A cultura artística no Brasil é
considerada tão pouco importante que ainda hoje mal conseguimos associá-la ou
analisá-la como ferramenta de educação. Nesses tempos em que o tema Educação
ocupa lugar de destaque nas frentes sociais e políticas, ainda muito timidamente
se ouve a palavra cultura associada aos discursos.
Mas porque a cultura seria tão
importante? Somos um país que mal chegou à educação. Não deveríamos primeiro
cuidar do mais básico para, aí sim, desenvolver outros refinamentos?
Definitivamente, não. Pelo simples fato de que só a educação, por si, não é
suficiente para responder aos múltiplos anseios cognitivos humanos. Falo sobre
o pensamento crítico, independente, a sabedoria, o conhecimento aliado ao
autoconhecimento, a sensibilidade, a subjetividade, a razão aliada à intuição,
o senso estético e ético apurados. Conhecer algo é tornar-se capaz de
transformar o que quer que seja a partir desse conhecimento. E com isso
transformar-se, permanentemente. E a educação, pelo menos a tradicional, não
tem essa qualidade de ensinar a transformar, mas, muito mais, a proceder.
A cultura, no entanto, carrega
esse poder transformador, pois não é somente construção, é também
desconstrução. E é transformação permanente, o que não acontece com a educação,
geralmente mais estática e pré-estabelecida. Como observou Hannah Arendt, a
educação tende a ser conservadora, e de certo modo precisa ser, porque sua
transmissão é que faz permanecer vivo nosso legado cultural. Idéia
compartilhada pelo educador Moacir Gadotti: "O professor e a educação são
o elo entre o passado e o futuro, não tem futuro quem não tem passado, e quem
faz esse passado é o professor".
E aí entra o papel processador que
a cultura deve ter em relação à educação. A cultura, especialmente a artística,
atua em diferentes áreas cognitivas do indivíduo, o que o ajuda a cruzar com
maior desenvoltura informações racionais, emocionais e sensoriais, e com isso
obter o que existe de mais caro no mundo de hoje: idéias; mais especificamente,
idéias originais. E num mundo em acelerada e irreversível transformação nada
tende a ser mais importante que o pensamento original, para que esse mundo, com
toda sua complexidade, não desabe sobre nossas cabeças nas próximas décadas.
Precisaremos improvisar e criar a cada novo fenômeno que brotará desse
emaranhado estrutural e tecnológico.
Entropia cultural
Um dos maiores dramas no
conhecimento atual é o que o sociólogo americano Alvin Toffler chama de
obsolecimento ou conhecimento obsoleto, que é um grande depósito de lixo,
dentro de nossas cabeças e do megacérebro global, de informações ultrapassadas.
Nunca, em nenhum momento da história, o volume de obsolecimento foi tão grande.
E continua aumentando em proporções gigantescas. Chegará o momento, se é que já
não chegou, que o volume de conhecimento obsoleto será muito maior que o de conhecimento
válido. Pois o que fazer com tanta informação perdida?
Acontece que são informações
perdidas apenas no pensamento linear ou sequencial, pelo qual fomos e ainda
temos sido educados. No pensamento não-linear, simultâneo, radial, em rede,
entre outras possibilidades de nomeação, essas informações podem ser
ressignificadas, reorganizadas, recicladas, tornando-se novamente idéias não
apenas válidas no presente, mas com relação ao que ainda não foi pensado. Em
outras palavras, perde-se menos pelo caminho e ganha-se em robustez rumo ao
futuro; não podemos deixar de nos perguntar neste momento por que Steve Jobs
conseguiu mudar o mundo com suas idéias; certamente não foi por algo que
aprendeu nos moldes tradicionais da escola.
O pensamento de hoje, portanto,
não pode prescindir da simultaneidade, da razão aliada à emoção, à intuição e a
múltiplas outras informações, e sensações. Conhecimento, cada vez mais,
significa capacidade de elaboração, de criação, e cada vez menos conteúdo
estático e ou desconexo. A educação, para sobreviver como tal, deve
reaproximar-se de seu significado original, do latim educare, que significa
"retirar de" e não "colocar em", como ainda costumamos
ministrá-la. Significa extrair do indivíduo o que ele, em algum lugar de si, já
sabe. O que somente ele e ninguém mais pode dar ao mundo. E é desse modo que
nos tornaremos mais importantes, para nós mesmos e para a sociedade.
Magno Mello
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