É um
tobogã, mas muito diferente desses dos que fazem pouco ou se deprimem à toa. É
um tobogã repleto de sentido e emoções, assim entendo esse caminho
deliciosamente acidentado, o do fazer artístico. Pois é assim essa estrada, em
que muitas vezes não importam altos ou baixos, contanto que se crie. Dias
nebulosos, estranhos, incômodos, que deságuam em novas e significativas
criações? Aceita-se sem dó. Fases de recolhimento e abandono, plantão 24 horas,
mergulhos agudos em extravagantes áreas de conhecimento, incertezas crônicas,
consumo compulsivo de arte e cultura, nenhum vínculo empregatício,
experimentações aleatórias, acometimentos involuntários de criatividade,
arroubos epifânicos e febres instantâneas? Tira-se de letra. Até os desertos
criativos, isso também se atravessa. E o 4X4 que faz a travessia chama-se fé;
sabe-se lá exatamente em que ou quem: Deus, nessa deusa chamada Arte, no
mistério, ou apenas na ponta do pincel, ou nas cordas do violão, o que for.
“Io sonno
un poeta o sonno un imbecile?” perguntou-se o italiano Lorenzo Stechetti, embora
ele próprio devesse saber que isso também tanto faz ao artista. É claro que
ninguém gosta de passar mal. E, igualmente, todos querem reconhecimento. Mas
mesmo passando bem, o artista passa mal. E mesmo passando mal, passa bem -
jobinianamente falando. Está sempre metido num gozo ou numa inquietude
qualquer. Sempre comprometido com sua arte, que ele faz questão de chamar de
sua, mesmo sabendo que é apenas para uso e não para a posse, como diria Tom Zé.
Mas, lá no
fundo o que quer o artista? Ora, passear de tobogã enquanto cria. E viver o
amor universal, ainda que tantas vezes se atrapalhando no bilateral. Pois,
dá-lhe ondulações, curvas radicais, subidas e descidas vertiginosas, e até
confusões entre ficção e realidade. O que importa é o passeio. Nesse tobogã,
dor não é tristeza, felicidade não é necessariamente alegria. Esse tobogã
chama-se vida. E vai na mesma direção das estradas retas, planas e suaves, onde
se brinca de trenzinho ou carrinho bate-bate. Esse tobogã chama-se criação e
atravessa, e transforma, corpos sólidos. Chama-se caos e, no entanto, cura.
É desse
modo o viver artístico: incomodamente confortável. Estrada esburacada em carro
de luxo. Estrada que desaparece atrás de nós a cada passo, impedindo que se
tome novamente o mesmo caminho, de ida ou de volta. E à frente, da mesma forma,
só o mistério, a próxima curva, o próximo perigo, a escuridão, a criação do
mundo, a arte.
Nessa
pista ondulada o mundo sempre foi plano.
Magno
Mello
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