Bem vindo ao
mundo!
Aqui você
ganhará um nome. E na maior parte dos casos, nele se reconhecerá. E terá um pai
e uma mãe, mesmo se por eles não for criado. De um e de outro receberá sua
genética e com ela alguma hereditariedade, para seu bem e seu mal. Por outro
lado, será permeado de cultura e educação, e isso também para seu bem e mal. E
desde sempre entenderá, ainda que não entendendo, o que é paradoxo.
Já no
começo, descobrirá que o mundo não é extensão de seu corpo. E logo depois, que
você não é único, há outros. A princípio, achará curioso. Até que esses outros
irão interferir em sua felicidade. Então, já não os achará tão interessantes. E
desejará que todos desapareçam. Mas não desaparecerão, pelo contrário, virão
outros, que cada vez mais subtrairão seu universo. E um belo dia você desistirá
de ser único. A bem dizer, esse dia não terá nada de belo. Mas a vida lhe
proporcionará outras alegrias e a maioria delas justamente por existirem
outros.
Antes disso,
no entanto, você já terá passado por muitos e muitos dias felizes.
Provavelmente, já terá até se apaixonado; por seu pai ou sua mãe, ou quaisquer
correspondentes destes em sua vida. Terá brincado, gargalhado, sido acarinhado,
beijado, mimado, consolado e amado...se der sorte. Tudo isso entre pequenos
arranhões, quedas, doenças variadas, manhas, talvez alguns tapas e outras
agressões, e ainda, quem sabe, pontos, ossos quebrados e demais acidentes de
percurso. E você crescerá atravessando aniversários, superações físicas, morais
e intelectuais. Haverá ainda os amigos, a música, o cinema, o sexo, os livros,
os beijos, o sexo, esportes, viagens, natureza, o sexo, estudos, possivelmente
álcool, talvez drogas, danças, jogos, o sexo, loucuras e, quem sabe, algum
trabalho. É provável que nessa fase você desafie a autoridade e pode ser
importante que o faça. Também deverá experimentar plenitudes espirituais.
Possivelmente, sonhará com um mundo mais belo e mais justo, e sentirá grande
amor no coração; mas poderá, da mesma forma, sentir muito ódio em infindáveis
momentos.
Chegará o
tempo de sobreviver por si só, de se estabelecer profissionalmente e dar as
costas a sonhos que jamais se concretizarão; pelo menos assim acreditará.
Serão, no entanto, dias de dores amenas, de assentamentos de sobriedades, de
tantos sonhos que deixarão de ser sonhos e mudarão seus nomes para objetivos possíveis.
Alguma decepção haverá. A não ser que arrisque todas as suas fichas e parta em
busca de tudo que sonhou, tudo mesmo; o que o colocará sob certo perigo. Bem,
talvez não queira passar por isso...
Outros
planos, contudo, virão, talvez de se casar e ter filhos. E daí, terá certeza
que já não poderá correr tantos riscos, pois outras vidas dependerão da sua. E
se conformará de uma vez que não dá para se ter tudo.
Agora a vida
começa a lhe pedir outros confortos, menos espirituais e mais materiais. E você
partirá em busca de novos desafios que possibilitem essas conquistas, de
pequenos e grandes prazeres. Talvez não tão grandes quanto lhe pareciam aqueles
sonhos na juventude, mas ainda assim prazeres, sem dúvida. Você lutará por
algum reconhecimento e status, que estarão impressos em suas aquisições, nos
lugares que frequenta, nos amigos que tem, na casa onde mora, nas viagens que
faz. Talvez nem ligue para isso, melhor assim. Mas saberá que as marcas de suas
conquistas estarão lá, além de plasmadas em suas feições. Serão conquistas
suadas, em nome de resignações e até de sujeições. Só você saberá de tudo que
teve que abrir mão, e não apenas em seu nome, mas também por seus filhos, sua
família.
O tempo
correrá cada vez mais rápido e, certamente, outras crises virão: no casamento,
na profissão, nas finanças ou por problemas com os filhos que estão crescendo,
ou mesmo demorando a crescer. Você refletirá sobre tudo que fez até então.
Poderá pensar que negligenciou seus sonhos, suas vontades mais íntimas, o quanto
abriu mão de tantas coisas importantes por algumas outras menores. E nesses
dias questionará se não teria sido melhor se...talvez nesse momento se separe.
Ou não. Mas separando-se, é provável que encontre outra pessoa que lhe fará
feliz, ou menos triste, embora a busca seja sempre pela primeira opção.
O tempo
continuará a correr, ano após ano, mês a mês, dia após dia. Agora você
ultrapassou a barreira da sobrevivência. Criou seus filhos, deu conta de seus
desafios, tem ao seu lado alguém com quem envelhecer, o lado financeiro
garantido pela aposentadoria, embora talvez continue trabalhando. De um jeito
ou de outro poderá fazer o que bem entender, ou quase.
Mas é
possível que já esteja fazendo: pratica seu esporte, encontra os amigos, curte
a família e lê os livros que gosta – ainda que lá no fundo gostaria de preferir
aqueles mais substanciais que costumava ler até os trinta e cinco.
Outros anos
se passarão e agora você está na velhice, talvez na última década de sua vida,
um pouco mais, ou menos do que se espera. O corpo lhe dói, já se torna um
fardo, bem mais difícil de carregar que há cinco anos. Quanto aos sonhos
antigos, não há como recuperá-los, claro, a vida terá sido o que foi, bem ou
mal. Mas quantas coisas importantes você presenciou! O quanto viveu! Talvez, se
pudesse voltar no tempo teria feito algo diferente. Mesmo assim, agradecerá a
família que teve, os amigos, tudo que viu, que sentiu e até as dificuldades que
passou. Quem sabe, poderia ter sido mais feliz se...não, não vale a pena.
E, enfim, um
belo dia, que não será belo, mas talvez - pelo menos para você - também não
será triste, morrerá. E só.
Então, viva
a vida, ame, goze, estude, crie, brinque e deixe algo de bom para o mundo, pois
não há nada além, até que se prove o contrário. Mas para quem sabe viver, é o
bastante. E será.
Magno Mello
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