Escrevi
até agora de modo mais otimista e caloroso. A verdade, porém, é que existem
coabitações bem menos felizes. No meu caso, no entanto - e devo isso também a
mim como “homebrother” de outros dois – tem sido experiência muito positiva,
que já dura quatro anos e meio. E, de repente, quero olhar de fora essa relação
interessantemente difícil de se nomear, pois não raras as vezes acontecem
situações muito semelhantes ao que denominamos convivência familiar. Coisas de
cuidado e proteção mútua, em diversos graus, recortes e formatos. Nada mais
família que isso. Puro instinto de preservação da nossa coletividade.
Mas, do
mesmo jeito que experimentamos juntos sublimes inclinações oikonianas, claro
que acontecem situações em que o individual fala mais alto. E nesse caso a
relação é bem diferente do que entre familiares. Não que precisemos chegar a
extremos, embates exacerbados, para que essas diferenças se mostrem mais
nítidas. E de forma nenhuma somos sacanas um com o outro, nem mesmo em
discussões ou brigas. Ainda que a relação seja honesta, saudável e bem
intencionada, no entanto, algo se rompe de núcleo familiar nesses e em outros
episódios, quando a coisa ultrapassa certo ponto pessoal. De qualquer modo,
sempre estamos vivendo novos momentos “família”, em que cuidamos uns dos
outros, da tribo, do lar, e nos ajudamos, analisamos o mundo e a nós mesmos,
partilhamos conquistas, derrotas, alegrias, medos, incertezas, transmitimos
mutuamente novos conhecimentos e informações, colaboramos em projetos, tomamos
uns porres, falamos de contas, descuidos e melhorias, e assistimos televisão
juntos. Se um recebe amigos para churrasco no domingo, os outros se movimentam.
As primeiras vezes em que vem namorada nova de um ou de outro, discretamente
levantamos a moral do irmão; o que não impede de tirar umas com sua cara,
também de leve, só para mantê-lo esperto e acordado - mas ai se a visita se
aproveitar disso. Família!
Não é uma
coisa de louco?! Estava pensando nisso e resolvi escrever. Conheço outros
tantos amigos que moram junto com mais outros. E reforço minha convicção,
embora até possa estar enganado – bastaria digitar três palavras no Google para
descobrir; mas não quero – de que São Paulo é a metrópole em que mais se mora
com amigos no país. Se dá para chamar isso de novo formato de família, o nome é
a coisa menos importante; aliás, menos nomes aos bois é algo que pode trazer
mais criatividade ao pensamento, aos procedimentos, às atitudes e até à arte.
Voltando ao assunto, só sei que a experiência é boa, especialmente numa cidade
como São Paulo, aumenta o calor humano. E digo sem dó: dure o que durar, para
pouco ou para muito. A vida está aberta, as possibilidades também; e até nossa
noção de família, em lento movimento através dos tempos.
Poderia
continuar a discorrer sobre esse complexo e interessante tipo de convivência,
que nem é novo; se bem que pode vir a ser mais duradouro (pelo aumento de
pessoas solteiras, por exemplo?). Não faltaria assunto, as experiências são
infinitas e imprevisíveis. Mas contento-me, para finalizar - espero que o
leitor também - apenas em deixar aqui estas duas homenagens: aos nossos filhos,
pais e irmãos, incluindo aí alguns tios e primos, e a essas pessoas com quem
moramos (aos meus brothers), a quem ajudamos e protegemos, e por quem somos ajudados
e protegidos, como numa família, embora não seja. Embora seja. Mas tanto faz o
nome.
Magno
Mello
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