terça-feira, 5 de novembro de 2013

Mensagem a um autor desconhecido

Bem vindo ao mundo!
Aqui você ganhará um nome. E na maior parte dos casos, nele se reconhecerá. E terá um pai e uma mãe, mesmo se por eles não for criado. De um e de outro receberá sua genética e com ela alguma hereditariedade, para seu bem e seu mal. Por outro lado, será permeado de cultura e educação, e isso também para seu bem e mal. E desde sempre entenderá, ainda que não entendendo, o que é paradoxo.
Já no começo, descobrirá que o mundo não é extensão de seu corpo. E logo depois, que você não é único, há outros. A princípio, achará curioso. Até que esses outros irão interferir em sua felicidade. Então, já não os achará tão interessantes. E desejará que todos desapareçam. Mas não desaparecerão, pelo contrário, virão outros, que cada vez mais subtrairão seu universo. E um belo dia você desistirá de ser único. A bem dizer, esse dia não terá nada de belo. Mas a vida lhe proporcionará outras alegrias e a maioria delas justamente por existirem outros.
Antes disso, no entanto, você já terá passado por muitos e muitos dias felizes. Provavelmente, já terá até se apaixonado; por seu pai ou sua mãe, ou quaisquer correspondentes destes em sua vida. Terá brincado, gargalhado, sido acarinhado, beijado, mimado, consolado e amado...se der sorte. Tudo isso entre pequenos arranhões, quedas, doenças variadas, manhas, talvez alguns tapas e outras agressões, e ainda, quem sabe, pontos, ossos quebrados e demais acidentes de percurso. E você crescerá atravessando aniversários, superações físicas, morais e intelectuais. Haverá ainda os amigos, a música, o cinema, o sexo, os livros, os beijos, o sexo, esportes, viagens, natureza, o sexo, estudos, possivelmente álcool, talvez drogas, danças, jogos, o sexo, loucuras e, quem sabe, algum trabalho. É provável que nessa fase você desafie a autoridade e pode ser importante que o faça. Também deverá experimentar plenitudes espirituais. Possivelmente, sonhará com um mundo mais belo e mais justo, e sentirá grande amor no coração; mas poderá, da mesma forma, sentir muito ódio em infindáveis momentos.
Chegará o tempo de sobreviver por si só, de se estabelecer profissionalmente e dar as costas a sonhos que jamais se concretizarão; pelo menos assim acreditará. Serão, no entanto, dias de dores amenas, de assentamentos de sobriedades, de tantos sonhos que deixarão de ser sonhos e mudarão seus nomes para objetivos possíveis. Alguma decepção haverá. A não ser que arrisque todas as suas fichas e parta em busca de tudo que sonhou, tudo mesmo; o que o colocará sob certo perigo. Bem, talvez não queira passar por isso...
Outros planos, contudo, virão, talvez de se casar e ter filhos. E daí, terá certeza que já não poderá correr tantos riscos, pois outras vidas dependerão da sua. E se conformará de uma vez que não dá para se ter tudo.
Agora a vida começa a lhe pedir outros confortos, menos espirituais e mais materiais. E você partirá em busca de novos desafios que possibilitem essas conquistas, de pequenos e grandes prazeres. Talvez não tão grandes quanto lhe pareciam aqueles sonhos na juventude, mas ainda assim prazeres, sem dúvida. Você lutará por algum reconhecimento e status, que estarão impressos em suas aquisições, nos lugares que frequenta, nos amigos que tem, na casa onde mora, nas viagens que faz. Talvez nem ligue para isso, melhor assim. Mas saberá que as marcas de suas conquistas estarão lá, além de plasmadas em suas feições. Serão conquistas suadas, em nome de resignações e até de sujeições. Só você saberá de tudo que teve que abrir mão, e não apenas em seu nome, mas também por seus filhos, sua família.
O tempo correrá cada vez mais rápido e, certamente, outras crises virão: no casamento, na profissão, nas finanças ou por problemas com os filhos que estão crescendo, ou mesmo demorando a crescer. Você refletirá sobre tudo que fez até então. Poderá pensar que negligenciou seus sonhos, suas vontades mais íntimas, o quanto abriu mão de tantas coisas importantes por algumas outras menores. E nesses dias questionará se não teria sido melhor se...talvez nesse momento se separe. Ou não. Mas separando-se, é provável que encontre outra pessoa que lhe fará feliz, ou menos triste, embora a busca seja sempre pela primeira opção.
O tempo continuará a correr, ano após ano, mês a mês, dia após dia. Agora você ultrapassou a barreira da sobrevivência. Criou seus filhos, deu conta de seus desafios, tem ao seu lado alguém com quem envelhecer, o lado financeiro garantido pela aposentadoria, embora talvez continue trabalhando. De um jeito ou de outro poderá fazer o que bem entender, ou quase.
Mas é possível que já esteja fazendo: pratica seu esporte, encontra os amigos, curte a família e lê os livros que gosta – ainda que lá no fundo gostaria de preferir aqueles mais substanciais que costumava ler até os trinta e cinco.
Outros anos se passarão e agora você está na velhice, talvez na última década de sua vida, um pouco mais, ou menos do que se espera. O corpo lhe dói, já se torna um fardo, bem mais difícil de carregar que há cinco anos. Quanto aos sonhos antigos, não há como recuperá-los, claro, a vida terá sido o que foi, bem ou mal. Mas quantas coisas importantes você presenciou! O quanto viveu! Talvez, se pudesse voltar no tempo teria feito algo diferente. Mesmo assim, agradecerá a família que teve, os amigos, tudo que viu, que sentiu e até as dificuldades que passou. Quem sabe, poderia ter sido mais feliz se...não, não vale a pena.
E, enfim, um belo dia, que não será belo, mas talvez - pelo menos para você - também não será triste, morrerá. E só.
Então, viva a vida, ame, goze, estude, crie, brinque e deixe algo de bom para o mundo, pois não há nada além, até que se prove o contrário. Mas para quem sabe viver, é o bastante. E será.


Magno Mello

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