Casa de mãe
é onde nos deparamos com fotografias de nossos antepassados. Quando nela
entramos, o ar fica mais quente, em caso de frio, e mais fresco, se faz calor.
E é entrar para já sentir aquele cheirinho de afeto, tantas vezes disfarçado em
cheiro de comida gostosa.
Apesar do
amor que geralmente se sente pela figura paterna, e ainda que pai e mãe morem
juntos, todos sabem que casa de mãe não é o mesmo que casa de pai. Uma, é mais
revestida de colo. A outra, mais de conselhos; embora, é bom que se diga, há
quem experimente o contrário.
Casa de mãe
é grande, mesmo quando pequena. Mas pode ser pequena - mesmo sendo grande -
caso se precise fechar as portas do mundo para dentro. Casa de mãe tem mais
frutas que a nossa. E muito, muito mais guloseimas. É onde engordamos a suposta
magreza, que só os olhos de mãe enxergam.
E também é
lá, na casa de mãe, onde somos exatamente quem somos, com nossos defeitos, mas
ainda mais com nossas qualidades, que se evidenciam no amor; excetuando os que
ali se tornam mais críticos e intolerantes. E onde podemos ser felizes mesmo na
tristeza, porque nenhum conforto é maior do que quando se é aceito
incondicionalmente.
Casa de mãe
é um lugar de preguiça, onde a preguiça reúne suas melhores qualidades,
especialmente em dias de feriado. E é lugar de não desejo e não necessidade; é
onde nada nos falta. Pensando aqui uma besteira: se houve, de fato, o “bom
selvagem”, só quando estivesse em casa de mãe; quem sabe Rousseau também
encontrava-se na casa da sua, ao conceber esse tipo...
Casa de mãe
sempre foi casa de mãe, imagino. Mas são nesses tempos corridos, de menos
afetos e mais afetações, de tantos esvaziamentos e tantos fastios, de lutas em
que se tenta derrubar o vento, por não se enxergar o adversário, que casa de
mãe faz ainda mais sentido. É um espaço onde somos os mesmos de quase todas as
gerações. E é, desse modo, uma espécie de paraíso antropológico, onde podemos
melhor nos lembrar quem somos, debaixo de tantas indumentárias, camadas
industriais e de tantos escudos contra todos os desmandos a nós perpetrados
pelos séculos e pelos poderes.
É um lugar,
no entanto, que não existirá para sempre; ainda que fique eternamente guardado
no coração.
Será preciso
dizer que se aproveite enquanto é tempo? Pois vá visitar sua mãe! Só não abuse!
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