terça-feira, 5 de novembro de 2013

Uma cena de metrô

Lá estava eu naquele dia num vagão de metrô em São Paulo. O trecho era curto, apenas quatro estações, da Trianon-Masp até Sumaré. Vinha de uma exposição do expressionismo alemão no Masp e ia a uma sessão de psicanálise, tudo delícia embora tudo tão denso – lembrei-me de doce de leite em pasta colocado no congelador. Já comeu? Prove! 

Das coisas prazerosas havia também o fato de estar de metrô, sem ter que enfrentar o trânsito horas a fio, o trânsito, sem mais adjetivos possíveis, de Sampa. E ainda me lembrei de outra coisa: deixara o carro na casa de uma amiga muito querida que mora perto de uma estação e quando voltasse de minha excursão iria visitá-la. Por que ela não foi comigo ao Masp? Porque era uma terça feira de tarde quando nem todos os mortais podem se dar ao luxo de ir ao museu. Mas artistas, entre outros profissionais da criatividade, muitas vezes podem e devem.
 
Então, era esta minha situação psíquica: eu, muito à vontade em meu próprio corpo, relaxado, mas com olhos atentos, que é o que acontece quando se sai de uma boa exposição. Cheguei ao metrô, entrei no vagão que devia ter uns vinte e cinco passageiros, encontrei um lugar para me sentar e sentindo-me da cabeça aos pés em estado quase meditativo passei a observar sem nenhum pudor a troca inconsciente de informações não verbais entre as pessoas. Se a idéia lhe parece esquisita ou mal compreendida, explico melhor.
 
Quando pessoas se juntam em determinado espaço, seja por qual for o motivo, cria-se uma evolução complexa, divertida e quase imperceptível entre elas, coisa parecida com aquelas observações feitas pelo matemático John Forbes Nash, do movimento previsível dos pombos no pátio da universidade, no filme Uma Mente Brilhante. Claro, aquilo tinha a ver com a previsibilidade dos movimentos econômicos e aqui estamos falando de gente, desse universo bem mais imprevisível que o das aves, onde a mínima atitude de um pode incidir de forma evidente sobre a atitude de outros, e às vezes de todos. E nesse caso a regra é irregularidade. Deve ser também por isso que os economistas erram tanto. Em outras palavras, as pessoas se afetam mutuamente sem se dar conta, o que não é nenhuma novidade. A novidade, porém, fica por conta desse sempre inédito balé de causa e efeito. E foi o que vi naquele momento, deliciando-me com minha curiosidade invasiva, mas tomando cuidado para me fazer desaparecido na situação, a fim de não romper o fluxo do qual eu também fazia parte, claro. 

Pois bem, havia uma garota bonita e como era de se esperar, a maioria dos homens a observavam de vez em quando, inclusive eu, quase sem querer. Mas entre os homens haviam dois que a olhavam com maior insistência: um mais jovem, lá pelos dezenove anos de idade, e o outro por volta dos quarenta. E parecia que, psiquicamente, a disputavam. O mais jovem olhava-a de cima a baixo enquanto o mais velho observava o mais jovem e logo depois também voltava-se para a moça, forçando um pouco a vista na direção de seus olhos, certamente na esperança de que ela retribuísse a sedução. Tudo em movimentos rápidos e sutis.
  
Enquanto isso, pois a coisa era simultânea, uma senhora fazia ligeiro ar de desaprovação em direção ao mais velho. Um rapaz ao lado olhava a expressão da senhora e parecia rir internamente. O que levou um outro a ajeitar-se no assento e tossir levemente. Quando este tossiu mais outros quatro espalhados pelo vagão também tossiram, quase ao mesmo tempo. E como estamos falando de simultaneidade, aquele que se ajeitou no assento levou outros dois a passarem a mão na cabeça e, pelo que pude observar, mais dois esfregaram as mãos nas próprias pernas, como se estivessem enxugando o suor de suas palmas, tudo em efeito cascata, quase sincrônico. 

O balé continuava. Uma mulher de uns trinta anos, um pouco acima do peso, bem próxima à cena, passava rapidamente a vista sobre nossa garota bonita com um ar de não sei bem o que. Ela, sem dúvida, percebia o fluxo dos homens em direção à garota. Será que de alguma forma a julgava? Não saberia dizer ao certo, pois sua cara era mesmo de parede. Um senhor coçou o nariz e, mediatamente, outro rapaz também. E, da mesma forma, uma outra menina. Mais um tossiu, outros tossiram. Então, o rapaz mais novo, que antes não tirara os olhos da garota, começou a perder interesse, demonstrando também certo ar de desaprovação em relação ao mais velho e afoito, que ainda tentava arrancar um olhar de reciprocidade da menina. 
 
Agora o mais velho a olhava com ainda maior insistência, o que gerou incômodo em muitos; nela, nem se fala. O mais novo lançou um ar mais agressivo de desaprovação em direção ao mais velho e logo em seguida olhou em volta buscando cúmplices para sua indignação. Nesse momento, as pessoas se mexiam mais do que nunca, ajeitavam-se no assento, passavam a mão em seus corpos e tossiam mais e mais vezes. Já se iam duas estações.
 
Eis que o mais velho preparou-se para saltar na estação Clínicas, uma antes do meu ponto final. Quando o homem finalmente deixou o vagão e a porta se fechou, deu-se um acelerado entreolhar geral e muitos se voltaram para a moça que havia sido assediada. Agora os homens não demonstravam qualquer interesse sexual por ela, mas lançavam olhares de certa consideração e comiseração pelo que ela acabara de passar. O mais novo, porém, exagerou um pouquinho em sua compaixão e arriscou um último olhar mais demorado para aquela, como se o fato do outro ter feito o que fez desse a ele um caráter de boa pessoa ou mesmo de “melhor opção”. Mas isso não durou, pois ele percebeu seu gesto duvidoso e, mais ainda, que ela não iria olhar de volta de jeito nenhum. E enfim relaxou. No final das contas, pareceu-me que o assediante mais velho trouxera a outros o mesmo tipo de indulgência: pelo menos daquele jeito eles não eram. 
  
Claro que são apenas elucubrações o que faço, pois sei que meu olhar é permanentemente afetado por tudo que sou e que penso. E sei também que tudo ou quase tudo que penso dos outros são projeções de mim mesmo. Mas sobre a existência do fluxo de ações e reações quase imperceptíveis entre pessoas, num universo de imprevisibilidades, não há o que discutir. E, sem dúvida, é uma observação divertida, que nos conecta aos outros e a nós mesmos; apenas devendo-se tomar o cuidado para não se observar com a prepotência de quem acha que tudo vê. 


Penso agora num conceito de Isaac Linger: “o que todos os artistas têm em comum é uma curiosidade incomum sobre o caráter e o comportamento humanos...que é um modo especial de ver o mundo”. Mas, há como não ser especial o olhar de uma pessoa com sua história única, sua configuração única de informações, conhecimentos, imagens, sensações, sinapses e tudo mais que permeia o indivíduo? Pois, sendo artista ou não, este mundo é mesmo muito interessante, só não vê quem não quer ou anda muito ocupado com coisas menos importantes do que viver.


Magno Mello                                                                                                                                   

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