terça-feira, 5 de novembro de 2013

Mais uma de avião

Dessa vez eu mesmo, que acho patético alguém torcer o nariz para o acesso dos menos favorecidos, além de não ser pessoa de muitas frescuras, me incomodei com o cheiro de coxinha que se espalhava pelo avião. Quem comia era um rapaz sentado uma fileira à frente da minha, antes do voo partir. A aeronave era do tipo turbo hélice em que o ar condicionado só funciona quando se liga o motor. Fazia calor. E aquele cheiro se espalhava. Felizmente o tempo passou rápido, eu lia O Estrangeiro, de Camus, e em dez minutos já estávamos decolando.
Bastou o avião subir e um senhor de aparência bem simples, sentado ao meu lado, começou a puxar conversa, apesar de eu estar visivelmente mergulhado na leitura. Falou coisa qualquer, dei resposta breve e voltei às páginas. Em menos de trinta segundos comentou algo mais. Novamente respondi de forma rápida e por certo respeito procurei não demonstrar minha impaciência, sufocada com um leve sorriso amarelo. E mais uma vez voltei ao livro, dessa vez, porém, pensando se não deveria dar um pouco de atenção ao senhorzinho, que parecia boa pessoa; é que hoje em dia preferimos tantas coisas a uma troca humana... além do que, ele dava pequenos sinais de tensão e talvez por isso tentava conversar. Optei, no entanto, por continuar a ficção.
Mas logo veio outra pergunta. E uma vez mais, mantive a mesma brevidade na resposta e igualmente o sorriso meio sem graça. É curioso: eu ali sensibilizado pela história que lia e tão pouco sensível ao homem que, de certo modo, me solicitava.
Já estava nas páginas finais, refletindo em flashes desconectados por que a vida valia à pena (quem leu o livro talvez me entenda melhor). Foi quando me dei conta de que o senhor, agora resignado pela falta de meu interesse em conversar, estava tendo dificuldades em abrir o suco de laranja em caixinha, servido pela aeromoça. Não percebeu o selo metálico que cobria a abertura da caixa e já a virava de cabeça para baixo, após razoável embate, pronto para rasgar o papelão da embalagem com os dentes. A cena ficou até meio cômica, embora para ele não devia ter graça nenhuma. Ele estava, isto sim, claramente desconfortável naquele ambiente novo e cheio de tecnologias – depois soube que era sua segunda viagem de avião na vida.
Quando ele começava a morder a caixa, porém, fechei o livro e fui socorrê-lo. De modo sutil e suave, indiquei-lhe o procedimento, observei que essas embalagens eram mesmo meio chatas de se abrir e que eu também, outro dia, havia me atrapalhado com isso. O que não era verdade. Mas, como quase todos no mundo, sei o que é sentir-se constrangido e até inepto num ambiente qualquer.
Pois foi justamente por isso que o ajudei, é óbvio. Isso se chama compaixão. Colocamo-nos no lugar do outro, por ter passado algo semelhante ou outras dores quaisquer. Não fosse essa “transferência”, não estenderíamos a mão a ninguém. É o caso dos psicopatas: não reconhecem a dor alheia, não fazem a conexão de que o sofrimento do outro poderia ser o seu. Portanto, não têm a menor consideração com a vida de terceiros.
Sei que mudei de assunto. Mas não tive como não pensar em nossos políticos. Dizem que 10% da população comum sofre de psicopatia. E que esse número sobe para 20% no mundo corporativo. E no congresso, qual seria a porcentagem? Fiquei curioso.
Mas, voltando a tudo, o senhorzinho, ao se levantar da cadeira quando o avião estacionou, talvez por alívio ou ainda por algum lastro de nervosismo, começou a forçar a barra para passar na frente de outros no corredor apertado. Bastou, porém, cruzarmos nossos olhares para ele decidir esperar calmamente. Gentileza gera gentileza? É provável. Mas pode haver outras leituras.
E la nave va. Para onde ninguém sabe.

*fica a dica para as companhias aéreas: permitir comida quente no avião, especialmente fritura, é meio indigesto.



Magno Mello

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