terça-feira, 5 de novembro de 2013

O declínio da privacidade

Qualquer pessoa com mais de duzentos amigos no facebook está deliberadamente se expondo e, por isso, quer se expor. Neste caso, mais uma vez nos vemos mergulhados no velho paradoxo da vida: queremos mas não queremos, mas queremos.  Sim, queremos. Este é nosso tema de hoje.

Não há dúvida de que o privado seja algo cultural. Bichos, por exemplo, não têm problemas com privacidade. Ou mesmo os seres humanos de um passado não muito remoto. Se pensarmos que nos anos 1000, durante a primeira Cruzada, milhões de católicos saíram da Europa em direção a Jerusalém, todos juntos, de todos os extratos sociais, príncipes, prostitutas, ricos mercadores, desvalidos, loucos, recatados, crianças e idosos, todos eles, misturados naquele mar de sangue que iam deixando para trás, matando otomanos de qualquer gênero e idade, lambuzando-se também entre seus próprios suores, sujeiras, feridas e genitálias, teremos uma boa idéia do que era privacidade àquela época. 

Estamos vivendo, portanto, uma fase da humanidade, como outras anteriores, em que o privado e o público parecem mais uma vez fundir-se, embora hoje de modo radicalmente menos físico. E antes fosse apenas o confessionário virtual com tantas pessoas se esparramando de corpo e alma nas redes sociais, boa parte delas expondo suas misérias, fraquezas, loucuras, alegrias, vergonhas e outras intimidades; além de ser quase desnecessário comentar sobre as inúmeras fórmulas de reality shows e toda a indústria das celebridades instantâneas, nas quais o trabalho duro é expor-se ao máximo. Há também as milhões de câmeras espalhadas pelas cidades e todas as informações que fornecemos de graça às empresas e aos governos para que invadam nossa intimidade de maneira cada vez mais irrestrita. E ainda, a explosão demográfica de artistas, incluindo aí DJs e auto intitulados compositores, videomakers, cantores, escritores, fotógrafos, poetas e instrumentistas, bem como toda a gama de profissionais, com seus bilhões de páginas e sites abertos para o mundo. Enfim, todo um ambiente propício à máxima interação e exposição do privado junto ao público.
 
A história, todavia, nem sempre se deu assim. Como nos mostra Hannah Arendt, encontraremos distintas situações entre o público e o privado ao longo dos tempos. E, às vezes, diferenças marcantes em mesmo local e época. Reportando-nos à Grécia Antiga, por exemplo, a situação privada era a seguinte: na esfera da casa - ou oikos - o patriarca era o chefe supremo que dominava todos à sua volta, entre esposa, filhos e servos, até com poder de vida e morte sobre estes. Não havia qualquer lei no âmbito privado a não ser a lei daquele que alimentava, abrigava e protegia sua família e seus servos.
 
Mas o domínio absoluto no privado ainda significava muito pouco, pois se esse déspota familiar não conquistasse independência suficiente para sanar todas as necessidades da casa, não poderia fazer parte da koinon, que era a esfera pública, onde se praticava a vida política. Sem essa condição não se podia participar da vida pública nem exercer a retórica na discussão democrática das idéias; embora devemos nos lembrar que a retórica era tão somente a "arte do convencimento" e não da legítima argumentação; e democracia sempre foi isso. 
 
Entrar no âmbito público era um dos princípios maiores da coragem, pois ali iria se defender algumas vezes a própria vida, que podia ser ameaçada pelo mal uso das idéias. Por outro lado, uma vez adentrado na vida pública o cidadão experimentava a democracia plena, sob a qual ninguém estava acima de ninguém, pelo menos até que se provasse o contrário, por meio da argumentação. De resto, as chances eram iguais para todos - isso dentro daquela elite do sexo masculino de economicamente sanados, e contanto que não fossem escravos. 

Lembre-se: o assunto ainda é superexposição nas mídias. 
 
Já no caso do Império Romano o público e o privado se confundiam na figura do rei, a quem tanto uma esfera quanto outra estavam despoticamente subordinadas. Quando o Império Romano ruiu, quem assumiu esse papel unificador das duas esferas foi a igreja católica, que à época crescia a toda velocidade e logo passou a reger toda a conduta moral e espiritual do ocidente. Quase ninguém mais escapava dos olhos onipresentes da igreja. E essa força aglutinadora continuou por toda a idade média.
 
O poder nesses tempos, no entanto, também estendia-se aos senhores feudais, que absorviam e dominavam a esfera privada dos vilãos (habitantes das vilas) e dos servos, centralizando esse comando nas esferas pública e privada do feudo, que incluía o castelo, a vila e as até propriedades dos vilãos. Ali, era o próprio senhor feudal quem administrava a justiça e aplicava as leis. Na segunda metade do século XV (1453), porém, os otomanos tomam Constantinopla. É o fim do Império Romano do Oriente, da Idade Média e também do feudalismo europeu.
  
