Lá estava eu naquele dia num
vagão de metrô em São Paulo. O trecho era curto, apenas quatro estações, da
Trianon-Masp até Sumaré. Vinha de uma exposição do expressionismo alemão no
Masp e ia a uma sessão de psicanálise, tudo delícia embora tudo tão denso –
lembrei-me de doce de leite em pasta colocado no congelador. Já comeu?
Prove!
Das coisas prazerosas havia
também o fato de estar de metrô, sem ter que enfrentar o trânsito horas a fio,
o trânsito, sem mais adjetivos possíveis, de Sampa. E ainda me lembrei de outra
coisa: deixara o carro na casa de uma amiga muito querida que mora perto de uma
estação e quando voltasse de minha excursão iria visitá-la. Por que ela não foi
comigo ao Masp? Porque era uma terça feira de tarde quando nem todos os mortais
podem se dar ao luxo de ir ao museu. Mas artistas, entre outros profissionais
da criatividade, muitas vezes podem e devem.
Então, era esta minha
situação psíquica: eu, muito à vontade em meu próprio corpo, relaxado, mas com
olhos atentos, que é o que acontece quando se sai de uma boa exposição. Cheguei
ao metrô, entrei no vagão que devia ter uns vinte e cinco passageiros,
encontrei um lugar para me sentar e sentindo-me da cabeça aos pés em estado
quase meditativo passei a observar sem nenhum pudor a troca inconsciente de
informações não verbais entre as pessoas. Se a idéia lhe parece esquisita ou
mal compreendida, explico melhor.
Quando pessoas se juntam em
determinado espaço, seja por qual for o motivo, cria-se uma evolução complexa,
divertida e quase imperceptível entre elas, coisa parecida com aquelas
observações feitas pelo matemático John Forbes Nash, do movimento previsível
dos pombos no pátio da universidade, no filme Uma Mente Brilhante. Claro,
aquilo tinha a ver com a previsibilidade dos movimentos econômicos e aqui
estamos falando de gente, desse universo bem mais imprevisível que o das aves,
onde a mínima atitude de um pode incidir de forma evidente sobre a atitude de
outros, e às vezes de todos. E nesse caso a regra é irregularidade. Deve ser também
por isso que os economistas erram tanto. Em outras palavras, as pessoas se
afetam mutuamente sem se dar conta, o que não é nenhuma novidade. A novidade,
porém, fica por conta desse sempre inédito balé de causa e efeito. E foi o que
vi naquele momento, deliciando-me com minha curiosidade invasiva, mas tomando
cuidado para me fazer desaparecido na situação, a fim de não romper o fluxo do
qual eu também fazia parte, claro.
Pois bem, havia uma garota
bonita e como era de se esperar, a maioria dos homens a observavam de vez em
quando, inclusive eu, quase sem querer. Mas entre os homens haviam dois que a
olhavam com maior insistência: um mais jovem, lá pelos
dezenove anos de idade, e o outro por volta dos quarenta. E parecia que,
psiquicamente, a disputavam. O mais jovem olhava-a de cima a baixo enquanto o
mais velho observava o mais jovem e logo depois também voltava-se para a moça,
forçando um pouco a vista na direção de seus olhos, certamente na esperança de
que ela retribuísse a sedução. Tudo em movimentos rápidos e sutis.
Enquanto isso, pois a coisa
era simultânea, uma senhora fazia ligeiro ar de desaprovação em direção ao mais
velho. Um rapaz ao lado olhava a expressão da senhora e parecia rir
internamente. O que levou um outro a ajeitar-se no assento e tossir levemente.
Quando este tossiu mais outros quatro espalhados pelo vagão também tossiram,
quase ao mesmo tempo. E como estamos falando de simultaneidade, aquele que se
ajeitou no assento levou outros dois a passarem a mão na cabeça e, pelo que pude
observar, mais dois esfregaram as mãos nas próprias pernas, como se estivessem
enxugando o suor de suas palmas, tudo em efeito cascata, quase sincrônico.
O balé continuava. Uma
mulher de uns trinta anos, um pouco acima do peso, bem próxima à cena, passava
rapidamente a vista sobre nossa garota bonita com um ar de não sei bem o que.
Ela, sem dúvida, percebia o fluxo dos homens em direção à garota. Será que de
alguma forma a julgava? Não saberia dizer ao certo, pois sua cara era mesmo de
parede. Um senhor coçou o nariz e, mediatamente, outro rapaz também. E, da
mesma forma, uma outra menina. Mais um tossiu, outros tossiram. Então, o rapaz
mais novo, que antes não tirara os olhos da garota, começou a perder interesse,
demonstrando também certo ar de desaprovação em relação ao mais velho e afoito,
que ainda tentava arrancar um olhar de reciprocidade da menina.
Agora o mais velho a olhava
com ainda maior insistência, o que gerou incômodo em muitos; nela, nem se fala.
O mais novo lançou um ar mais agressivo de desaprovação em direção ao mais
velho e logo em seguida olhou em volta buscando cúmplices para sua indignação.
Nesse momento, as pessoas se mexiam mais do que nunca, ajeitavam-se no assento,
passavam a mão em seus corpos e tossiam mais e mais vezes. Já se iam duas
estações.
Eis que o mais velho
preparou-se para saltar na estação Clínicas, uma antes do meu ponto final.
Quando o homem finalmente deixou o vagão e a porta se fechou, deu-se um
acelerado entreolhar geral e muitos se voltaram para a moça que havia sido
assediada. Agora os homens não demonstravam qualquer interesse sexual por ela,
mas lançavam olhares de certa consideração e comiseração pelo que ela acabara
de passar. O mais novo, porém, exagerou um pouquinho em sua compaixão e
arriscou um último olhar mais demorado para aquela, como se o fato do outro ter
feito o que fez desse a ele um caráter de boa pessoa ou mesmo de “melhor
opção”. Mas isso não durou, pois ele percebeu seu gesto duvidoso
e, mais ainda, que ela não iria olhar de volta de jeito nenhum. E enfim
relaxou. No final das contas, pareceu-me que o assediante mais velho trouxera a
outros o mesmo tipo de indulgência: pelo menos daquele jeito eles não eram.
Claro que são apenas
elucubrações o que faço, pois sei que meu olhar é permanentemente afetado por
tudo que sou e que penso. E sei também que tudo ou quase tudo que penso dos
outros são projeções de mim mesmo. Mas sobre a existência do fluxo de ações e reações
quase imperceptíveis entre pessoas, num universo de imprevisibilidades, não há
o que discutir. E, sem dúvida, é uma observação divertida, que nos conecta aos
outros e a nós mesmos; apenas devendo-se tomar o cuidado para não se observar
com a prepotência de quem acha que tudo vê.
Penso agora num conceito de
Isaac Linger: “o que todos os artistas têm em comum é uma curiosidade incomum
sobre o caráter e o comportamento humanos...que é um modo especial de ver o
mundo”. Mas, há como não ser especial o olhar de uma pessoa com sua história
única, sua configuração única de informações, conhecimentos, imagens,
sensações, sinapses e tudo mais que permeia o indivíduo? Pois, sendo artista ou
não, este mundo é mesmo muito interessante, só não vê quem não quer ou anda
muito ocupado com coisas menos importantes do que viver.
Magno Mello
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