O mundo se
constrói e se articula por meio do poder, o tempo todo, a cada momento, nos
lares, no trabalho, nos espaços públicos, nas relações. Antes de tudo, de modo
privado, de um sobre um, de um sobre dois, de dois sobre dez. A partir daí a
coisa começa a ficar pública: de doze sobre nove mil, de vinte e dois sobre
cinquenta mil, de setenta sobre duzentos milhões, de trezentos e oitenta e sete
sobre sete bilhões.
Quanto a
nós, eu ou você, exercemos poder aqui e somos atingidos ali pelo poder de
outro, diariamente ou quase, e até muitas vezes ao dia, com a frequência dependendo
menos da posição ocupada do que da independência pessoal alcançada dentro do
sistema.
O que faz o
poder? Por exemplo, inventa o domingo e a semana. Oito pessoas, se muito, lá
por volta dos anos 300 d.C, representando apenas elas mesmas e um grupo seleto
de amigos ou comparsas, em uma sala mal iluminada e úmida, de móveis e objetos
pesadíssimos, decidem criar um dia chamado domingo, que seria o dia do
descanso, o tal do sétimo dia. Esse, faria parte de um conjunto de outros seis
dias, ancorados na ideia da concepção apocalíptica judaica de uma idade
sabática no fim dos tempos, ou os seis dias da Criação. E cada um dos seis dias
estaria ligado a uma idade religiosa da terra: de Adão a Noé, de Noé a Abraão,
de Abraão a David, de David ao cativeiro da babilônia, do cativeiro ao
nascimento de Cristo, do nascimento de Cristo ao fim do mundo, nos conta Le
Goff. Tal ligação foi conferida por Santo Agostinho como verdade teórica em
alguns de seus textos. E para legitimar, oficializar, de modo ainda mais
“natural”, os seis dias foram também conectados às seis idades do indivíduo na
terra: primeira infância, infância, adolescência, juventude, fase adulta e
velhice.
No avanço do
poder de poucos sobre muitos houve ainda outra contundente estratégia: o
calendário. Sim, esse mesmo que conhecemos, com datas festivas, oficiais, dias
de descanso, de reza, de jejum, de trabalho. Os calendários mais antigos
continham até o horário em que se deveria rezar e comer. Sem contar suas
procedências: todos os calendários, talvez sem exceção, na história mitológica
dos povos, foram “encontrados” por deuses ou reis-deuses. Não foram criados
pelo homem. Foram, isto sim, encontrados, vieram do céu. Pronto, nosso tempo
estava dominado, da forma mais profunda possível, o poder atuando diretamente
em nossa fé, em nosso medo do castigo divino. E os que exerciam poder passaram
a exercer mais poder.
Pois é assim
que o mundo vai se construindo, a partir de seu poder sobre o outro e do outro
sobre você, e ainda do poder dos mais espertos, corruptos e gananciosos, sobre
todo mundo; poder de convencimento, físico, econômico, moral, sedutor.
Mas poderia
existir um mundo sem poder? Não. O poder é natural. Poderia, no entanto, ser
atenuado pelo uso da razão. Só que isso quase não acontece. Civilidade é uma
coisa, o que está por baixo da capa de gordura é o que realmente articula a
sociedade. E isso é poder, que se dá em gradações infinitas, desde uma simples
informação absorvida por outrem, o que significa poder de influência de alguém
sobre esse, até patamares absolutos, como tirar uma vida alheia ou dominar um
povo pelo uso da força militar; ou estratégias pacíficas e invisíveis.
Poder,
portanto, não é bom nem ruim, apenas existe. O problema é o que construímos no
mundo a cada vez que exercemos nosso poder sobre os outros e quando deixamos,
seja por qual motivo for, que outros exerçam seu poder sobre nós.
Magno Mello
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