Nos primórdios da Idade Moderna aparece Lutero, iniciando em 1517 a Reforma Protestante e colocando tudo novamente de cabeça para baixo. Se até aquele momento havia um poder público ou divino, que dominava os âmbitos público e privado, a partir de agora, segundo Max Weber, começava a surgir um novo poder, privado, independente - que mais tarde iria subjugar as esferas pública e religiosa juntas, e sob o consentimento de Deus: o capitalismo. A premissa da lei luterana era que se o homem tinha o poder de acumular bens e não o fazia, estava indo contra a vontade de Deus, pois o próprio Deus havia lhe conferido esse poder. Por outro lado, havia claro aconselhamento quanto ao recato e à austeridade, também preconizado por Lutero em uma de suas 95 teses sobre a nova religião. Conquistar era uma coisa, mas exibir as conquistas era algo bem diferente.
  
Aproxima-se, então, o fim da Idade Moderna e início da Idade Contemporânea, isto segundo os moldes da História tradicional. E o privado, de forma inédita passa a se opor à esfera social e política, inaugurando a era do individualismo, embora ainda fortemente ligado às idéias coletivas. É bom ressaltar neste momento que o individualismo, segundo o sociólogo Norbert Elias, deu seus primeiros passos ainda no final da Idade Média, quando as pessoas começaram a comer e beber em taças e pratos separados, entre outros afastamentos físicos que iniciaram-se por aquela época. Sobre o individualismo já mais avançado, Rousseau foi um dos que mais alimentou a ideologia no século XVIII, de que os sentimentos privados deveriam ser preservados da esfera comum do social.

Hoje encontramo-nos na era do individualismo pleno. Mas mesmo não mais vivendo sob as tradicionais bandeiras de sustentação do coletivo, ou seja, do Estado e da Igreja, temos, no entanto, outro poderoso sustentáculo comum: o do consumo. Em uma analogia rasa podemos dizer que o dinheiro é nosso novo Deus (ou rei) e o consumo, nossa Igreja (ou Estado), mas com a profunda diferença de que dinheiro e consumo não possuem pátria ou credo. Em outras palavras, não estamos mais sob controle de nenhuma moral superior, embora de outras forças até mais efetivas e menos visíveis. 

É aí que voltamos ao nosso tema central e aos dias atuais. Pelo que parece, chegamos novamente a algo próximo à vida pública na Grécia Antiga, onde todos os remediados tinham direito de exibir seus dotes e idéias. E agora, até suas misérias. Hoje, apesar dos bilhões de rechaçados no mundo, somos muitos os sanados economicamente. E conforme as leis gregas da antiguidade, pois ainda vivemos sob conceitos platônicos e aristotélicos de república e democracia, estamos aptos a nos expor. Agora nem tanto com nossas próprias idéias e significações - e ninguém vai nos matar pela falta delas - mas com nossas caras e bocas, nossos vídeos, fotos, máximas emprestadas, rgs, cpfs, emails, telefones, endereços, preferências, dores, prazeres e até vexames públicos.
 
Estamos, também vivendo mais uma vez a experiência radicalmente pública, de certo modo semelhante a que se dava nos tempos das primeiras Cruzadas, embora com a diferença profunda de, nos dias atuais, misturarmo-nos tão pouco no plano físico; pois queremos, mas não queremos, mas queremos.

Não, não queremos. Mas algo mais forte nos separa; ainda que pareça nos unir - e, paradoxalmente, poderá mesmo nos unir, explico logo adiante. O que não deixa de ser um triste espetáculo, pois, ao contrário de todos os outros tempos a vida humana não é mais o centro de nossas preocupações e dedicações. O espetáculo ultrapassou a vida. Não somente o espetáculo da exibição pública. Mas também o da tecnologia pela tecnologia, o do consumo pelo consumo, da produção pela produção, da ciência pela ciência, do dinheiro pelo dinheiro, do poder pelo poder. Nada disso liga-se mais ao ser humano. São apenas obsecações de um processo profundamente vicioso. Saímos de nós, tornamo-nos objetos destes agora sujeitos.

Quero acreditar, todavia, que há esperança, sempre quero. E neste caso, uma de nossas possíveis salvações seria, justamente, a superexposição. Claro, trata-se apenas de uma teoria entre todas as outras que construíram e constroem o mundo. Mas, imagino que quando chegarmos ao limite, quando estivermos enfim todos conectados "de forma quase telepatica", nada mais podendo esconder uns dos outros, por todos os motivos já comentados neste texto, essa coletividade exposta poderá nos fazer lembrar quem somos, para além dos visíveis e invisíveis poderes e processos desumanizantes ao longo da história; embora, confesso, creia bem mais numa catástrofe salvadora.

A humanidade em nós sempre dependeu da legitimação do outro. E do outro sempre dependeremos, caso queiramos mantermo-nos humanos. Diante do afastamento radical de nós mesmos, além do afastamento entre nós, portanto, que foi se dando ao longo da história, talvez não haja outro remédio que não a exposição radical de quem somos e de como estamos neste momento, isso para sobrevivermos como espécie. Expor-se, sempre foi uma tentativa de subjetivar-se no mundo, mas também de conectar-se a outros.

É por isso que vejo alguma esperança nas fotinhos tiradas diante do espelho. E mesmo na entrega de todas as nossas informações pessoais. Deve haver algo de estratégia inconsciente nisso, freudianamente falando. Não é possível que sejamos, assim, tão tolos e burros.


Ou é?

Magno Mello

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