Talvez estejamos
atravessando uma das maiores rupturas psíquicas da humanidade em todos os
tempos: a possibilidade de não haver outras verdades – que viemos criando e
acreditando desde que o mundo é mundo - a serem colocadas no lugar das que
atualmente se desmoronam. O que colocar
no lugar dos pilares que davam algum sentido à vida quando sabemos de uma vez
por todas que qualquer sentido, para existir, tem e teve que ser
inventado? Desde uma simples máxima
popular como “Deus ajuda quem cedo madruga” à idéia de que o consumo nos torna
mais felizes, que há salvação no futuro, que o capitalismo é vontade de Deus,
que o bem tende a prevalecer ou que o próximo ano é o da cura, tudo foi
incutido em nossas cabeças ao longo dos tempos e, simplesmente, não é verdade.
Agora está ficando claro. É até irônico o fato da filósofa alemã Hannah Arendt
já dizer em meados do século XX que o grande erro de Kant, Nietzsche e
Kierkgaard, ao colocarem abaixo as “verdades sagradas”, cada um a sua maneira, era
justamente tentar colocar outras verdades no lugar. O atual momento do mundo
parece romper até mesmo com a teoria da longa duração do historiador Fernand
Braudel. Segundo ele, nossos sofrimentos e aspirações, bem como nossos signos
mais profundos são basicamente os mesmos desde o início das sociedades. Talvez
fossem...até agora.
Começa, porém, uma nova era
da humanidade: os significados estão abertos, perderam o status de verdade
absoluta e para o desconforto de muitos podem continuar assim por muito tempo.
Uma coisa é atravessar determinado período histórico em que alguns valores e
pautas se sobrepõem a outros. Mas agora, pelo advento da ampla e acelerada
comunicação uma camada cada vez maior da população vem se dando conta de que os
símbolos sempre foram apenas invenções humanas e não provenientes de deuses, e
essa brincadeira pode perder a graça. E fica a incômoda pergunta: ainda haverá
em que se acreditar? Bem, pode ser que
sim, talvez em duas palavrinhas mágicas: criação e afeto. Porque, no fim das
contas, foram e continuam sendo as únicas grandes verdades humanas. Criação é
tudo isso que inventamos e acreditamos, embora talvez devêssemos apenas
vivenciar em vez de ter como regra: música, moral, esportes, moda, modismos,
História, ciências, produtos, valores, mídia, consumo, castigo, progresso,
amor, Deus, livre natalidade etc. Afeto é o que sentimos, acreditando ou não
nessas invenções.
Ora, o que nos dói, bem
sabemos, são as expectativas não cumpridas de nossas crenças. Então, por que
continuar depositando esperança em coisas sem esperança, a não ser para a
satisfação temporária de nossa preguiça? Da criação e do afeto, todavia, podemos
esperar algo: que eles sejam enquanto são. E curiosamente, nesse sentido, a
Arte, essa fantasia que compreende os dois fenômenos, como poucas
manifestações humanas, num futuro não tão distante poderá se tornar um dos
únicos baluartes da "verdade". Uma obra- prima tende conservar seu
sentido por séculos a fio, às vezes muito mais do que conceitos lógicos e
valores sagrados.
Tudo isso nos leva a um novo
desafio diante de nossa preguiça: nada está pronto, nunca esteve, nunca estará
e jamais descansaremos, até a morte. E não estamos construindo algo em nossas
vidas, apenas transformando, criando e nos afetando, perpetuamente.
Magno
Mello
Nenhum comentário:
Postar um comentário