terça-feira, 5 de novembro de 2013

O sujeito

O que é o sujeito? Segundo o sociólogo Alan Torraine é, antes de tudo, essa indiscriminada movimentação psíquica e emocional, acima e abaixo de normas, ideologias e mitos. Acima, quando não reconhece o (ou não se submete ao) conjunto de imposições sociais diante de vontades ou necessidades pessoais, urgentes ou não. Abaixo, porque esse mesmo ser é inevitavelmente trespassado, influenciado e muitas vezes dominado pelas ideologias de seu tempo e de todos os outros tempos, incluindo os vindouros.
  
Mais intrigante, porém, é identificar como se forma o sujeito em cada um de nós. Freud tem lá suas teorias. Grosso modo, ele nos diz que o sujeito se estrutura pelos traumas, em meio a afetos, claro, porque ninguém é de ferro. Primeiro, ao descobrir que o seio materno e o próprio mundo não são extensão de seu corpo. Depois é só seguir a lista: reconhecimento das diferenças, castração, aparecimento do supereu e toda uma série de imperativos nãos que vamos colecionando vida afora e que nos constroem na forma negativa.
  
Somos, portanto, cultural e psiquicamente muito mais o sujeito das impossibilidades do que das possibilidades. A sociedade, incluindo aí a família, com seus interesses, leis e crenças, acaba por sedimentar nosso rol de impossibilidades, apesar dos afetos.
  
Quanto às possibilidades, são quase sempre as mesmas: instinto de sobrevivência e vontade de poder. São basicamente com essas ferramentas que reagimos, que construímos nosso sujeito pelo lado positivo. Temos, portanto, um quadro de medo, frustração, dominação e achatamento individual, combinado com nossos poderes subjetivos de reação; sempre ligados também ao afeto. E quanto mais atuamos como sujeitos, ou seja, com esses poderes subjetivos de combate, mais nos sentimos aptos, confiantes e dispostos a reagir contra modelos oficializados, que são justamente os pilares de nossas impossibilidades, que não podem, nem poderiam representar o indivíduo. 

Hoje, no entanto, estamos todos sendo afastados, à revelia, de muitos de nossos padrões “conquistados”, que são nossas próprias impossibilidades, e nos vendo forçados a encarar inimigo ainda mais desafiador. Não mais os escaninhos de moral que nos dominavam e dominam, porém, nosso próprio sujeito, esse misterioso ator cheio de impedimentos e íntimas amoralidades, que tanto nos assusta. Apesar de ser uma oportunidade quase inédita na história social do mundo, muitos gostariam de não ter que passar por isso, por não querer assumir individualmente a responsabilidade pelo que sentem ou pensam; não querem carregar esse fardo e nem reconhecem nisso uma possível liberdade. Enquanto as idéias estiverem balizadas no senso comum, na coletividade, seu peso é dividido, o que, supostamente, torna tudo mais simples e mais leve. 

Mas o coletivo se dissipou. Ficamos tão ocupados com nossas individualidades e quando vimos, a coletividade havia perdido sua forma reconhecível ou ideologicamente reconhecível. E agora a pergunta não é mais quem somos nós, mas, quem sou eu. E esse quem sou eu, ao contrário de quem somos nós, não aceita mais nenhum tipo de pacote fechado, nem mesmo a definição ilusória das palavras. Quem sou? Defina-me. No entanto, tudo que disser serão apenas opiniões aleatórias, muito distantes de quem sou de fato. E como bem observa Torraine, “todos nós somos tentados a dar ao sujeito uma figura claramente defasada em relação à experiência vivida”. 

Estamos, portanto, entendendo que somos muito diferentes dos conceitos e estigmatizações sociais, que nossas crenças individuais podem ser bem distantes dos ditames da coletividade, e o que mais dói: hoje nos vemos obrigados não apenas a aprender muito mais sobre quem somos, sem ter como nos apoiar em ideologias ou delineamentos alheios, coletivos ou individuais, mas a criar nossos próprios delineamentos, verdades e sentidos, que por sua vez podem ser (e tendem a ser) apenas temporários. A maioria ainda tenta se agarrar a qualquer coisa que não ao próprio sujeito, esse buraco escuro, preenchido com ideologias simbólicas que nos vem à cabeça ou nos são transmitidas em suas incontáveis formas e não-formas, e se oficializam em modelos e crenças.  

De outro modo, quando se olha em volta, vê-se que esses enquadramentos sociais, comportamentais, psicológicos e até religiosos em muitos casos, estão sumindo ou já sumiram; se não de forma visível, mas invisível e sorrateiramente. Surge, assim, essa nova exigência da vida: segure-se quem puder segurar-se em si próprio, apesar da família, dos amigos, dos colegas, dos patrões, do estado, da religião e dos amores; porque eles também não têm mais as respostas, ninguém as têm.
  
Mas vem a parte boa: a nova construção de nós mesmos, baseada em nós mesmos e não mais em idéias coletivas e tendenciosas do que somos, devemos ou deveríamos ser. A estrada está irremediavelmente aberta e é isto o que agora temos para nos balizar: nossa autoconstrução permanente, nossa moral quase própria e multifacetada, e nossas crenças mais íntimas, antes das palavras, ou seja, nossa intuição.
 
De resto, o mais importante muitas vezes não é o mais importante, isso é apenas uma idéia que alguém teve, seguida de contínuas confirmações alheias, que podem ter acontecido por qualquer motivo, qualquer mesmo, mais provavelmente por falta de subjetividade dos atores. Verdade absoluta: “nada é mais importante do que a vida”. Mentira. Para muitos a morte é mais importante, seja para aplacar de vez uma dor insuportável ou, especialmente, nos incontáveis casos de suicídios ideológicos ou religiosos. Para mim, nada é mais importante do que a vida. Mas para outros, como posso julgar? Eu mesmo não acredito em vida depois da morte. Mas tenho que achar que isso é verdade absoluta? 


Verdade absoluta, se existisse, seria muito mais alguém morrer voluntariamente acreditando que vai receber de presente setenta e duas virgens e assim existir num gozo eterno.                              

Magno Mello

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