang, implode para fora, explode para dentro. De repente, faz existir. A inspiração é uma reza. Uma liturgia profana. É em si. Assim como está se tornando este nosso planeta de símbolos desconstruídos. Seremos mais inspirados? Deus queira, ateiamente falando. A inspiração, enfim, é tudo que foi inventado neste mundo. E dá-lhe inspiração para reinventá-lo.


Magno Mello

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