terça-feira, 5 de novembro de 2013

Casa de mãe

Casa de mãe é onde nos deparamos com fotografias de nossos antepassados. Quando nela entramos, o ar fica mais quente, em caso de frio, e mais fresco, se faz calor. E é entrar para já sentir aquele cheirinho de afeto, tantas vezes disfarçado em cheiro de comida gostosa.
Apesar do amor que geralmente se sente pela figura paterna, e ainda que pai e mãe morem juntos, todos sabem que casa de mãe não é o mesmo que casa de pai. Uma, é mais revestida de colo. A outra, mais de conselhos; embora, é bom que se diga, há quem experimente o contrário.
Casa de mãe é grande, mesmo quando pequena. Mas pode ser pequena - mesmo sendo grande - caso se precise fechar as portas do mundo para dentro. Casa de mãe tem mais frutas que a nossa. E muito, muito mais guloseimas. É onde engordamos a suposta magreza, que só os olhos de mãe enxergam.
E também é lá, na casa de mãe, onde somos exatamente quem somos, com nossos defeitos, mas ainda mais com nossas qualidades, que se evidenciam no amor; excetuando os que ali se tornam mais críticos e intolerantes. E onde podemos ser felizes mesmo na tristeza, porque nenhum conforto é maior do que quando se é aceito incondicionalmente.
Casa de mãe é um lugar de preguiça, onde a preguiça reúne suas melhores qualidades, especialmente em dias de feriado. E é lugar de não desejo e não necessidade; é onde nada nos falta. Pensando aqui uma besteira: se houve, de fato, o “bom selvagem”, só quando estivesse em casa de mãe; quem sabe Rousseau também encontrava-se na casa da sua, ao conceber esse tipo...
Casa de mãe sempre foi casa de mãe, imagino. Mas são nesses tempos corridos, de menos afetos e mais afetações, de tantos esvaziamentos e tantos fastios, de lutas em que se tenta derrubar o vento, por não se enxergar o adversário, que casa de mãe faz ainda mais sentido. É um espaço onde somos os mesmos de quase todas as gerações. E é, desse modo, uma espécie de paraíso antropológico, onde podemos melhor nos lembrar quem somos, debaixo de tantas indumentárias, camadas industriais e de tantos escudos contra todos os desmandos a nós perpetrados pelos séculos e pelos poderes.
É um lugar, no entanto, que não existirá para sempre; ainda que fique eternamente guardado no coração.
Será preciso dizer que se aproveite enquanto é tempo? Pois vá visitar sua mãe! Só não abuse!

 Magno Mello

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