terça-feira, 5 de novembro de 2013

O desaparecimento do futuro

Já reparou que nossa relação íntima com o futuro vem diminuindo? Pense no que representava o futuro há dez anos. E no que representa agora. Especialmente pelo modo solene com que olhávamos para ele. O futuro não só ocupava mais horas de nosso dia, de nossos sonhos e objetivos, e também de nossa fé, como, até muito pouco tempo, vivíamos por alguma coisa ligada a essa ideia de que o futuro era bom, justo, premiador, a mesma noção que tínhamos de progresso. Até ontem o progresso era o bem maior, caminho inconteste rumo à felicidade. E, finalmente, futuro e progresso estavam indissoluvelmente ligados. Assim, elaborávamos em nossa cabeça, e na vida, um caminho e até mesmo um suposto destino, de antemão.

Mas, de repente, esses planos que traçamos durante anos, em nome de tantas supostas verdades, parecem agora nos fazer menos sentido. E neste momento de desencanto somos finalmente obrigados a admitir: o futuro nunca houve, sempre foi algo inventado por nós.
 
Gregos e romanos antigos não tinham o menor interesse pelo tempo vindouro, simplesmente a ideia não lhes fazia sentido. Quanto ao passado, a coisa era de no máximo um século para trás. Antes disso, só havia passado mítico - que também era presente - de deuses, ninfas, heróis impossíveis, plêiades e outros tipos mágicos e exóticos.
 
Outro exemplo interessante vem dos Nueres, da África, possuidores de dimensão do tempo tão curta e pouco profunda, que a árvore de qual a humanidade recebeu a própria vida, ainda estava de pé há alguns anos, a oeste do país. Fenômeno que não deixa de se assemelhar com a crença que hoje dispensamos a um certo futuro, também mítico, mas querendo-se possível, ao nos colocar em contato emocional com as incríveis possibilidades da ciência, que um dia, num tempo não tão longínquo, poderão nos salvar de todas as mazelas da vida, até da morte. Mas, quanto ao futuro mais próximo, esse que temos pela frente ao longo de nossa vida, não nos tem despertado tanto interesse como antes. Justamente quando parecia faltar tão pouco, que o progresso nos salvaria, as máquinas trabalhariam por nós, que havíamos conquistado algum conhecimento técnico e humano propício à felicidade.
 
Por isso, o futuro tornou-se por um lado mítico, em que o mito maior é a ciência-quase-magia, num tempo em que provavelmente não estaremos mais vivos, e, por outro, no tempo de nossa vida, tornou-se amorfo, sem cara, sem legitimação antecipada, sem verdades pré-estabelecidas. E é nisso que reside o drama atual, pois era justamente nesse espaço de tempo, o de nossa vida, o lugar onde criávamos e consolidávamos nossa identidade. Havia um sentido em ser quem éramos. E esse sentido nos era dado pelo futuro. Enquanto o passado nos dizia quem éramos, o futuro nos dava o sentido. Hoje, o que significa esse futuro? E o progresso? Estamos avançando para que? Apenas para um contínuo gozo hedonista até a morte? Não há um “bem” no final? Não há um sentido?
 
Para diminuir nosso desconforto, surge no fim do túnel uma pergunta razoavelmente mais calorosa: quer dizer que para gregos e romanos a vida não fazia sentido, uma vez que não possuíam futuro e nem pareciam tão interessados no passado? É bom lembrar que naquela época o tempo era, acima de tudo, circular, ainda não existia um tempo linear, esse que conhecemos, que aponta para o futuro, inaugurado pelo cristianismo a partir do nascimento de Cristo, data fundadora de nosso calendário. Nem mesmo havia a noção de progresso em nossa mentalidade, que veio se instalar apenas a partir da revolução da imprensa de Gutemberg, em 1439, por aí, culminando no século XIX, segundo Le Goff, com Pierre-Simon Ballanche, escritor e filósofo francês, em sua “teologia do progresso”. Foi, portanto, entre esses séculos, do XV ao XIX, que se instituiu no pensamento comum a ideia de progresso. E de progresso ser um bem, um caminho para a felicidade.
 
Então, a que os gregos e romanos se apegavam para que a vida fizesse sentido? A um bálsamo não menos consistente que nossa ideia de futuro: a chamada verdade mítica. Naquele tempo, magia, história e ciência eram uma só coisa; deuses habitavam a terra, tudo era possível. Nem sequer havia, antes de Platão, entre os pré-socráticos, qualquer objetivo de se alcançar a verdade por meio da ciência. Não havia necessidade da verdade. Observava-se e pensava-se o todo, por todos os lados, inclusive os lados místicos, e as cartas permaneciam abertas; e só. Talvez intuíssem já naquela época que “verdade” seria sempre algo ilusório, existindo apenas na imaginação do indivíduo. E mesmo a verdade dos deuses eram muito pouco sólidas, possuíam esses múltiplas personalidades, sempre sujeitos mais ao próprio humor do que a uma moral sedimentada.
 
Voltando ao mundo dos vivos, o que temos agora, além do vazio deixado pelo declínio do futuro e de nossas grandes verdades? Como poderemos colocar um novo sentido nesse vácuo? Como consolidaremos nossas identidades individuais em direção ao futuro? Apegados a que? A primeira pista parece ser esta: estamos de volta ao presente, mais do que nunca preocupados com a própria sobrevivência, correndo de um lado para outro, para dar conta do agora. Não é exatamente o aqui e agora preconizado pelas sábias filosofias orientais, próximo do estado meditativo. É algo mais tenso, mais parecido ao bicho na selva, em permanente estado de alerta. Então, voltamos à selva. E, de repente, desconfiamos que sempre estivemos lá, que somos e continuamos a ser, de fato e inexoravelmente, animais. No entanto, temos uma vantagem, um dom, que os bichos não têm, e que pode ser a segunda boa pista para sobrevivermos a esse atual esvaziamento das perspectivas: temos o dom de criar. A própria história humana pode ser traduzida em criação, desde a primeira pedra lascada, passando pelas línguas, crenças, leis, civilizações, objetos de todos os tipos, até os supercomputadores. Tudo em nosso mundo é criação, intelectual e material. E, mais do que acreditar nas coisas, essa é nossa maior vocação. Portanto, se é preciso um sentido, que se crie. Faz-se necessária a verdade? Que se crie, mesmo sabendo que sentidos e verdades não se perpetuarão. Criar é construir sentidos. Criar é construir os próprios sentidos, o mundo, a cada dia, para não ter que viver uma vida subordinada aos sentidos de outros.
 
Pode ser por isso que gregos e romanos não sentiam falta do futuro, possuíam a magia dos deuses em lugar de muitas verdades, embora não todas, e a arte lhes dava sentido. Arte era um termo também utilizado para se qualificar a vida. Viver com arte era um tipo de arte, o mesmo que fazer arte, ou criar, no caso a própria vida. Que no fim das contas significava e ainda significa estar pleno consigo, viver o presente, conhecer-se, entregar-se. E quando isso acontece até a palavra sentido deixa de fazer sentido, assim como a palavra verdade, sendo que verdade só existe uma: a sua. E jamais será a mesma de ontem ou igual a de outro. O sentido, da mesma forma, é enquanto é, jamais pode ser conquistado, consolidado, embora gostaríamos de pensar que sim. Mas já não tem como.



Magno Mello

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