terça-feira, 5 de novembro de 2013

A vida depois dos valores

Talvez estejamos atravessando uma das maiores rupturas psíquicas da humanidade em todos os tempos: a possibilidade de não haver outras verdades – que viemos criando e acreditando desde que o mundo é mundo - a serem colocadas no lugar das que atualmente se desmoronam. O que colocar no lugar dos pilares que davam algum sentido à vida quando sabemos de uma vez por todas que qualquer sentido, para existir, tem e teve que ser inventado? Desde uma simples máxima popular como “Deus ajuda quem cedo madruga” à idéia de que o consumo nos torna mais felizes, que há salvação no futuro, que o capitalismo é vontade de Deus, que o bem tende a prevalecer ou que o próximo ano é o da cura, tudo foi incutido em nossas cabeças ao longo dos tempos e, simplesmente, não é verdade. Agora está ficando claro. É até irônico o fato da filósofa alemã Hannah Arendt já dizer em meados do século XX que o grande erro de Kant, Nietzsche e Kierkgaard, ao colocarem abaixo as “verdades sagradas”, cada um a sua maneira, era justamente tentar colocar outras verdades no lugar. O atual momento do mundo parece romper até mesmo com a teoria da longa duração do historiador Fernand Braudel. Segundo ele, nossos sofrimentos e aspirações, bem como nossos signos mais profundos são basicamente os mesmos desde o início das sociedades. Talvez fossem...até agora.  

Começa, porém, uma nova era da humanidade: os significados estão abertos, perderam o status de verdade absoluta e para o desconforto de muitos podem continuar assim por muito tempo. Uma coisa é atravessar determinado período histórico em que alguns valores e pautas se sobrepõem a outros. Mas agora, pelo advento da ampla e acelerada comunicação uma camada cada vez maior da população vem se dando conta de que os símbolos sempre foram apenas invenções humanas e não provenientes de deuses, e essa brincadeira pode perder a graça. E fica a incômoda pergunta: ainda haverá em que se acreditar?  Bem, pode ser que sim, talvez em duas palavrinhas mágicas: criação e afeto. Porque, no fim das contas, foram e continuam sendo as únicas grandes verdades humanas. Criação é tudo isso que inventamos e acreditamos, embora talvez devêssemos apenas vivenciar em vez de ter como regra: música, moral, esportes, moda, modismos, História, ciências, produtos, valores, mídia, consumo, castigo, progresso, amor, Deus, livre natalidade etc. Afeto é o que sentimos, acreditando ou não nessas invenções.  

Ora, o que nos dói, bem sabemos, são as expectativas não cumpridas de nossas crenças. Então, por que continuar depositando esperança em coisas sem esperança, a não ser para a satisfação temporária de nossa preguiça? Da criação e do afeto, todavia, podemos esperar algo: que eles sejam enquanto são. E curiosamente, nesse sentido, a Arte, essa fantasia que compreende os dois fenômenos, como poucas manifestações humanas, num futuro não tão distante poderá se tornar um dos únicos baluartes da "verdade". Uma obra- prima tende conservar seu sentido por séculos a fio, às vezes muito mais do que conceitos lógicos e valores sagrados. 

Tudo isso nos leva a um novo desafio diante de nossa preguiça: nada está pronto, nunca esteve, nunca estará e jamais descansaremos, até a morte. E não estamos construindo algo em nossas vidas, apenas transformando, criando e nos afetando, perpetuamente. 
  
Mas o que há de errado nisso?                                   

                                                                                                                               
Magno Mello

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