terça-feira, 5 de novembro de 2013

A coisa sem pé nem cabeça

Era uma coisa sem pé nem cabeça que ia se fazendo por si mesma.
E era feita de palavras quaisquer, mas ansiava constituir-se de sentidos. Pois inútil seria se não chegasse ao estado, lúdico que fosse, de tocar ao menos um sentimento com suas linhas que se desenrolavam ao sabor do vento de cada sinapse da mente recém desperta, que nem mesmo compreendia se sonhava ou acordara para sempre num mundo estranho sem começo nem fim, e isso não só na horizontal da linha do tempo mas ainda nas outras vinte e duas linhas e seis dimensões agora inauguradas, do espaço daquilo que continuava a se fazer e se desenrolar, embora nem se pudesse intuir o porque da persistência, a não ser pela coisa em si, da única e própria beleza das palavras, e quem sabe da desconstrução de tudo que havia, pois se existia beleza no fazer de algo bonito, por que não no desfazer do feio?
Então que fosse esse o primeiro dos sentidos. Depois pretendeu-se ultrapassar a velocidade quântica do sentimento e zombar até mesmo do lépido neutrino. Mas olha o que não se tinha notado: as palavras estavam ao contrário. Nada demais.  E com a fome de coisa que quer se afirmar num mapa vazio ou de tantos hiatos, aquele desenrolar foi se construindo no pequeno espaço público. E uma vez lançado ao mundo, não mais poderia ser impedido de reverberar em seus movimentos simpatéticos, atávicos, osmóticos e de outra coisa que se vista sem que se perceba.
                 
                                           

 Magno Mello

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