terça-feira, 5 de novembro de 2013

A importância de fazer o que se gosta

Um grande amigo, bem mais velho que eu, uns quarenta anos a mais, mas pessoa ainda dotada de certa jovialidade, disse-me outro dia que a vida era mesmo assim: que ele não era realizado. Mas o que se podia fazer? Então, lhe respondi, segundo minha ótica – pois ele também colocava a dele – o que haveria de se fazer.
 
Ilustro-o, para melhor compreensão do caso: quanto às suas questões financeiras, estão resolvidas há muito tempo. Se não é rico, é pelo menos remediado com boa sobra. Seu sonho era ser pintor, mas optou por ser empresário. E venceu. Agora, anda padecendo de alguma melancolia, gosta cada vez mais de animais e plantas e menos de gente, e faz uns quinze anos que não pinta.
 
Havia questionado “o que se podia fazer?” para aconselhar-me sobre os perigos da carreira artística, os altos e baixos financeiros a que os artistas estão sujeitos, mais que em outras profissões, sendo que, a cada dia a vida exigia novos confortos e necessidades.Também ponderou que havia muita exigência na carreira artística, especialmente com relação ao sucesso, e que isso era fardo pesado de se carregar, já que corria-se o risco, bem mais que o contrário, do sucesso não vir.
 
Diante dessas suas primeiras colocações respondi rapidamente que ser artista era também filosofia de vida e que eu não tinha ilusões com relação ao sucesso, como ele pensava. E ainda, que sabia não ser isso o que me faria feliz, até porque não há ponto de chegada.
 
Então, meu amigo retomou a palavra e no calor das ideias o discurso migrou para sua desconfiança sobre a própria validade da filosofia; questionando também se eu não havia lido demais essas eteriedades. Pois, ele até que lera uns autores e não foram poucos, e ainda sabia muita coisa de cor. Mas no fim das contas o que aprendera? E mais do que tudo: a que conclusões se chega, ou se chegou até hoje, por meio da filosofia? - que para ele parecia um emaranhado cada vez maior de tudo e de nada, enfim, uma grande viagem silógica sem finalidade prática, embora muito interessante.
 
Ouvidas suas observações ponderei, primeiramente, naquele nosso exercício de dialética – e isso já é filosofia - que conhecimento não pressupõe sabedoria. Que não adianta muita coisa, por exemplo, apenas saber de cor os pensamentos de cada autor. Mas pode adiantar, e muito, se incorporá-los mais que decorá-los, se deixá-los afetar também a alma; e isso era algo que ele não havia feito. Também considerei que somos nós que criamos nossas próprias necessidades, que resolvemos ir por esse ou aquele caminho e muitas vezes optamos pelo caminho mais seguro; mas não necessariamente o mais feliz.
 
E foi aí que entrei no ponto central de minha argumentação: que só uma coisa pode levar alguém a ser feliz de fato - e não há negociação: o fazer continuado do que se gosta. Sem isso, não se consegue chegar ao sentimento de realização. Fica sempre faltando algo, ainda que se tenha sucesso financeiro. E que era por esse motivo que ele se sentia melancólico, não realizado, pois deixou de fazer, em nome de atender suas necessidades de conforto, o que lhe era de fato mais caro: pintar. Quando estava pintando, era feliz, mesmo que não fosse tão rico; embora tenha se esquecido disso.
 
De minha parte – e foi o que mais aprendi com a filosofia: a desconstruir o senso comum – estou fazendo o que mais gosto, continuadamente, faça sol ou chuva, com mais ou menos dinheiro, correndo mais ou menos riscos. Estou fazendo. E continuarei a fazer, uma vez que é assim que sou mais feliz e mais pleno, mesmo em tempos de tristeza ou carências materiais; que não são esses. Portanto, não espero muito mais da vida além de continuar fazendo o que faço. E esse é meu lema: a vida terá passado e eu terei feito o que mais gosto de fazer. E sou feliz por isso, com maior ou menor êxito, com ou sem sucesso. Acordo todos os dias para fazer o que gosto. Não sinto falta de quase nada. E só.
 
Então, veio minha pergunta a ele; a que eu ainda não havia feito: vale mesmo à pena? Ele pensou um pouco, me olhou e respondeu: continue fazendo o que faz, não pare e não acredite em nada do que eu lhe disse. E faça isso por você e também por mim.
 
E ontem, passados alguns dias de nossa conversa, encontrei com ele mais uma vez, e a primeira coisa que me disse: “voltei a pintar, nas poucas horas vagas, mas voltei a pintar”.
                                                       
     
Magno Mello

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