O que é o sujeito? Segundo o
sociólogo Alan Torraine é, antes de tudo, essa indiscriminada movimentação
psíquica e emocional, acima e abaixo de normas, ideologias e mitos. Acima,
quando não reconhece o (ou não se submete ao) conjunto de imposições sociais
diante de vontades ou necessidades pessoais, urgentes ou não. Abaixo, porque
esse mesmo ser é inevitavelmente trespassado, influenciado e muitas vezes
dominado pelas ideologias de seu tempo e de todos os outros tempos, incluindo
os vindouros.
Mais intrigante, porém, é
identificar como se forma o sujeito em cada um de nós. Freud tem lá suas
teorias. Grosso modo, ele nos diz que o sujeito se estrutura pelos traumas, em
meio a afetos, claro, porque ninguém é de ferro. Primeiro, ao descobrir que o
seio materno e o próprio mundo não são extensão de seu corpo. Depois é só
seguir a lista: reconhecimento das diferenças, castração, aparecimento do
supereu e toda uma série de imperativos nãos que vamos colecionando vida afora
e que nos constroem na forma negativa.
Somos, portanto, cultural e
psiquicamente muito mais o sujeito das impossibilidades do que das
possibilidades. A sociedade, incluindo aí a família, com seus interesses, leis
e crenças, acaba por sedimentar nosso rol de impossibilidades, apesar dos
afetos.
Quanto às possibilidades,
são quase sempre as mesmas: instinto de sobrevivência e vontade de poder. São
basicamente com essas ferramentas que reagimos, que construímos nosso sujeito
pelo lado positivo. Temos, portanto, um quadro de medo, frustração, dominação e
achatamento individual, combinado com nossos poderes subjetivos de reação;
sempre ligados também ao afeto. E quanto mais atuamos como sujeitos, ou seja,
com esses poderes subjetivos de combate, mais nos sentimos aptos, confiantes e
dispostos a reagir contra modelos oficializados, que são justamente os pilares
de nossas impossibilidades, que não podem, nem poderiam representar o
indivíduo.
Hoje, no entanto, estamos
todos sendo afastados, à revelia, de muitos de nossos padrões “conquistados”,
que são nossas próprias impossibilidades, e nos vendo forçados a encarar
inimigo ainda mais desafiador. Não mais os escaninhos de moral que nos
dominavam e dominam, porém, nosso próprio sujeito, esse misterioso ator cheio
de impedimentos e íntimas amoralidades, que tanto nos assusta. Apesar de ser
uma oportunidade quase inédita na história social do mundo, muitos gostariam de
não ter que passar por isso, por não querer assumir individualmente a
responsabilidade pelo que sentem ou pensam; não querem carregar esse fardo e
nem reconhecem nisso uma possível liberdade. Enquanto as idéias estiverem
balizadas no senso comum, na coletividade, seu peso é dividido, o que,
supostamente, torna tudo mais simples e mais leve.
Mas o coletivo se dissipou.
Ficamos tão ocupados com nossas individualidades e quando vimos, a coletividade
havia perdido sua forma reconhecível ou ideologicamente reconhecível. E agora a
pergunta não é mais quem somos nós, mas, quem sou eu. E esse quem sou eu, ao
contrário de quem somos nós, não aceita mais nenhum tipo de pacote fechado, nem
mesmo a definição ilusória das palavras. Quem sou? Defina-me. No entanto, tudo
que disser serão apenas opiniões aleatórias, muito distantes de quem sou de
fato. E como bem observa Torraine, “todos nós somos tentados a dar ao sujeito
uma figura claramente defasada em relação à experiência vivida”.
Estamos, portanto,
entendendo que somos muito diferentes dos conceitos e estigmatizações sociais,
que nossas crenças individuais podem ser bem distantes dos ditames da
coletividade, e o que mais dói: hoje nos vemos obrigados não apenas a aprender
muito mais sobre quem somos, sem ter como nos apoiar em ideologias ou
delineamentos alheios, coletivos ou individuais, mas a criar nossos próprios
delineamentos, verdades e sentidos, que por sua vez podem ser (e tendem a ser)
apenas temporários. A maioria ainda tenta se agarrar a qualquer coisa que não
ao próprio sujeito, esse buraco escuro, preenchido com ideologias simbólicas
que nos vem à cabeça ou nos são transmitidas em suas incontáveis formas e
não-formas, e se oficializam em modelos e crenças.
De outro modo, quando se
olha em volta, vê-se que esses enquadramentos sociais, comportamentais,
psicológicos e até religiosos em muitos casos, estão sumindo ou já sumiram; se
não de forma visível, mas invisível e sorrateiramente. Surge, assim, essa nova
exigência da vida: segure-se quem puder segurar-se em si próprio, apesar da
família, dos amigos, dos colegas, dos patrões, do estado, da religião e dos
amores; porque eles também não têm mais as respostas, ninguém as têm.
Mas vem a parte boa: a nova
construção de nós mesmos, baseada em nós mesmos e não mais em idéias coletivas
e tendenciosas do que somos, devemos ou deveríamos ser. A estrada está
irremediavelmente aberta e é isto o que agora temos para nos balizar: nossa
autoconstrução permanente, nossa moral quase própria e multifacetada, e nossas
crenças mais íntimas, antes das palavras, ou seja, nossa intuição.
De resto, o mais importante
muitas vezes não é o mais importante, isso é apenas uma idéia que alguém teve,
seguida de contínuas confirmações alheias, que podem ter acontecido por
qualquer motivo, qualquer mesmo, mais provavelmente por falta de subjetividade
dos atores. Verdade absoluta: “nada é mais importante do que a
vida”. Mentira. Para muitos a morte é mais importante, seja para aplacar de vez
uma dor insuportável ou, especialmente, nos incontáveis casos de suicídios
ideológicos ou religiosos. Para mim, nada é mais importante do que a vida. Mas
para outros, como posso julgar? Eu mesmo não acredito em vida depois da morte.
Mas tenho que achar que isso é verdade absoluta?
Verdade absoluta, se
existisse, seria muito mais alguém morrer voluntariamente acreditando que vai
receber de presente setenta e duas virgens e assim existir num gozo
eterno.
Magno
Mello
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