Em viagem a
trabalho à cidade de Maringá, no Paraná, e aproveitando para visitar uma parte
da família, espalhada por alguns estados brasileiros, fui caminhar no delicioso
Parque do Ingá. O lugar é belíssimo. Se bem que, como quase todo parque urbano
no país, poderia ser melhor aproveitado e equipado. Negligências à parte, que
não me competem, dei duas voltas em torno do lago central, caminhando por uma
estradinha asfaltada, mas totalmente cercada de densa e colorida vegetação.
Enquanto
caminhava, respirava muito ar puro, observava plantas e bichos – macacos,
pavões e grande diversidade de outras aves - e havia ainda o espelho d’água do
lago. Como se pode prever, fiquei mais e mais sensibilizado à medida que
andava.
Após
finalizar o percurso, encontrei uma espécie de recanto oriental, construído em
homenagem à grande imigração japonesa na cidade. O jardim, pode-se chamar
assim, abriga enormes bambuzais, pequeninos lagos com símbolos orientais
cravados em pedras, pontezinhas côncavas de madeira atravessando regatos de um
metro de largura, bancos, também de madeira, pedras arredondas de todos os
tamanhos, além de árvores e vegetações bem recortadas. Uma beleza!
Mas a maior
beleza ainda estaria por vir. De repente percebi estar cercado por mais ou
menos uma dúzia de pássaros de fantásticas plumagens e cores. Pássaros que só
vi ali, naquele recanto. Havia outras espécies pelo caminho. Mas, as que agora
observava – e eram precisamente duas espécies diferentes – possuíam misturas de
amarelos, lilases, rosas, uma infinidade de azuis, como gradações pictóricas
dos grandes artistas, e ainda ornamentos incomuns na cabeça e na cauda.
Como beleza
é coisa que se multiplica por si mesma, e estando algumas espécies de pássaros
entre os bichos mais inteligentes do planeta, depois do ser humano, além do
fato de que inteligência está intimamente ligada ao senso estético mais
profundo, fui tomado pelo questionamento poético se não seriam aqueles bichos,
os mais belos do lugar, de algum modo estetas, por se encontrarem apenas
naquele espaço, o mais belo do parque; não deixando de considerar, entretanto,
que a maioria dos bichos não carnívoros encontram seus alimentos em vegetações
específicas. Mas e a coincidência de haver duas espécies, justamente as mais
coloridas, habitando o lugar mais colorido de todo o local?
No percurso
de volta para casa de meu pai, onde estava hospedado, continuei pensando nisso,
permeado de certa poesia, convencido, porém, tratar-se apenas de fantasia.
No outro dia
fui andar novamente pelo lugar e mais uma vez finalizei o passeio visitando o jardim
oriental. Certamente, havia em mim leve esperança de que aqueles pássaros
estivessem por lá; não os vi em outro lugar durante o percurso - embora isso de
modo algum reforçaria meu raciocínio do dia anterior. No entanto, não estavam.
O que acabei não dando muita importância. Caminhei devagar, pisando as
pedrinhas brancas, menos com o intuito de procurá-los e mais para respirar
aqueles ares bucólicos e absorver toda a beleza.
Mas havia,
sim, leve desalento, no fundo da alma, por constatar pela enésima vez que a
vida é, foi e sempre será, a despeito de toda nossa fantasia, apenas o que se
vê e nada mais - não obstante a energia, que é fenômeno físico - especialmente
para um ateu inveterado como eu; é para pessoas como eu que a beleza acaba por
ser religião, ou quase.
Quando,
porém, atravessava de volta o portal do jardim, eis que surgiu um, apenas um
deles, com sua barriga amarela e sobrancelha (pássaro tem sobrancelha?) azul
anil, contrastando com lilases e outros azuis mais escuros.
Ele estava
no alto de uma pequena árvore. Assim que o vi, ele voou e pousou no chão. Nesse
momento estanquei, fiquei bem quieto, olhando-o revirar com o bico as folhas
caídas, a três metros de mim. E ali ficamos por um tempo. Então ele novamente
subiu até um galho, aproximando-se um pouco mais de mim e colocando-se ainda
mais visível.
Agora éramos
eu e ele, ali, a dois metros um do outro, e tudo em volta no mais puro
silêncio. Ele devia estar curioso, foi o que pensei. Após cerca de trinta
segundos ele pulou para outro galho, mais acima, mais próximo, ficando nesse
momento a um metro e meio de mim. Exibia-se? Tanto faz. Era para mim um momento
íntimo. Talvez não para ele. Mas éramos somente nós.
E como se já
fosse suficiente para minha apreciação, ele voou, mudo, um pouco mais para
longe. E eu continuei ali, respirando a natureza, observando-o se afastar.
Olhei em volta e tudo estava mais colorido. Não era pra menos, minha visão
estava plena; embora nem precisei disso para ver que já havia outros pássaros
pelo local, da mesma espécie do dia anterior; os de plumagem rósea também. O
lugar era deles, suas belezas combinavam. E certamente não era escolha racional
e excludente, como fazemos nós humanos. Parecia imanência pura.
Voltando
para casa de meu pai ainda pensei, nem sei bem porque, na belíssima
pressuposição de G. K. Chesterton, de que o homem foi um animal que um dia
enlouqueceu e começou a pensar.
Haverá
pássaros enlouquecidos de beleza?
Magno Mello
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