As relações humanas são o centro de nossa vida. Não há nada
que façamos mais que isso: nos relacionar. Nada nos é mais importante, mesmo
quando pensamos em dinheiro ou trabalho. Enfim, tudo acaba em gente. É isso que
queremos, seja por sexo, amor, amizade, reconhecimento, aprendizagem, negócios
ou outros interesses; e interesse é coisa que sempre há, em qualquer relação
humana.
Muito além de pretender aqui discorrer sobre as várias
formas de linguagem que usamos nos diferentes tipos de relações - entre
inflexões e vocabulários - de infantil a senil, doce a violenta, amorosa a
profissional, pretendo debruçar-me, sobretudo, nas intenções. Estas, sim, são
pouco faladas, embora transmitidas bem mais do que pensamos. Apenas 70% da
comunicação entre humanos se dá por palavras, é o que sabemos. Todo o resto vem
pelo gestual, pela forma de olhar, entonação e mesmo pela energia, além do
cheiro e outras percepções menos conscientes.
Palavras são códigos que permitem todo tipo de
elucubrações, desvios de intenção, falseamentos, floreios, construções
retóricas e semânticas fictícias, discretas ou absurdas, que muitas vezes se
distanciam drasticamente do pensamento, e este, por sua vez, pode se distanciar
outros tantos anos-luz do sentimento, que fica a três idas a Júpiter do
inconsciente, que pode ser antípoda da coisa-em-si.
Então, temos que admitir: as palavras mentem. Mesmo assim,
construímos nosso mundo com essa poderosa e, tantas vezes, perigosa ferramenta
(entre outras), fabricante de crenças, conhecimentos, costumes, leis e poesia.
Mas é o que temos, pelo menos até hoje. E palavras podem ser boas, assim como
as relações; só não são aquilo que prometem ou que gostamos de acreditar que
são. Disso, porém, todo mundo sabe.
Temos, desse modo, também de admitir que somos seres
lúdicos, não exatamente verdadeiros ou falsos - embora uns mais que outros -
mas muito além disso. Todos nós, sem exceção, aceitamos os jogos das palavras e
a prodigalidade delas em nossas relações.
Exemplos de discursos vazios não faltam. Qualquer tipo de
tagarelice, como falar do tempo, já o é. Até aí nada. Mas logo passamos ao
nível B, quando por condicionamento ou influência, direta ou indireta,
repetimos e transmitimos palavras, pensamentos, gestos e atitudes,
postulando-os como nossa própria verdade. E a verdade é que muitas vezes
podemos dizer coisas que simplesmente não acreditamos. Num momento criticamos o
discurso de um amigo e logo à frente incorporamos e informamos esse mesmo
discurso como algo que cremos. Ouvimos aqui e negamos, para logo depois afirmar
a outros. E, definitivamente, não sabemos se de fato sentimos aquilo ou não.
Sentimos e não sentimos. Uma hora sentimos, na outra não sentimos. Mas será que
somos tão errados assim? Não, apenas as palavras não dão conta de nossos
pensamentos, que não dão conta de nossos sentimentos, que não abarcam nosso
inconsciente, que passa longe da coisa-em-si.
Até então, porém, nos exemplos anteriores ainda defendíamos
alguma “verdade”, mesmo que falseada. Mas temos que ter opiniões fechadas? Quem
disse? E para que? Duvido que isso nos torne, por exemplo, mais confiáveis.
Talvez, em alguns casos, apenas mais previsíveis. E só. O problema, no entanto,
vai se agravando quando chegamos ao nível C.
No nível C da comunicação entre humanos estão os
falseamentos deliberados, as mentiras.
Juras de amor para se obter sexo, mentiras que tentam salvar uma relação
ou um emprego, promessas vãs, mentirinhas compulsivas, negociatas, discurso de
políticos, mídia, propaganda, tudo isso. Sabemos que a coisa não é o que diz
ser. Ainda assim jogamos o jogo, o tempo todo, todos os dias.
O que restaria, todavia, se não acreditássemos nessas
coisas e nas palavras? Deixaríamos de nos relacionar? Claro que não. Acharíamos
outras formas de comunicação, possivelmente mais honestas e com largo uso da
intuição, essa potência que ainda usamos tão pouco. E talvez encontraremos
essas novas formas no futuro, com a ajuda de aparelhos, externos ou internos.
Mas o que seria das palavras, esses códigos incríveis com os quais construímos
boa parte de nossa vida e nossos valores? Quero acreditar que encontrariam seu
melhor lugar na poesia, na ficção, que é onde sempre estiveram e de onde nunca
saíram, desde a primeira abstração.
É que somos e sempre fomos, de fato, poetas, todos nós,
sempre inventando, ou tomando emprestado sentidos, crenças, histórias e a
própria vida. Somos todos poetas porque não podemos ser mais do que isso:
lúdicos inventores de um mundo que não mais existirá quando morrermos; seres
fictícios, românticos, crentes apenas do que queremos, nessa estrada que vai do
nada ao nada (assim dizia Caetano), mas onde se ouve música, se faz sexo, arte,
amor, loucuras, come-se comidas gostosas, brinca-se, com brinquedos ou sem,
viaja-se, trabalha-se, estuda-se, se procria, se cria, se dança, onde rimos e
choramos, nos emocionamos, nos entorpecemos, construímos castelos, fazemos
esportes e, finalmente (embora não só), onde nos relacionamos uns com os
outros. Sinceramente, precisa mais que isso?
De quebra, apenas mais uma palavra: profiterole. Que
delícia! Não a palavra. Se bem que...
Magno Mello
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