terça-feira, 5 de novembro de 2013

A articulação do poder

O mundo se constrói e se articula por meio do poder, o tempo todo, a cada momento, nos lares, no trabalho, nos espaços públicos, nas relações. Antes de tudo, de modo privado, de um sobre um, de um sobre dois, de dois sobre dez. A partir daí a coisa começa a ficar pública: de doze sobre nove mil, de vinte e dois sobre cinquenta mil, de setenta sobre duzentos milhões, de trezentos e oitenta e sete sobre sete bilhões.
 
Quanto a nós, eu ou você, exercemos poder aqui e somos atingidos ali pelo poder de outro, diariamente ou quase, e até muitas vezes ao dia, com a frequência dependendo menos da posição ocupada do que da independência pessoal alcançada dentro do sistema.
 
O que faz o poder? Por exemplo, inventa o domingo e a semana. Oito pessoas, se muito, lá por volta dos anos 300 d.C, representando apenas elas mesmas e um grupo seleto de amigos ou comparsas, em uma sala mal iluminada e úmida, de móveis e objetos pesadíssimos, decidem criar um dia chamado domingo, que seria o dia do descanso, o tal do sétimo dia. Esse, faria parte de um conjunto de outros seis dias, ancorados na ideia da concepção apocalíptica judaica de uma idade sabática no fim dos tempos, ou os seis dias da Criação. E cada um dos seis dias estaria ligado a uma idade religiosa da terra: de Adão a Noé, de Noé a Abraão, de Abraão a David, de David ao cativeiro da babilônia, do cativeiro ao nascimento de Cristo, do nascimento de Cristo ao fim do mundo, nos conta Le Goff. Tal ligação foi conferida por Santo Agostinho como verdade teórica em alguns de seus textos. E para legitimar, oficializar, de modo ainda mais “natural”, os seis dias foram também conectados às seis idades do indivíduo na terra: primeira infância, infância, adolescência, juventude, fase adulta e velhice.
 
No avanço do poder de poucos sobre muitos houve ainda outra contundente estratégia: o calendário. Sim, esse mesmo que conhecemos, com datas festivas, oficiais, dias de descanso, de reza, de jejum, de trabalho. Os calendários mais antigos continham até o horário em que se deveria rezar e comer. Sem contar suas procedências: todos os calendários, talvez sem exceção, na história mitológica dos povos, foram “encontrados” por deuses ou reis-deuses. Não foram criados pelo homem. Foram, isto sim, encontrados, vieram do céu. Pronto, nosso tempo estava dominado, da forma mais profunda possível, o poder atuando diretamente em nossa fé, em nosso medo do castigo divino. E os que exerciam poder passaram a exercer mais poder.
 
Pois é assim que o mundo vai se construindo, a partir de seu poder sobre o outro e do outro sobre você, e ainda do poder dos mais espertos, corruptos e gananciosos, sobre todo mundo; poder de convencimento, físico, econômico, moral, sedutor.
 
Mas poderia existir um mundo sem poder? Não. O poder é natural. Poderia, no entanto, ser atenuado pelo uso da razão. Só que isso quase não acontece. Civilidade é uma coisa, o que está por baixo da capa de gordura é o que realmente articula a sociedade. E isso é poder, que se dá em gradações infinitas, desde uma simples informação absorvida por outrem, o que significa poder de influência de alguém sobre esse, até patamares absolutos, como tirar uma vida alheia ou dominar um povo pelo uso da força militar; ou estratégias pacíficas e invisíveis.
 
Poder, portanto, não é bom nem ruim, apenas existe. O problema é o que construímos no mundo a cada vez que exercemos nosso poder sobre os outros e quando deixamos, seja por qual motivo for, que outros exerçam seu poder sobre nós.


Magno Mello

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