Um belo dia começamos a
pensar na morte. Talvez só as pessoas com mais de quarenta anos entendam
exatamente o que digo. No entanto, a morte é para todos. Eu mesmo, sinto nesse
momento da vida que a minha veio para ficar. Provavelmente ainda demora a me levar,
mas já vislumbro sua cara, coisa que há poucos anos mal suspeitava.
A constatação da própria
finitude pode ser até estranha, mas não é necessariamente triste. De certa
forma abrem-se novas perspectivas do viver, inauguram-se novos olhares e
passamos a enxergar o que nos é realmente mais importante. Está certo, ninguém
gosta de ver uma nova marca aparecer no rosto numa manhã qualquer. Pois ontem
mesmo me apareceu uma. Mas, além de ter me achado um pouco menos bonito, fiquei
pensando no que ainda quero fazer nesta vida. Pois é daqui para frente ou nunca
mais. A não ser, claro, que se encontre logo essa fórmula da longevidade
extrema e de preferência antes que eu me torne decrépito, porque aí talvez
prefira mesmo morrer a arrastar uma carcaça miserável por uma quase eternidade.
Se bem que, entre os novos
estudos do gênero há os que buscam não somente o retardamento do envelhecimento
como o próprio rejuvenescer das células, o que nos tornaria efetivamente mais
jovens. Uma das mais curiosas e até promissoras dessas pesquisas é o
experimento de se suprimir alguns genes. Fizeram isso com um verme de mais ou
menos noventa e cinco mil genes. Desligaram alguns deles e sua longevidade
dobrou. Desligaram outros e aumentaram sua expectativa de vida em seis vezes.
Agora estão fazendo a mesma experiência com ratos, que têm noventa e sete por
cento de genes iguais aos nossos. Se conseguirem com eles, ficarão perto de
fazer o mesmo com humanos. A coisa com eles, porém, ainda está no começo,
embora não se possa mais prever o avanço exponencial da ciência.
O que estou mais preocupado,
no entanto, é com o que ainda quero fazer nesta vida antes de desaparecer do
mapa; contando que minha expectativa de vida seja de uns noventa anos, se tudo
correr muito bem. E quanto a isso, tenho um novo colírio para minhas
idéias.
Como diriam os americanos,
tenho um plano: pegar uma Harley-Davidson e viajar o mundo por um ano. Ainda
tirando três ou quatro horas por dia para escrever mais um ou dois livros. Esta
é umas das coisas que mais tem me passado pela cabeça nos últimos tempos. Além
da tal da morte em si. Quanto a este último pensamento, me vem uma recorrente cena
daquelas pinturas que os nobres mandavam fazer lá pela Idade Média e pouco
depois disso, em que apareciam segurando uma caveira, ao estilo ser ou não ser
de Hamlet. Faziam isso para lembrar-se da própria finitude e também para
emprestar às próprias imagens um caráter de humildade e sabedoria, justamente
por serem ali sabedores de sua mortalidade, da qual nem mesmos os príncipes
escapavam.
Agora vamos a algumas
variações sobre o tema. Sabe o ouriço do mar? É um bicho que não envelhece. Até
morre, mas não envelhece, mais ou menos por aí. Os anos se passam e o ouriço
continua lá com aquela cara de garotão até seus últimos dias. Ele e Dorian
Gray. Sem contar a ameba, esta não morre mesmo. Cresce e se divide,
infinitamente.
No fundo, a idéia da morte
tem me trazido alguma melancolia. Às vezes fico ali imaginando que fatalmente
desaparecerei e este pensamento parece-me às vezes meio absurdo. Deixarei de
existir e isto não tem graça. Ainda mais eu que não acredito em nada após a
morte. Ai, que dorzinha...Gostaria de acreditar em algo, mas não consigo. Quer
dizer, às vezes até consigo, mas logo passa. Da mesma forma que a dorzinha da
morte também passa, ainda que a idéia continue rondando.
Mas daqui a pouco já nem
ligo e costumo até rir desse desaparecimento.
Acho até que poderia morrer agora mesmo, embora não queira. Deve ser
porque não tenho arrependimentos de nada, tudo que fiz e faço é o melhor que
posso. E não adianta eu pensar que poderia fazer mais do que posso. Porque, na
verdade última, não posso. Se pudesse, faria. Quem pensa que pode está
equivocado, não pode. Então, começo novamente a deparar-me com a possibilidade
da morte e é como se passasse um trem querendo me despertar das nulidades, dos
desperdícios e acomodamentos. E talvez seja este o grande presente que a
consciência da morte nos traz: mais vontade de vida.
É por isso que digo: “bem-vinda
Dona Morte!”, pois sei que quer me contar um pouco mais sobre a vida que ainda
posso viver; pelo menos até que ela termine de me contar sua assustadora e
maravilhosa história na qual somos cúmplices, protagonistas e marionetes.
Tomara que eu consiga fazer
minha viagem, escrever mais alguns livros, gravar outros discos e encontrar
novos significados, sempre, em especial os que contém afeto. De resto, só mesmo
as mitocôndrias, essas usinas que nos fornecem energia e ao mesmo tempo liberam
em nós os radicais livres, que fazem nossas células envelhecer e morrer.
E se estivermos realmente
próximos de combater esse processo autodestrutivo, também com a possibilidade de
utilizarmos nano-robôs para a faxina permanente em nossas células, ou mesmo de
substituir órgãos, teremos, aí sim, mais do que nunca, que aprender a viver com
mais significados e significância. Pois imagine uma vida de duzentos anos
assistindo a seriados e ouvindo música sertaneja? Ou mesmo passar milhões de
horas na internet?
Magno Mello
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