Pode existir um ateu religioso? Espero
que sim. Pois não acredito em nada do suposto lado de lá. Mas não consigo explicar,
a não ser religiosamente, a inspiração. É um grande mistério, não aleatório.
Não tenho dúvida: seu produto já estava pronto. Onde? Por quem?
Mas antes fosse
somente isso. É ainda uma resolução silógico-intuitiva que vem acompanhada de
beleza, aí que está o improvável. Chega-se em algum lugar outro, de modo algum
previsto intelectualmente, onde a matemática e o instinto confundem-se com a
estética, embora até isso seja apenas o começo. Não precisa me lembrar que há
muita lógica no belo. Falo é da coincidência, do momento exato em que uma e
outra coisa, além de todas as outras, se encontram e se misturam. Como pode a
música tocar o coração, não sendo apenas signo? E não é. Assim como as
combinações de cores que nos provocam inomináveis religares; ou basta uma
pincelada de amarelo Van Gogh. Sem falar no arrebatamento. Ah...o
arrebatamento, que lugar é esse? De repente, você é suspenso. Por que mãos? No
entanto, se é puxado pelo plexo. A coluna se arqueia. E lá está você, possuído,
diluído, espalhado, e mais densificado que nunca, enquanto as ideias lhe
ultrapassam e incríveis mosaicos apenas se desembaralham. A inspiração é
fogueira de fagulhas detalhadas, cada uma delas transformada em uma palavra,
uma nota, uma cor, um ponto, a compor o todo em combustão, até o resfriamento
final. É uma loucura momentânea, quando se enxerga algum deus, que certamente
não cabe em si mesmo, quanto mais numa religião. Na verdade, não cabe, por isso
transborda. A inspiração vem de algo cheio e ao mesmo tempo vazio, brota como
um big bang, implode para fora, explode para dentro. De repente, faz existir. A
inspiração é uma reza. Uma liturgia profana. É em si. Assim como está se
tornando este nosso planeta de símbolos desconstruídos. Seremos mais
inspirados? Deus queira, ateiamente falando. A inspiração, enfim, é tudo que
foi inventado neste mundo. E dá-lhe inspiração para reinventá-lo.
Magno Mello
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