Um grande
amigo, bem mais velho que eu, uns quarenta anos a mais, mas pessoa ainda dotada
de certa jovialidade, disse-me outro dia que a vida era mesmo assim: que ele
não era realizado. Mas o que se podia fazer? Então, lhe respondi, segundo minha
ótica – pois ele também colocava a dele – o que haveria de se fazer.
Ilustro-o,
para melhor compreensão do caso: quanto às suas questões financeiras, estão
resolvidas há muito tempo. Se não é rico, é pelo menos remediado com boa sobra.
Seu sonho era ser pintor, mas optou por ser empresário. E venceu. Agora, anda
padecendo de alguma melancolia, gosta cada vez mais de animais e plantas e
menos de gente, e faz uns quinze anos que não pinta.
Havia
questionado “o que se podia fazer?” para aconselhar-me sobre os perigos da
carreira artística, os altos e baixos financeiros a que os artistas estão
sujeitos, mais que em outras profissões, sendo que, a cada dia a vida exigia
novos confortos e necessidades.Também
ponderou que havia muita exigência na carreira artística, especialmente com
relação ao sucesso, e que isso era fardo pesado de se carregar, já que
corria-se o risco, bem mais que o contrário, do sucesso não vir.
Diante
dessas suas primeiras colocações respondi rapidamente que ser artista era
também filosofia de vida e que eu não tinha ilusões com relação ao sucesso,
como ele pensava. E ainda, que sabia não ser isso o que me faria feliz, até
porque não há ponto de chegada.
Então, meu
amigo retomou a palavra e no calor das ideias o discurso migrou para sua
desconfiança sobre a própria validade da filosofia; questionando também se eu
não havia lido demais essas eteriedades. Pois, ele até que lera uns autores e
não foram poucos, e ainda sabia muita coisa de cor. Mas no fim das contas o que
aprendera? E mais do que tudo: a que conclusões se chega, ou se chegou até
hoje, por meio da filosofia? - que para ele parecia um emaranhado cada vez
maior de tudo e de nada, enfim, uma grande viagem silógica sem finalidade
prática, embora muito interessante.
Ouvidas suas
observações ponderei, primeiramente, naquele nosso exercício de dialética – e
isso já é filosofia - que conhecimento não pressupõe sabedoria. Que não adianta
muita coisa, por exemplo, apenas saber de cor os pensamentos de cada autor. Mas
pode adiantar, e muito, se incorporá-los mais que decorá-los, se deixá-los
afetar também a alma; e isso era algo que ele não havia feito. Também
considerei que somos nós que criamos nossas próprias necessidades, que
resolvemos ir por esse ou aquele caminho e muitas vezes optamos pelo caminho
mais seguro; mas não necessariamente o mais feliz.
E foi aí que
entrei no ponto central de minha argumentação: que só uma coisa pode levar
alguém a ser feliz de fato - e não há negociação: o fazer continuado do que se
gosta. Sem isso, não se consegue chegar ao sentimento de realização. Fica
sempre faltando algo, ainda que se tenha sucesso financeiro. E que era por esse
motivo que ele se sentia melancólico, não realizado, pois deixou de fazer, em
nome de atender suas necessidades de conforto, o que lhe era de fato mais caro:
pintar. Quando estava pintando, era feliz, mesmo que não fosse tão rico; embora
tenha se esquecido disso.
De minha
parte – e foi o que mais aprendi com a filosofia: a desconstruir o senso comum
– estou fazendo o que mais gosto, continuadamente, faça sol ou chuva, com mais
ou menos dinheiro, correndo mais ou menos riscos. Estou fazendo. E continuarei
a fazer, uma vez que é assim que sou mais feliz e mais pleno, mesmo em tempos
de tristeza ou carências materiais; que não são esses. Portanto, não espero
muito mais da vida além de continuar fazendo o que faço. E esse é meu
lema: a vida terá passado e eu terei feito o que mais gosto de fazer. E sou
feliz por isso, com maior ou menor êxito, com ou sem sucesso. Acordo todos os
dias para fazer o que gosto. Não sinto falta de quase nada. E só.
Então, veio
minha pergunta a ele; a que eu ainda não havia feito: vale mesmo à pena? Ele pensou
um pouco, me olhou e respondeu: continue fazendo o que faz, não pare e não
acredite em nada do que eu lhe disse. E faça isso por você e também por mim.
E ontem,
passados alguns dias de nossa conversa, encontrei com ele mais uma vez, e a
primeira coisa que me disse: “voltei a pintar, nas poucas horas vagas, mas
voltei a pintar”.
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