Émilie du
Châtelet foi uma mulher muito a frente de seu tempo. Nascida
em Paris no ano de 1706, filha de Louis Nicolas le Tonnelier de Breteuil, o principal secretário e
apresentador de embaixadores a Louis XIV, ao completar doze anos já era fluente em Latim, italiano,
grego e alemão. Também foi educada em matemática, literatura e ciência, além de
se tornar boa cravista, cantar em peças de ópera e atuar no teatro amador. E
adorava joias caras. Casou-se com o Marquês Florent-Claude du Chastellet, mas
ela e o marido acordaram viver vidas independentes. Enquanto o marido se
dedicava às Forças Armadas ela teve um caso de amor e de colaboração científica
com Voltaire, que durou quinze anos. E por fim, tornou-se matemática
respeitada, traduziu Isaac Newton para o francês e publicou seus livros numa
época em que as mulheres...bem, você já sabe.
Um dia Madame Du Châtelet, que
antes da maioria dos homens conseguiu ser reconhecida como cientista, contestou
o próprio Newton, baseada nos estudos do filósofo e matemático irlandês Willem
Gravesande, ao demonstrar empiricamente que a energia cinética de um objeto em
movimento é proporcional à sua massa e ao quadrado de sua velocidade (E = mv2)
e não diretamente proporcional como acreditava Isaac Newton. E a fórmula teve
que ser corrigida: de E=mv para E=mv2.
Mas veja as voltas do mundo.
Em pleno século 20 essa mesma fórmula, proposta 150 anos antes, foi
determinante na elaboração de nada menos que a Teoria da Relatividade, de
Einstein. E lá estava Einstein feliz da vida com sua descoberta que mudou o
mundo: E=mc2 - energia é igual massa vezes a velocidade da luz ao quadrado.
Aliás, quanta beleza nessa proposição! Entre outras coisas provou-se que massa
é energia acumulada – gosto dessa ideia.
Daí entram na história os
cientistas alemães Otto Hahn e Lise Meitner, com seus experimentos de fissão
nuclear, para ressignificar drasticamente a teoria de Einstein, pois a fórmula
de equivalência massa-energia (E=mc2) foi usada no desenvolvimento da... bomba
atômica - que é algo como o desacúmulo súbito da energia. Bem, não é preciso
dizer que Einstein ficou arrasado ao saber da notícia. Ele que só pensava na
ciência...
Em 1944, Hahn recebeu o Prêmio
Nobel de Química por sua pesquisa em fissão nuclear. Que prêmio magnífico!
Meitner, por sua vez, foi ignorada pelo comitê, principalmente porque Hahn não
só não mencionou sua participação na pesquisa como afirmou que seus
experimentos químicos foram os únicos responsáveis pela descoberta; isso porque
em 1919 Meitner teve que fugir da Alemanha por causa da perseguição nazista. O
que não a impediu de continuar trabalhando sistematicamente por correspondência
com Hahn.
O erro nunca foi reconhecido
pelo instituto Nobel , apenas parcialmente retificado em 1966, quando Hahn,
Meitner e Fritz Straßmann (esse último também colaborador nas pesquisas)
receberam o Prêmio Enrico Fermi.
Em visita aos EUA, em 1946,
Meitner foi tratada como celebridade pela imprensa americana como a mulher que
"deixou a Alemanha com a bomba na bolsa", foi eleita a "Mulher
do Ano" pelo National Women’s Press Club (EUA), em 1946, e em 1949 recebeu
a medalha Max Planck da Sociedade Alemã de Físicos. O elemento 109, o mais
pesado do universo, foi nomeado "meitnério" (Mt) em sua homenagem
pela IUPAC. Muitas pessoas consideram Lise Meitner a "mulher mais
importante na ciência do século XX". Porém, não podemos deixar de dizer:
“Lise Meitner, a mulher que inventou a bomba atômica”.
Pobre Lise, que assim como
Einstein só queria fazer ciência. O Otto também, mas esse podemos dizer que foi
mesmo um cachorrão, portanto não se podia esperar muita coisa. Mas, e quanto
aos nossos heróis, Émilie du Châtelet, Albert Einstein e Lise Meitner (além
do Otto, claro, mas também Newton, Gravesande, Leibniz e tantos outros pelo caminho)?
Então chegamos ao ponto
central (e paradoxalmente final) desse texto: O que deixamos para o mundo com o
trabalho que produzimos diariamente?
Magno Mello
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