terça-feira, 5 de novembro de 2013

Arte e cultura como construção e desconstrução

A cultura artística no Brasil é considerada tão pouco importante que ainda hoje mal conseguimos associá-la ou analisá-la como ferramenta de educação. Nesses tempos em que o tema Educação ocupa lugar de destaque nas frentes sociais e políticas, ainda muito timidamente se ouve a palavra cultura associada aos discursos.

Mas porque a cultura seria tão importante? Somos um país que mal chegou à educação. Não deveríamos primeiro cuidar do mais básico para, aí sim, desenvolver outros refinamentos? Definitivamente, não. Pelo simples fato de que só a educação, por si, não é suficiente para responder aos múltiplos anseios cognitivos humanos. Falo sobre o pensamento crítico, independente, a sabedoria, o conhecimento aliado ao autoconhecimento, a sensibilidade, a subjetividade, a razão aliada à intuição, o senso estético e ético apurados. Conhecer algo é tornar-se capaz de transformar o que quer que seja a partir desse conhecimento. E com isso transformar-se, permanentemente. E a educação, pelo menos a tradicional, não tem essa qualidade de ensinar a transformar, mas, muito mais, a proceder.

A cultura, no entanto, carrega esse poder transformador, pois não é somente construção, é também desconstrução. E é transformação permanente, o que não acontece com a educação, geralmente mais estática e pré-estabelecida. Como observou Hannah Arendt, a educação tende a ser conservadora, e de certo modo precisa ser, porque sua transmissão é que faz permanecer vivo nosso legado cultural. Idéia compartilhada pelo educador Moacir Gadotti: "O professor e a educação são o elo entre o passado e o futuro, não tem futuro quem não tem passado, e quem faz esse passado é o professor".

E aí entra o papel processador que a cultura deve ter em relação à educação. A cultura, especialmente a artística, atua em diferentes áreas cognitivas do indivíduo, o que o ajuda a cruzar com maior desenvoltura informações racionais, emocionais e sensoriais, e com isso obter o que existe de mais caro no mundo de hoje: idéias; mais especificamente, idéias originais. E num mundo em acelerada e irreversível transformação nada tende a ser mais importante que o pensamento original, para que esse mundo, com toda sua complexidade, não desabe sobre nossas cabeças nas próximas décadas. Precisaremos improvisar e criar a cada novo fenômeno que brotará desse emaranhado estrutural e tecnológico.

 
Entropia cultural

Um dos maiores dramas no conhecimento atual é o que o sociólogo americano Alvin Toffler chama de obsolecimento ou conhecimento obsoleto, que é um grande depósito de lixo, dentro de nossas cabeças e do megacérebro global, de informações ultrapassadas. Nunca, em nenhum momento da história, o volume de obsolecimento foi tão grande. E continua aumentando em proporções gigantescas. Chegará o momento, se é que já não chegou, que o volume de conhecimento obsoleto será muito maior que o de conhecimento válido. Pois o que fazer com tanta informação perdida?

Acontece que são informações perdidas apenas no pensamento linear ou sequencial, pelo qual fomos e ainda temos sido educados. No pensamento não-linear, simultâneo, radial, em rede, entre outras possibilidades de nomeação, essas informações podem ser ressignificadas, reorganizadas, recicladas, tornando-se novamente idéias não apenas válidas no presente, mas com relação ao que ainda não foi pensado. Em outras palavras, perde-se menos pelo caminho e ganha-se em robustez rumo ao futuro; não podemos deixar de nos perguntar neste momento por que Steve Jobs conseguiu mudar o mundo com suas idéias; certamente não foi por algo que aprendeu nos moldes tradicionais da escola.

O pensamento de hoje, portanto, não pode prescindir da simultaneidade, da razão aliada à emoção, à intuição e a múltiplas outras informações, e sensações. Conhecimento, cada vez mais, significa capacidade de elaboração, de criação, e cada vez menos conteúdo estático e ou desconexo. A educação, para sobreviver como tal, deve reaproximar-se de seu significado original, do latim educare, que significa "retirar de" e não "colocar em", como ainda costumamos ministrá-la. Significa extrair do indivíduo o que ele, em algum lugar de si, já sabe. O que somente ele e ninguém mais pode dar ao mundo. E é desse modo que nos tornaremos mais importantes, para nós mesmos e para a sociedade.

Magno Mello

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