terça-feira, 5 de novembro de 2013

A vida artística é um tobogã, obrigado

É um tobogã, mas muito diferente desses dos que fazem pouco ou se deprimem à toa. É um tobogã repleto de sentido e emoções, assim entendo esse caminho deliciosamente acidentado, o do fazer artístico. Pois é assim essa estrada, em que muitas vezes não importam altos ou baixos, contanto que se crie. Dias nebulosos, estranhos, incômodos, que deságuam em novas e significativas criações? Aceita-se sem dó. Fases de recolhimento e abandono, plantão 24 horas, mergulhos agudos em extravagantes áreas de conhecimento, incertezas crônicas, consumo compulsivo de arte e cultura, nenhum vínculo empregatício, experimentações aleatórias, acometimentos involuntários de criatividade, arroubos epifânicos e febres instantâneas? Tira-se de letra. Até os desertos criativos, isso também se atravessa. E o 4X4 que faz a travessia chama-se fé; sabe-se lá exatamente em que ou quem: Deus, nessa deusa chamada Arte, no mistério, ou apenas na ponta do pincel, ou nas cordas do violão, o que for.

“Io sonno un poeta o sonno un imbecile?” perguntou-se o italiano Lorenzo Stechetti, embora ele próprio devesse saber que isso também tanto faz ao artista. É claro que ninguém gosta de passar mal. E, igualmente, todos querem reconhecimento. Mas mesmo passando bem, o artista passa mal. E mesmo passando mal, passa bem - jobinianamente falando. Está sempre metido num gozo ou numa inquietude qualquer. Sempre comprometido com sua arte, que ele faz questão de chamar de sua, mesmo sabendo que é apenas para uso e não para a posse, como diria Tom Zé.
 
Mas, lá no fundo o que quer o artista? Ora, passear de tobogã enquanto cria. E viver o amor universal, ainda que tantas vezes se atrapalhando no bilateral. Pois, dá-lhe ondulações, curvas radicais, subidas e descidas vertiginosas, e até confusões entre ficção e realidade. O que importa é o passeio. Nesse tobogã, dor não é tristeza, felicidade não é necessariamente alegria. Esse tobogã chama-se vida. E vai na mesma direção das estradas retas, planas e suaves, onde se brinca de trenzinho ou carrinho bate-bate. Esse tobogã chama-se criação e atravessa, e transforma, corpos sólidos. Chama-se caos e, no entanto, cura.
 
É desse modo o viver artístico: incomodamente confortável. Estrada esburacada em carro de luxo. Estrada que desaparece atrás de nós a cada passo, impedindo que se tome novamente o mesmo caminho, de ida ou de volta. E à frente, da mesma forma, só o mistério, a próxima curva, o próximo perigo, a escuridão, a criação do mundo, a arte.
 
Nessa pista ondulada o mundo sempre foi plano.


Magno Mello

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