terça-feira, 5 de novembro de 2013

Sobre criação artística

Conceito

A criação requer conteúdo antecipado, conhecimento, vivência, subjetividade.
Isso quer dizer que se pode ter uma boa ideia, mas se não houver conteúdo, preparo suficiente, é improvável que essa ideia se transforme num bom conceito, em algo que valha a pena existir no mundo, a não ser como uma espécie de droga para o próprio ego.
Uma das principais exigências do conceito é a sensibilidade para se detectar hiatos no conjunto do que já existe.
E também há que se enxergar a filosofia invisível por trás de todas as coisas, que tenham conexão com algum tipo de sentimento humano, que sejam comunicáveis, transformadoras e que façam sentido.
Não existe conceito se não houver sentido.
Conceito é também capacidade de síntese; aliás, o conceito geralmente já é algo bastante sintético, que comprime várias ideias dentro de uma ideia, rico em possibilidades de desdobramentos, concretos e ou abstratos.
E, por fim, para se obter um bom conceito é importante que se saiba redefinir situações, desconstruir o previsto, ou seja, inventar outras formas para se transmitir determinado conteúdo.
               
Mergulho e afastamento

Certa vez li uma passagem do dramaturgo Autran Dourado em que ele dizia - não me lembro das exatas palavras - que para um autor emocionar seu público, deveria deixar de emocionar a si mesmo no momento da criação.
Isso teve profundo efeito sobre mim à época, pois percebi ali a importância do afastamento, do saber olhar com distanciamento a própria criação, com visão crítica, e assim poder lapidá-la a contento, sem permitir a obnubilação do bom senso pelo ego.
Hoje acredito que isso seja apenas a metade da história. A outra metade consiste sim, num mergulho apaixonado, febril, dilacerado e, muitas vezes, egóico.
Percebi que esta é justamente a grande dificuldade de se criar algo significativo e tocante: conseguir mergulhar profundamente e num instante seguinte afastar-se, alçar vôo e olhar a coisa de cima, criticamente, racionalmente, e logo em seguida mergulhar de novo na afetividade, na emoção, e repetir a ação por muitas vezes, até se chegar a resultados satisfatórios.

Subjetividade

No processo criativo nada é mais importante do que se chegar à própria subjetividade, nesse encontro consigo mesmo. 
Pois toda subjetividade traz em si um percurso emocional, racional, visual, tátil, auditivo - entre outros - único; ou seja, uma história de vida singular.
Quanto mais perto chegamos de nós mesmos no momento da criação, mais chances temos de trazer à tona algo que soe novo, que tenha frescor, que seja original, acima da expectativa comum.
Para se criar um produto com qualidade suficiente para arrebatar um interlocutor - e isso não é nada fácil – é preciso, portanto, possuir essa capacidade de traduzir-se em ideias, a partir de nossa mais profunda intimidade: a que mora antes mesmo das palavras e dos signos. 


Magno Mello

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