Mas há coisas que só podem ser traduzidas sob o viés da feiúra,
da escrotidão, da infelicidade; até para se chegar a outras belezas. Então
deixaremos de prová-las apenas por não querermos sujar a barra da calça?
Preferiremos a assepsia niilista a um pulsar de vida ligeiramente chapiscado de
barro?
Pois há beleza na feiúra. E essa beleza está justamente em
nos vermos também ali representados. É a aceitação plena de quem somos, uma
espécie de reconciliação com o imperfeito, de secularização da natureza e até
de retomada da realidade. Tristeza e feiúra nos desalienam. E a elas somos mal
agradecidos, cuspimos nesse prato em que tantas vezes comemos. Individualmente
ninguém é tão tolo de acreditar que não haja benefícios na tristeza. Mas
coletivamente somos obrigados a mentir, a fingir que a alegria é o único
remédio para a dor de se estar vivo.
Ou então devo ser uma das pessoas mais burras desse mundo,
pois chego até mesmo a provocar a tristeza, a convocá-la, quando sinto necessidade
de introspecção, seja para criar artisticamente, ou para resolver determinado
problema que posso passar meses negligenciando quando tudo corre entre sorrisos
e risadas. É o que chamo de adoecimento consciente. Eu mesmo diria ser essa uma
espécie de autoconhecimento, já que não costumo associar tristeza à
infelicidade, nem beleza à perfeição, e nem mesmo caos à morte. Associo, isto
sim, vida à experimentação. Provar apenas da alegria? Que tédio.
E aí me dá vontade de falar de umas coisas tristes; não
como nos noticiários, mas com o propósito de suplantá-las, claro. E a coisa
mais triste que há é quando não se tem nem mais direito à tristeza. Imagino ser
esse o último grau da miséria humana. Então, por favor, permita-me entristecer;
até porque isso acontecerá. Se sou infeliz? Claro, às vezes também sou. E até a
infelicidade tem sua graça, do contrário não teríamos passado pelo Romantismo.
Apenas não me confunda, porque assim como você, no geral, declaro-me feliz.
Está vendo, estamos aqui falando de tristeza e feiúra e
ninguém derreteu. E esse assunto vai agora virar tabu? Pode isso? Além do que, feiúra
é relativa e da mesma forma a tristeza. E a segunda coisa mais triste que
consigo imaginar é se elas deixassem de sê-lo. Porque todo mundo tem direito a
sua dor particular. E para com ela seus deveres. E a partir de seus obstáculos
ultrapassados, seus prêmios.
É por isso que tristeza está longe de ser infelicidade. No
pensamento de Nietszche, por exemplo, a dor é o motor da vontade: “vontade é a
vingança contra o que já foi, contra o que não pode ser mudado”, por aí. A
vontade de viver, portanto, é resultado direto de nossa dor e a ela não
agradecemos. E ainda queremos sufocá-la a qualquer custo, torná-la artificial.
Se bem que, tristeza e feiúra já deixaram de ser naturais, a partir da
consolidação da propaganda. Confundiu-se a vida com a filosofia sorrateira dos
produtos. Confundiu-se alegria, algo que está dentro de nós, com aquelas caras
sorridentes nos comerciais, tão distantes, do outro lado da tela, e que apenas
são pagas para sorrir. E hoje, muitas vezes, tristeza é não ter o que não se
precisa. Assim como alegria tantas vezes é ter algo que nos deixa mais tristes;
embora não possamos admitir. O mais curioso é observar como o coletivo
conseguiu se distanciar tanto do individual. E nem posso ficar triste com isso?
Fico.
Mas apesar de tudo, concordo: falar de tristeza e feiúra
tem limite; embora uma coisa seja olhar abertamente para as intempéries da
vida, com o intuito de ultrapassá-las, e a outra, ficar choramingando pelos
cantos, e pior ainda, em público. Portanto, não me confunda - parte dois: não
tenho a menor paciência com chorões, negativos, pessimistas, masoquistas e
derrotados. E muito menos com o mau-gosto, que está longe de ser representado
pela feiúra; a ausência do feio também pode ser algo de mau-gosto. E desconfio
que a ausência de tristeza pode gerar uma grande infelicidade; tanto quanto a
falta de humor.
Pois quem quiser que continue propagando o riso nervoso
como alegria, apenas para pertencer ao coletivo, que certamente já não
representa o indivíduo.
O coletivo já não representa o indivíduo. E não é
justamente por isso que nos tornamos individualistas?
Magno Mello
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