Dessa vez eu
mesmo, que acho patético alguém torcer o nariz para o acesso dos menos
favorecidos, além de não ser pessoa de muitas frescuras, me incomodei com o
cheiro de coxinha que se espalhava pelo avião. Quem comia era um rapaz sentado
uma fileira à frente da minha, antes do voo partir. A aeronave era do tipo
turbo hélice em que o ar condicionado só funciona quando se liga o motor. Fazia
calor. E aquele cheiro se espalhava. Felizmente o tempo passou rápido, eu lia O
Estrangeiro, de Camus, e em dez minutos já estávamos decolando.
Bastou o
avião subir e um senhor de aparência bem simples, sentado ao meu lado, começou
a puxar conversa, apesar de eu estar visivelmente mergulhado na leitura. Falou
coisa qualquer, dei resposta breve e voltei às páginas. Em menos de trinta segundos
comentou algo mais. Novamente respondi de forma rápida e por certo respeito
procurei não demonstrar minha impaciência, sufocada com um leve sorriso
amarelo. E mais uma vez voltei ao livro, dessa vez, porém, pensando se não
deveria dar um pouco de atenção ao senhorzinho, que parecia boa pessoa; é que
hoje em dia preferimos tantas coisas a uma troca humana... além do que, ele
dava pequenos sinais de tensão e talvez por isso tentava conversar. Optei, no
entanto, por continuar a ficção.
Mas logo
veio outra pergunta. E uma vez mais, mantive a mesma brevidade na resposta e
igualmente o sorriso meio sem graça. É curioso: eu ali sensibilizado pela
história que lia e tão pouco sensível ao homem que, de certo modo, me
solicitava.
Já estava
nas páginas finais, refletindo em flashes desconectados por que a vida valia à
pena (quem leu o livro talvez me entenda melhor). Foi quando me dei conta de
que o senhor, agora resignado pela falta de meu interesse em conversar, estava
tendo dificuldades em abrir o suco de laranja em caixinha, servido pela
aeromoça. Não percebeu o selo metálico que cobria a abertura da caixa e já a
virava de cabeça para baixo, após razoável embate, pronto para rasgar o papelão
da embalagem com os dentes. A cena ficou até meio cômica, embora para ele não
devia ter graça nenhuma. Ele estava, isto sim, claramente desconfortável
naquele ambiente novo e cheio de tecnologias – depois soube que era sua segunda
viagem de avião na vida.
Quando ele
começava a morder a caixa, porém, fechei o livro e fui socorrê-lo. De modo
sutil e suave, indiquei-lhe o procedimento, observei que essas embalagens eram
mesmo meio chatas de se abrir e que eu também, outro dia, havia me atrapalhado
com isso. O que não era verdade. Mas, como quase todos no mundo, sei o que é sentir-se
constrangido e até inepto num ambiente qualquer.
Pois foi
justamente por isso que o ajudei, é óbvio. Isso se chama compaixão.
Colocamo-nos no lugar do outro, por ter passado algo semelhante ou outras dores
quaisquer. Não fosse essa “transferência”, não estenderíamos a mão a ninguém. É
o caso dos psicopatas: não reconhecem a dor alheia, não fazem a conexão de que
o sofrimento do outro poderia ser o seu. Portanto, não têm a menor consideração
com a vida de terceiros.
Sei que
mudei de assunto. Mas não tive como não pensar em nossos políticos. Dizem que
10% da população comum sofre de psicopatia. E que esse número sobe para 20% no
mundo corporativo. E no congresso, qual seria a porcentagem? Fiquei curioso.
Mas,
voltando a tudo, o senhorzinho, ao se levantar da cadeira quando o avião
estacionou, talvez por alívio ou ainda por algum lastro de nervosismo, começou
a forçar a barra para passar na frente de outros no corredor apertado. Bastou,
porém, cruzarmos nossos olhares para ele decidir esperar calmamente. Gentileza
gera gentileza? É provável. Mas pode haver outras leituras.
E la nave
va. Para onde ninguém sabe.
*fica a dica
para as companhias aéreas: permitir comida quente no avião, especialmente
fritura, é meio indigesto.
Magno Mello
Nenhum comentário:
Postar um comentário