Era uma
coisa sem pé nem cabeça que ia se fazendo por si mesma.
E era feita
de palavras quaisquer, mas ansiava constituir-se de sentidos. Pois inútil seria
se não chegasse ao estado, lúdico que fosse, de tocar ao menos um sentimento
com suas linhas que se desenrolavam ao sabor do vento de cada sinapse da mente
recém desperta, que nem mesmo compreendia se sonhava ou acordara para sempre
num mundo estranho sem começo nem fim, e isso não só na horizontal da linha do
tempo mas ainda nas outras vinte e duas linhas e seis dimensões agora
inauguradas, do espaço daquilo que continuava a se fazer e se desenrolar,
embora nem se pudesse intuir o porque da persistência, a não ser pela coisa em
si, da única e própria beleza das palavras, e quem sabe da desconstrução de
tudo que havia, pois se existia beleza no fazer de algo bonito, por que não no
desfazer do feio?
Então que
fosse esse o primeiro dos sentidos. Depois pretendeu-se ultrapassar a
velocidade quântica do sentimento e zombar até mesmo do lépido neutrino. Mas
olha o que não se tinha notado: as palavras estavam ao contrário. Nada demais. E
com a fome de coisa que quer se afirmar num mapa vazio ou de tantos hiatos,
aquele desenrolar foi se construindo no pequeno espaço público. E uma vez
lançado ao mundo, não mais poderia ser impedido de reverberar em seus
movimentos simpatéticos, atávicos, osmóticos e de outra coisa que se vista sem
que se perceba.
Magno Mello
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