terça-feira, 5 de novembro de 2013

Morar com amigos

Desconfio que São Paulo seja a metrópole brasileira recordista em pessoas que moram com amigos. É um palpite. Poderia até pesquisar no Google. Mas pra que? Quero mesmo é falar dos amigos, desses amigos específicos, pessoas com quem dividimos uma casa, um lar, e tudo mais o que isso implica e compreende. Simples é que não é. O que não vem a ser empecilho para ótima convivência; prazerosa, construtiva e afetiva. Problemas, claro, sempre há. Mas as alegrias podem ser bem maiores. E ainda: será um novo tipo de família?
Escrevi até agora de modo mais otimista e caloroso. A verdade, porém, é que existem coabitações bem menos felizes. No meu caso, no entanto - e devo isso também a mim como “homebrother” de outros dois – tem sido experiência muito positiva, que já dura quatro anos e meio. E, de repente, quero olhar de fora essa relação interessantemente difícil de se nomear, pois não raras as vezes acontecem situações muito semelhantes ao que denominamos convivência familiar. Coisas de cuidado e proteção mútua, em diversos graus, recortes e formatos. Nada mais família que isso. Puro instinto de preservação da nossa coletividade.
Mas, do mesmo jeito que experimentamos juntos sublimes inclinações oikonianas, claro que acontecem situações em que o individual fala mais alto. E nesse caso a relação é bem diferente do que entre familiares. Não que precisemos chegar a extremos, embates exacerbados, para que essas diferenças se mostrem mais nítidas. E de forma nenhuma somos sacanas um com o outro, nem mesmo em discussões ou brigas. Ainda que a relação seja honesta, saudável e bem intencionada, no entanto, algo se rompe de núcleo familiar nesses e em outros episódios, quando a coisa ultrapassa certo ponto pessoal. De qualquer modo, sempre estamos vivendo novos momentos “família”, em que cuidamos uns dos outros, da tribo, do lar, e nos ajudamos, analisamos o mundo e a nós mesmos, partilhamos conquistas, derrotas, alegrias, medos, incertezas, transmitimos mutuamente novos conhecimentos e informações, colaboramos em projetos, tomamos uns porres, falamos de contas, descuidos e melhorias, e assistimos televisão juntos. Se um recebe amigos para churrasco no domingo, os outros se movimentam. As primeiras vezes em que vem namorada nova de um ou de outro, discretamente levantamos a moral do irmão; o que não impede de tirar umas com sua cara, também de leve, só para mantê-lo esperto e acordado - mas ai se a visita se aproveitar disso. Família!
Não é uma coisa de louco?! Estava pensando nisso e resolvi escrever. Conheço outros tantos amigos que moram junto com mais outros. E reforço minha convicção, embora até possa estar enganado – bastaria digitar três palavras no Google para descobrir; mas não quero – de que São Paulo é a metrópole em que mais se mora com amigos no país. Se dá para chamar isso de novo formato de família, o nome é a coisa menos importante; aliás, menos nomes aos bois é algo que pode trazer mais criatividade ao pensamento, aos procedimentos, às atitudes e até à arte. Voltando ao assunto, só sei que a experiência é boa, especialmente numa cidade como São Paulo, aumenta o calor humano. E digo sem dó: dure o que durar, para pouco ou para muito. A vida está aberta, as possibilidades também; e até nossa noção de família, em lento movimento através dos tempos.
Poderia continuar a discorrer sobre esse complexo e interessante tipo de convivência, que nem é novo; se bem que pode vir a ser mais duradouro (pelo aumento de pessoas solteiras, por exemplo?). Não faltaria assunto, as experiências são infinitas e imprevisíveis. Mas contento-me, para finalizar - espero que o leitor também - apenas em deixar aqui estas duas homenagens: aos nossos filhos, pais e irmãos, incluindo aí alguns tios e primos, e a essas pessoas com quem moramos (aos meus brothers), a quem ajudamos e protegemos, e por quem somos ajudados e protegidos, como numa família, embora não seja. Embora seja. Mas tanto faz o nome.



Magno Mello

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