Antes de eu
me apoderar dos livros, eles se apoderaram de mim. Nem foi amor à primeira
leitura, mas anterior a isso. A ideia e suposição de que um dia a eles eu me
entregaria, como quem se entrega aos átomos, já me causava ansiedade. E não
era, nem foi, para menos. Responderam ao exato grau de minhas expectativas; se
bem que muito mais.
De repente,
nessas últimas semanas me pego mais uma vez mergulhado na obra de Shakespeare.
E tudo continua lá, intacto, em suas palavras carregadas de todos os sentidos.
Todos. Porque uma grande obra é assim: nela fica impresso para sempre o suor, a
febre; e basta pegar o termômetro para conferir.
Nada é mais
humano que um bom livro. Nem mesmo pessoas em seu cotidiano morno e absorto.
Uma obra-prima, por exemplo, explode a cada vez que se toca. E sua grande e
passional humanidade está no fato de que ela só dá, se antes receber. Arte não
é de graça, tem seu preço. É, no entanto, sábio investimento, devolve em dobro.
Livros são
fonte de impensados prazeres. Pouca gente deixaria de ler Cem Anos de Solidão
se soubesse do gozo, ali, a se multiplicar a cada parágrafo. Entregar-se a um
grande livro é entregar-se ao amor, ao bem, ainda que por meio de longas
descrições de ódio e do mal. É assim com Macbeth. É assim com Fausto. E é
também com O Retrato de Dorian Gray. Vidas Secas jamais seca, sempre estará
naquele mesmo lugar: o dos Clássicos. Mas nada disso é intelectual e ou
animicamente de graça, embora muitas vezes fisicamente quase o seja: dois,
cinco, dez reais, nas prateleiras dos sebos.
Não, não
estou falando de entretenimento. Falo de O Livro de Areia, de Os Irmãos
Karamazov, de Ilíada, falo de sentido e não de sua falta. De vida e não de
morte. De inteligência e não de burrice. De sensibilidade e não de alma bruta,
que se contenta com qualquer coisa.
Sim, deve
haver espaço para o entretenimento. Mas jamais em detrimento da arte. Um não
substitui a outra, não pode, sob pena de se ganir de miséria, nas horas mais
silenciosas, mesmo se estando rodeado de ouro. Há que se criar o mundo. Há que
conhecer-se a si mesmo. Cavalgar com Dom Quixote é ultrapassar as próprias
misérias. Tatear O Ensaio Sobre a Cegueira é finalmente enxergar a escuridão.
Seguir O Estrangeiro é desafiar a morte. São tantas e tantas e tantas obras
incríveis, que não buscá-las é quase fazer mal a si mesmo. É não se dar
oportunidade de conhecer alguns dos maiores tesouros deixados pela genialidade
humana. Se pecado existisse, isso sim, seria pecado.
Pois que o
bom senso lhe sorria. Não há desculpa para não propiciar a si mesmo uma boa
literatura. Falta de tempo é auto sabotagem. A vida passa. As histórias e os
livros ficam.
Magno Mello
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