terça-feira, 5 de novembro de 2013

As palavras nas relações humanas

As relações humanas são o centro de nossa vida. Não há nada que façamos mais que isso: nos relacionar. Nada nos é mais importante, mesmo quando pensamos em dinheiro ou trabalho. Enfim, tudo acaba em gente. É isso que queremos, seja por sexo, amor, amizade, reconhecimento, aprendizagem, negócios ou outros interesses; e interesse é coisa que sempre há, em qualquer relação humana.

Muito além de pretender aqui discorrer sobre as várias formas de linguagem que usamos nos diferentes tipos de relações - entre inflexões e vocabulários - de infantil a senil, doce a violenta, amorosa a profissional, pretendo debruçar-me, sobretudo, nas intenções. Estas, sim, são pouco faladas, embora transmitidas bem mais do que pensamos. Apenas 70% da comunicação entre humanos se dá por palavras, é o que sabemos. Todo o resto vem pelo gestual, pela forma de olhar, entonação e mesmo pela energia, além do cheiro e outras percepções menos conscientes.
 
Palavras são códigos que permitem todo tipo de elucubrações, desvios de intenção, falseamentos, floreios, construções retóricas e semânticas fictícias, discretas ou absurdas, que muitas vezes se distanciam drasticamente do pensamento, e este, por sua vez, pode se distanciar outros tantos anos-luz do sentimento, que fica a três idas a Júpiter do inconsciente, que pode ser antípoda da coisa-em-si.
 
Então, temos que admitir: as palavras mentem. Mesmo assim, construímos nosso mundo com essa poderosa e, tantas vezes, perigosa ferramenta (entre outras), fabricante de crenças, conhecimentos, costumes, leis e poesia. Mas é o que temos, pelo menos até hoje. E palavras podem ser boas, assim como as relações; só não são aquilo que prometem ou que gostamos de acreditar que são. Disso, porém, todo mundo sabe.
 
Temos, desse modo, também de admitir que somos seres lúdicos, não exatamente verdadeiros ou falsos - embora uns mais que outros - mas muito além disso. Todos nós, sem exceção, aceitamos os jogos das palavras e a prodigalidade delas em nossas relações.
 
Exemplos de discursos vazios não faltam. Qualquer tipo de tagarelice, como falar do tempo, já o é. Até aí nada. Mas logo passamos ao nível B, quando por condicionamento ou influência, direta ou indireta, repetimos e transmitimos palavras, pensamentos, gestos e atitudes, postulando-os como nossa própria verdade. E a verdade é que muitas vezes podemos dizer coisas que simplesmente não acreditamos. Num momento criticamos o discurso de um amigo e logo à frente incorporamos e informamos esse mesmo discurso como algo que cremos. Ouvimos aqui e negamos, para logo depois afirmar a outros. E, definitivamente, não sabemos se de fato sentimos aquilo ou não. Sentimos e não sentimos. Uma hora sentimos, na outra não sentimos. Mas será que somos tão errados assim? Não, apenas as palavras não dão conta de nossos pensamentos, que não dão conta de nossos sentimentos, que não abarcam nosso inconsciente, que passa longe da coisa-em-si. 
 
Até então, porém, nos exemplos anteriores ainda defendíamos alguma “verdade”, mesmo que falseada. Mas temos que ter opiniões fechadas? Quem disse? E para que? Duvido que isso nos torne, por exemplo, mais confiáveis. Talvez, em alguns casos, apenas mais previsíveis. E só. O problema, no entanto, vai se agravando quando chegamos ao nível C.
 
No nível C da comunicação entre humanos estão os falseamentos deliberados, as mentiras.  Juras de amor para se obter sexo, mentiras que tentam salvar uma relação ou um emprego, promessas vãs, mentirinhas compulsivas, negociatas, discurso de políticos, mídia, propaganda, tudo isso. Sabemos que a coisa não é o que diz ser. Ainda assim jogamos o jogo, o tempo todo, todos os dias.
 
O que restaria, todavia, se não acreditássemos nessas coisas e nas palavras? Deixaríamos de nos relacionar? Claro que não. Acharíamos outras formas de comunicação, possivelmente mais honestas e com largo uso da intuição, essa potência que ainda usamos tão pouco. E talvez encontraremos essas novas formas no futuro, com a ajuda de aparelhos, externos ou internos. Mas o que seria das palavras, esses códigos incríveis com os quais construímos boa parte de nossa vida e nossos valores? Quero acreditar que encontrariam seu melhor lugar na poesia, na ficção, que é onde sempre estiveram e de onde nunca saíram, desde a primeira abstração.
 
É que somos e sempre fomos, de fato, poetas, todos nós, sempre inventando, ou tomando emprestado sentidos, crenças, histórias e a própria vida. Somos todos poetas porque não podemos ser mais do que isso: lúdicos inventores de um mundo que não mais existirá quando morrermos; seres fictícios, românticos, crentes apenas do que queremos, nessa estrada que vai do nada ao nada (assim dizia Caetano), mas onde se ouve música, se faz sexo, arte, amor, loucuras, come-se comidas gostosas, brinca-se, com brinquedos ou sem, viaja-se, trabalha-se, estuda-se, se procria, se cria, se dança, onde rimos e choramos, nos emocionamos, nos entorpecemos, construímos castelos, fazemos esportes e, finalmente (embora não só), onde nos relacionamos uns com os outros. Sinceramente, precisa mais que isso?
 
De quebra, apenas mais uma palavra: profiterole. Que delícia! Não a palavra. Se bem que...



Magno Mello

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