terça-feira, 5 de novembro de 2013

Haverá bichos estetas?

Em viagem a trabalho à cidade de Maringá, no Paraná, e aproveitando para visitar uma parte da família, espalhada por alguns estados brasileiros, fui caminhar no delicioso Parque do Ingá. O lugar é belíssimo. Se bem que, como quase todo parque urbano no país, poderia ser melhor aproveitado e equipado. Negligências à parte, que não me competem, dei duas voltas em torno do lago central, caminhando por uma estradinha asfaltada, mas totalmente cercada de densa e colorida vegetação.
Enquanto caminhava, respirava muito ar puro, observava plantas e bichos – macacos, pavões e grande diversidade de outras aves - e havia ainda o espelho d’água do lago. Como se pode prever, fiquei mais e mais sensibilizado à medida que andava.
Após finalizar o percurso, encontrei uma espécie de recanto oriental, construído em homenagem à grande imigração japonesa na cidade. O jardim, pode-se chamar assim, abriga enormes bambuzais, pequeninos lagos com símbolos orientais cravados em pedras, pontezinhas côncavas de madeira atravessando regatos de um metro de largura, bancos, também de madeira, pedras arredondas de todos os tamanhos, além de árvores e vegetações bem recortadas. Uma beleza!
Mas a maior beleza ainda estaria por vir. De repente percebi estar cercado por mais ou menos uma dúzia de pássaros de fantásticas plumagens e cores. Pássaros que só vi ali, naquele recanto. Havia outras espécies pelo caminho. Mas, as que agora observava – e eram precisamente duas espécies diferentes – possuíam misturas de amarelos, lilases, rosas, uma infinidade de azuis, como gradações pictóricas dos grandes artistas, e ainda ornamentos incomuns na cabeça e na cauda.
Como beleza é coisa que se multiplica por si mesma, e estando algumas espécies de pássaros entre os bichos mais inteligentes do planeta, depois do ser humano, além do fato de que inteligência está intimamente ligada ao senso estético mais profundo, fui tomado pelo questionamento poético se não seriam aqueles bichos, os mais belos do lugar, de algum modo estetas, por se encontrarem apenas naquele espaço, o mais belo do parque; não deixando de considerar, entretanto, que a maioria dos bichos não carnívoros encontram seus alimentos em vegetações específicas. Mas e a coincidência de haver duas espécies, justamente as mais coloridas, habitando o lugar mais colorido de todo o local?
No percurso de volta para casa de meu pai, onde estava hospedado, continuei pensando nisso, permeado de certa poesia, convencido, porém, tratar-se apenas de fantasia.
No outro dia fui andar novamente pelo lugar e mais uma vez finalizei o passeio visitando o jardim oriental. Certamente, havia em mim leve esperança de que aqueles pássaros estivessem por lá; não os vi em outro lugar durante o percurso - embora isso de modo algum reforçaria meu raciocínio do dia anterior. No entanto, não estavam. O que acabei não dando muita importância. Caminhei devagar, pisando as pedrinhas brancas, menos com o intuito de procurá-los e mais para respirar aqueles ares bucólicos e absorver toda a beleza.
Mas havia, sim, leve desalento, no fundo da alma, por constatar pela enésima vez que a vida é, foi e sempre será, a despeito de toda nossa fantasia, apenas o que se vê e nada mais - não obstante a energia, que é fenômeno físico - especialmente para um ateu inveterado como eu; é para pessoas como eu que a beleza acaba por ser religião, ou quase.
Quando, porém, atravessava de volta o portal do jardim, eis que surgiu um, apenas um deles, com sua barriga amarela e sobrancelha (pássaro tem sobrancelha?) azul anil, contrastando com lilases e outros azuis mais escuros.
Ele estava no alto de uma pequena árvore. Assim que o vi, ele voou e pousou no chão. Nesse momento estanquei, fiquei bem quieto, olhando-o revirar com o bico as folhas caídas, a três metros de mim. E ali ficamos por um tempo. Então ele novamente subiu até um galho, aproximando-se um pouco mais de mim e colocando-se ainda mais visível.
Agora éramos eu e ele, ali, a dois metros um do outro, e tudo em volta no mais puro silêncio. Ele devia estar curioso, foi o que pensei. Após cerca de trinta segundos ele pulou para outro galho, mais acima, mais próximo, ficando nesse momento a um metro e meio de mim. Exibia-se? Tanto faz. Era para mim um momento íntimo. Talvez não para ele. Mas éramos somente nós.
E como se já fosse suficiente para minha apreciação, ele voou, mudo, um pouco mais para longe. E eu continuei ali, respirando a natureza, observando-o se afastar. Olhei em volta e tudo estava mais colorido. Não era pra menos, minha visão estava plena; embora nem precisei disso para ver que já havia outros pássaros pelo local, da mesma espécie do dia anterior; os de plumagem rósea também. O lugar era deles, suas belezas combinavam. E certamente não era escolha racional e excludente, como fazemos nós humanos. Parecia imanência pura.
Voltando para casa de meu pai ainda pensei, nem sei bem porque, na belíssima pressuposição de G. K. Chesterton, de que o homem foi um animal que um dia enlouqueceu e começou a pensar.
Haverá pássaros enlouquecidos de beleza?



Magno Mello

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